21/11/18
 
 
Alfredo Barroso 07/05/2018
Alfredo Barroso
Cronista

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A “caça” aos da esquerda continua

Na óptica de uma oposição de direita que rapidamente se esqueceu de todo o mal que fez ao país – e de uma série de renegados oriundos da extrema-esquerda que infestam os órgãos de comunicação social ao serviço dessa direita – o actual governo do PS e os partidos da esquerda que o sustentam na Assembleia da República (BE, PCP e PEV) são assim uma espécie de novos “judeus” que é precise eliminar

Não, a “caça” a que me refiro não é ao José Sócrates e ao Manuel Pinho, meros pretextos para tentar dar cabo do governo do PS, sustentado na Assembleia da República por uma nítida maioria de esquerda constituída pelo PS, o BE, o PCP e o PEV. Aliás, um daqueles dois suspeitos – já irremediavelmente “condenados” pela comunicação social que temos – até me ofereceu, há tempos, um livro para me tentar convencer de que “a inteligência é de direita” (“The Political Brain”, de Drew Westen, 2007) mas, quanto ao outro, terei estado duas vezes com ele e conheço-o muito mal. Fui, aliás, quando ainda era do PS, um dos críticos mais duros do seu governo, mas defendi-o pessoalmente na televisão, quando esse governo estava já a “dar as últimas” e ele era vilmente atacado por gentalha que rodeava Passos Coelho, como Miguel Relvas, José Luís Arnault e Paula Teixeira Pinto, que ainda não tinham desistido de me enfrentar na SIC Notícias, no programa “Frente-a-Frente”, que para eles devia ser sempre “Lado-a-Lado”.

O que eu pretendo, porém, é convidar os meus leitores a reparar bem na terrível imagem que estão a dar deste país – por ainda ter um governo de esquerda – os órgãos de comunicação social (jornais, rádios e televisões) propriedade de vários plutocratas e infestados por jornalistas de direita, sobretudo os que “viraram as casacas” e renegaram os partidos de extrema-esquerda de que são oriundos (sobretudo da UDP e do MRPP). Para eles, os portugueses são, de um modo geral, óptimos cidadãos, atentos, veneradores e obrigados, sem vícios nem defeitos de fabrico. Mais: os políticos de direita – mesmo os suspeitos ou já condenados por crimes de corrupção, levando a banca “à glória” (um deles é fortemente suspeito, até, de ter assassinado uma ‘velhota’ que lhe exigia que ele devolvesse o dinheiro dela) – são sempre políticos muito corajosos que sabem muito bem o que fazem, sobretudo quando são desafiados pelo FMI e por “herr” Schäuble a fazer grandes malfeitorias como, por exemplo, cortar nos salários dos trabalhadores e nas pensões dos reformados, reduzir substancialmente as prestações sociais, diminuir os apoios financeiros ao Serviço Nacional de Saúde e ao Ensino Público (para financiar hospitais e colégios privados), ou vender empresas públicas em perfeito estado de conservação aos “comunistas neoliberais” da República Popular da China e a outra gente suspeita obcecada pela exploração de negociatas.

Pelo contrário, os políticos de esquerda são uma cambada de alienígenas, que nem se sabe como é que são portugueses nem como se atrevem a aliar-se para viabilizar um governo do PS, só para tentar fazer perigosamente algum bem à generalidade dos portugueses, os quais, apesar de serem uns “gajos porreiros”, não merecem, de modo algum, “viver acima das suas miseráveis possibilidades”, nomeadamente como trabalhadores precários ou nem isso, e, sobretudo, com os merecidíssimos baixos salários que os nossos empresários e gestores, “de elite mas pouco”, lhes pagam – e já vão com muita sorte!

Claro que, no meio desta “desgraça” toda “causada” pela esquerda no poder, o jornalismo que hoje se pratica neste florido rincão da Península Ibérica constitui, sem dúvida, um admirável oásis (digno de Peter O’Toole, Omar Sharif e Anthony Quinn, que infelizmente já foram desta para melhor), onde é de regra o aprumo ético e democrático adquirido nas melhores escolas e universidades privadas de Portugal e onde não há um único suspeito de corrupção (recebimento de “luvas”) constante das “listas negras” dos “Panama Papers” ou do GES e do BES. Deus nos livre! Que os nossos jornalistas têm todos cuzinhos tão limpinhos como os lindos “bebés Nestlé” da irresistível publicidade “multinacional”! É que, como se sabe, há as tradicionais “forças vivas” da Nação – Estado, Forças Armadas, Igreja, Fátima, Futebol e Família – a que veio juntar-se, imorredoira e pura, a “força viva” que é o jornalismo actual, envergonhando as outras tantas, tal a sua “isenção”…

Todavia, notem bem: na óptica de uma oposição de direita que rapidamente se esqueceu de todo o mal que fez ao país – e de uma série de renegados oriundos da extrema-esquerda que infestam os órgãos de comunicação social ao serviço dessa direita – o actual governo do PS e os partidos da esquerda que o sustentam na Assembleia da República (BE, PCP e PEV) são assim uma espécie de novos “judeus” que é precise eliminar – ou mesmo de “cancros” que é preciso extirpar do poder rapidamente, custe o que custar.

Na falta de argumentos políticos sólidos e de programas de governo consistentes e alternativos, toda essa cambada de gente reaccionária e sedenta de poder invoca constantemente a tragédia dos incêndios ocorridos em 2017 – os únicos, em mais de 70 anos consecutivos e com muitas centenas de vítimas, que são considerados da responsabilidade de um governo – e ataca, com brutalidade inaudita, dois suspeitos de corrupção (Manuel Pinho e José Sócrates) como se porventura fossem membros do actual governo do PS (e logo eles dois, que sempre detestaram e repudiaram o apoio das esquerdas!). Esquecendo, com grande hipocrisia, rapidez e deliberação, mais de uma dúzia de corruptos que mancharam indelevelmente a direita, sobretudo o PPD-PSD, durante os governos de Cavaco Silva e de Passos Coelho.

O clima sufocante e persecutório que está a avolumar-se no quotidiano da política e dos órgãos de comunicação social em Portugal, justificaria certamente uma intervenção pública do Chefe do Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, que deveria dirigir-se ao país – não com “afectos” mas com verdadeiro sentido de Estado – condenando as estúpidas, injustificadas e ilegítimas acusações, que estão a pôr em causa a estabilidade da vida democrática e deliberadamente ignoram os benefícios que a actual governação tem conseguido obter para os portugueses. Não se trata de censurar, trata-se tão-só de chamar à razão! Mas como exigir tal intervenção do PR se foi ele quem incentivou a criação deste clima e pretende pôr termo à governação da esquerda?!

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