Mudei o meu olhar sobre o que pode vir depois


Cada vez mais me imagino grávida. Mudei as crenças, mudei as vontades, mudei o meu olhar sobre o que pode vir depois. Porque, finalmente, acho que também o mereço ter


Não que esteja a pensar nisso para um futuro próximo mas, pela primeira vez, imagino-o como uma realidade futura. Imagino a barriga saliente, o Tiago a chorar que nem um perdido, os meus sobrinhos a serem primos. E essa projeção é novidade para mim. Como vocês sabem (porque me leem há muito tempo), sempre tive imensa dificuldade em visitar- -me no futuro. Talvez não o achasse concretizável, e para me proteger do medo de não achar possível ser uma Marine com filhos, uma Marine velhinha, uma Marine com os anos acrescentados, simplesmente não imaginava nada. Vivia o presente só, ausente de amanhã. Mas agora estou diferente. Mudei as crenças, mudei as vontades, mudei o meu olhar sobre o que pode vir depois. Porque, finalmente, acho que também o mereço ter.

Detesto meter as culpas a quem quer que seja – só nas minhas irmãs, quando éramos mais novas – porque sou defensora acérrima de que as circunstâncias não nos definem por completo. Influenciam, inspiram ou assustam, mas não somos necessariamente vítimas do que nos acontece. Contudo, há uma pessoa que influenciou de alguma forma a minha dificuldade em me imaginar mãe e essa pessoa foi uma médica. Sim, tive muita sorte nos profissionais de saúde que me rodearam, mas não foi tudo perfeito. Não me lembro do nome da dita cuja (sorte a dela), mas lembro-me da voz (acho que se a doutora um dia trabalhar no McDrive vou reconhecê-la). Na consulta de rotina de radioterapia, perguntei-lhe se um dia poderia engravidar. Acho que só queria que ela me dissesse que poderia sonhar com qualquer coisa, que não estava privada de nada, que nada era impossível porque tudo na minha vida ainda estava para acontecer. Mas a médica riu-se. Não deu aquela gargalhada de que eu gosto tanto, mas riu-se com troça, em resposta à minha pergunta que, pelo que percebi pela sua reação, era tão parva. E despejou qualquer coisa como: “Oh Marine, por favor, que raio de pergunta! Acha? Também não pense nisso porque só tem 14 anos!”

E foi isto. Não sei se tinha direito “a achar” aos 14 anos, não sei se tinha direito a pensar num futuro longínquo, mas pensei que sim. Arrependo-me de não me ter defendido (talvez porque a garganta tenha ficado seca), mas nunca me saiu da cabeça esta pergunta que fiz: será que serei mãe? Será que sentirei esse amor maior? Será que posso querer saber isso? Ainda não tenho a resposta, mas acredito piamente que serei mãe – talvez mais chata que a conta, um bocadito hipocondríaca, mas uma mãe que permitirá todas as perguntas.

Falando em mães. Falando em amor absurdo, total, cheio. Esta semana recebi em casa um presente tão bonito. Um livro de Nelson Marques, com um título impactante mas , talvez por estar habituada a nomes difíceis, não o suficiente para me afastar da sua leitura – pelo contrário: “Filhos da Quimio”. Este é um retrato de cinco mulheres que enfrentaram o cancro durante a gravidez e, por mais que nos arrepie só de imaginar esta realidade, não tenham medo porque é um livro de amor.

Claro que não dá para não pensar “se isto poderá acontecer-me”, mas o livro não nos desmoraliza. Não foi isso que senti. Não fiquei com medo do futuro, não fiquei com medo de ser mãe. Fiquei com mais vontade. Mais vontade de saber o que é um amor inesgotável, um amor que não teme, um amor de quem ama sem fim.

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