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Rapazes e raparigas aprendem da mesma maneira?

Rapazes e raparigas aprendem da mesma maneira?

Shutterstock Beatriz Dias Coelho* e Tatiana Costa* 08/09/2017 14:37

Vários estudos já comprovaram que o cérebro das raparigas é diferente dos rapazes, mas será esse o principal motivo para ainda exisitirem, em pleno século XXI, escolas não mistas?

Dar hipótese de escolha na forma como se educam os filhos faz, mais do que nunca, sentido. E entre escolas públicas e colégios privados com um modelo educativo misto, há uma minoria de instituições que oferecem um modelo não-misto. O que justifica a separação?

Os Colégios Fomento são um projeto com duas escolas não-mistas em Lisboa - o Mira Rio para raparigas e o Planalto para rapazes. Na zona do Porto têm o colégio Cedros, para rapazes, e o colégio Horizonte, para raparigas. “Dar igual a quem é diferente não promove a igualdade, podendo até em muitas situações reforçar as diferenças”, defende Margarida Garcia dos Santos, administradora deste grupo de escolas, explicando que o modelo educativo dos colégios se baseia “na educação personalizada e na formação integral dos seus alunos”. Como estratégias pedagógicas, adotam-se “uma diferenciação por sexo, a par da normal diferenciação etária”.

Nas palavras da responsável, a principal vantagem na separação é mesmo a aposta individual em cada aluno, “para que possam tirar o máximo partido das suas características e capacidades, num contexto livre de pressões e estereótipos”.

As raparigas e os rapazes aprendem de forma diferente, como já comprovou a ciência várias vezes, e essa ideia é reforçada pela administradora. “A adoção dessas estratégias diferenciadas são uma forma de dar a rapazes e raparigas iguais oportunidades de sucesso. Sabemos que, por exemplo, no processamento matemático as raparigas usam o córtex cerebral, enquanto os rapazes usam o hipocampo”. Outro exemplo da diferença entre sexos é o facto de os rapazes desenvolverem mais tarde capacidades linguísticas, pelo que ficam em desvantagem em relação às raparigas.

Experiências

 Se o modelo existe noutras escolas e países, não gera consenso. A psicóloga Leandra Cordeiro defende por exemplo que a educação não deve ser separada, pois “a pluralidade e a diversidade na convivência só trazem ganhos para o desenvolvimento. O contacto com quem é diferente de nós só nos ajuda a crescer”.

No relatório “Diferenças de género nos resultados escolares: estudo sobre as medidas tomadas e a situação atual na Europa” lê-se que as escolas mistas aceitam “a diferença biológica entre homens e mulheres, mas rejeita-se a ideia de estereótipos masculinos e femininos”.

Para além disso, Skelton e Francis, num estudo feito em 2009, concluíram que os alunos das escolas não-mistas não aprendem a “lidar com o impacto de uma sociedade mais alargada”.

Entre quem estudou em escolas só para rapazes e raparigas há diferentes visões. Maria Andrade Dias, 48 anos, frequentou o Colégio Mira Rio entre o quarto ano e o décimo primeiro. Apesar de ter adorado a escola, decidiu inscrever os filhos “num colégio misto”. O facto de na sociedade não existir uma divisão entre géneros motivou a sua decisão. “A nível humano, social e até intelectual é muito mais enriquecedor” frequentar uma escola mista, uma vez que desde cedo se é obrigado “a lidar com essa diferença”, acredita.

Já Manuel Santos, 22 anos, e ex-aluno do colégio Planalto, afirma ter vivido uma experiência muito positiva na escola que frequentou e não acha a separação de género uma ideia sem sentido. “Entrei aos 10 anos com o objetivo de vir a frequentar o International Baccalaureate no secundário. Entre outras coisas, o ambiente de estudo ajudou-me a ter hábitos de trabalho”. Além disso, andar numa escola não-mista não influenciou as suas relações pessoais. “A educação diferenciada no meu caso foi muito benéfica para o estudo, mas isso não prejudicou as relações com os outros, até pelo contrário”. Manuel referiu ainda que estar num colégio só de rapazes não deixa ninguém “isolado do mundo”.

Francisco Costa, 56 anos, ex-aluno da escola Pedro Nunes entre o sétimo ano e o nono, numa época em que o liceu era só de rapazes, não guarda memórias tão boas. “Só convivíamos com rapazes, era só brincadeiras de rapazes”, tanto que “havia alturas em que íamos aos colégios de raparigas” só para as ver.

Assim, para Francisco esta divisão não faz sentido, pois “a sociedade é mista em termos de sexos e portanto a escola deve ser um reflexo disso”, assemelhando-se “o mais possível com a vida no dia-a-dia”. Eram outros tempos, mas há imagens que ficam. No seu último ano de liceu, a escola admitiu raparigas e os rapazes juntavam-se à volta delas no recreio para as ver. *Artigo editado por Marta F. Reis

 

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