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António Luís Marinho 18/05/2018
António Luís Marinho

opiniao@newsplex.pt

Confissões de um adepto arrependido

Não me preocupei com o facto de as autoridades desportivas e o poder político continuarem a refletir sobre a violência no desporto sem tomarem medidas concretas

Sou do Sporting desde que me lembro de ser gente. Adoro o jogo chamado futebol.

Vibro com as vitórias do meu clube e fico triste com as derrotas. Tudo normal, portanto.

Hoje, no entanto, decidi refletir sobre a condição de adepto. Inspiro-me num conhecido poema de Brecht que começa assim: “Primeiro levaram os negros mas não me importei com isso. Eu não era negro.”

Pois bem. Também eu não me importei quando o meu clube ganhou com um golo ilegal.

Não me importei quando o árbitro assinalou um penálti que não existiu e nos deu a vitória.

Não me importei, e até achei graça, quando os argentinos celebraram aquele golo do Maradona que ficou na história como “a mão de Deus”.

Também não me importei quando as claques do meu clube começaram a usar cânticos que insultavam os adversários.

Não me importei quando vi dirigentes de claques ostentarem sinais de súbita prosperidade.

Não me importei com episódios de violência gratuita.

Não me importei com as tochas atiradas para a relva.

De repente, um adepto é barbaramente assassinado ao ser atropelado intencionalmente. Fiquei um pouco preocupado.

Ainda assim, não me preocupei com o discurso agressivo de alguns dirigentes do futebol, incluindo do meu clube.

Não me preocupei com os inúmeros debates circenses emitidos nos canais de notícias das diversas televisões e que dizem ser sobre futebol.

Não me preocupei quando indivíduos de outras claques ameaçaram jogadores dos seus clubes. Eles não eram do meu clube.

Não me preocupei com o facto de as autoridades desportivas e o poder político continuarem a refletir sobre a violência no desporto sem tomarem medidas concretas.

Agora, meia centena de criminosos invadiram a academia de treino do meu clube, agrediram jogadores e treinadores e destruíram instalações.

Agora fiquei preocupado. Mas talvez já seja tarde. Citando de novo Brecht, “como não me preocupei com ninguém, ninguém se preocupa comigo”.

 

Jornalista

 

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