EUA. Trump escancara  a porta ao racismo branco

EUA. Trump escancara a porta ao racismo branco


Presidente voltou a insistir na culpabilidade dos “dois lados” pela violência em Charlottesville, apontou o dedo à esquerda e recebeu elogios do KKK e da extrema-direita americana


Se vendassem os olhos a um cidadão comum, o colocassem numa rua de Charlottesville, no passado fim de semana, e, retirando-lhe a venda, lhe pedissem para apontar rapidamente tempo e espaço, é bastante provável que no seu leque de palpites imediatos constasse a hipótese de uma qualquer vila ou cidade sulista norte-americana dos anos 30 ou 40, onde o ódio aos não brancos destilava em cada esquina. A realidade, mesmo sendo menos assustadora, é, no entanto, igualmente desconsoladora.

Aquela pequena localidade, situada no estado da Virgínia, testemunhou algumas das mais concorridas manifestações supremacistas brancas dos últimos anos, que juntaram discípulos da alt-right – um movimento extremista alternativo de direita que reúne supremacistas brancos, neonazis e antissemitas –, membros do Ku Klux Klan (KKK) e alguns dos mais fanáticos e racistas movimentos dos Estados Unidos, e culminaram na morte de uma ativista por atropelamento, no ferimento de dezenas de pessoas e na suspeita de que o pior ainda estará para vir, num país que se diz líder mundial da tolerância e da igualdade.

A onda de violência espoletada pelo plano de remoção de um estátua do general Robert E. Lee – um dos principais rostos das tropas esclavagistas da Confederação, que desafiaram a União e deram o pontapé de saída na sangrenta guerra civil norte-americana (1861-1865) – envolveu homens enfeitados com suásticas e munidos de cartazes de ódio racista e antissemita, e representantes de diversos movimentos de defesa de minorias étnicas e de índole antifascista. E se a presença e o caos lançado pelos primeiros em Charlottesville resultou na crítica, praticamente unânime, de todos os quadrantes da política norte-americana, nomeadamente do Partido Republicano, do lado do presidente dos EUA – um dos mais louvados junto dos manifestantes supremacistas – mereceu, num primeiro momento, uma tímida e vaga condenação à “demonstração de ódio, intolerância e violência das muitas partes” envolvidas nos confrontos.

A reação pouco empenhada do presidente Donald Trump foi duramente criticada por democratas e republicanos, particularmente tendo em conta a natureza extemporânea do chefe de Estado norte-americano e a sua predisposição para reagir, via Twitter, a tudo e a nada. Desde as ameaças de ataques nucleares à Coreia do Norte, passando pelas críticas a Meryl Streep ou Arnold Schwarzenegger, ou pelas negações constantes da trama russa, foram poucos os assuntos do dia que o presidente se dispensou de comentar através daquela rede social, pelo que a ausência de uma postura condenatória firme causou estranheza.

Resposta e contra-ataque

A catalogação do “KKK”, dos “neonazis”, dos “supremacistas brancos” e de “outros grupos de ódio” como “repugnantes” chegou enfim, com um atraso de 48 horas, numa declaração pública que a imprensa norte-americana noticia que apenas aconteceu por pressões do novo chefe de gabinete, John F. Kelly, da filha Ivanka e do genro Jared Kushner.

Mas a postura presidencial de Trump durou pouco e a decisão de arrepiar caminho perante uma evidência também. Na terça-feira à noite e a jogar em casa – a partir do lobby da Trump Tower, em Nova Iorque –, o presidente dos EUA, desamarrado de guiões ou discursos redigidos por outras mãos, foi protagonista de uma conferência de imprensa explosiva. Exaltado e disruptivo, o líder norte-americano voltou a disparar contra a comunicação social “desonesta” para defender que a sua primeira reação à violência em Charlottesville foi a mais acertada – justificando que não possuía “todos os factos” para uma declaração mais pormenorizada – e para insistir na tese da responsabilidade dos “dois lados” nos confrontos. Para além de ter sugerido que nem todos os manifestantes da direita eram neonazis, supremacistas brancos ou “más pessoas”, Trump não se coibiu de criticar os contramanifestantes.

“Então e os [membros da] alt-left que atacaram aqueles que vocês descrevem como alt-right? Não têm nenhum sentimento de culpa?”, questionou o presidente, confrontado por um jornalista com o caso da ativista que perdeu a vida, no sábado, depois de um homem ter investido de carro em direção a um grupo de pessoas que protestavam contra os supremacistas. “De um lado tivemos um grupo que era mau. E do outro tivemos um grupo que também era muito violento. Ninguém ousa dizê-lo, mas eu digo-o aqui e agora”, reforçou o presidente, ladeado de assessores desconfortáveis e de olhos colados ao chão, alguns corados de vergonha.

Pelo meio, e entre disparos de “fake news” para aqui e para ali, Trump defendeu ainda o direito dos que se juntaram em Charlottesville de protestar contra a retirada da estátua do general Lee e lembrou que essa situação merece bastante destaque: “Esta semana é o Robert E. Lee. Pergunto-me se George Washington será o próximo. E se Thomas Jefferson será na semana seguinte. Devem questionar-se a vocês próprios quando é que isto vai parar”, lançou.

Supremacistas sorriem

Se aquilo que se verificou no estado da Virgínia atesta inequivocamente que o movimento supremacista branco nunca foi verdadeiramente erradicado de algumas regiões dos EUA, a postura do atual presidente, inédita nas últimas décadas – Ronald Reagan, George H. W. Bush e George W. Bush condenaram duramente e de forma sistemática as manifestações supremacistas e os seus adeptos –, tem tudo para juntar na mesma fogueira os ingredientes que faltavam para o (re)alastramento do mesmo pelo país.

É que ainda que Trump tenha voltado a condenar tais movimentos e a afastar-se do neonazismo, a verdade é que não fez o suficiente para se afastar (bem pelo contrário) de duas das principais bandeiras da direita racista americana: a condenação de grupos extremistas de esquerda e a defesa de monumentos evocativos de líderes ligados ao movimento esclavagista e secessionista do século XIX americano.

Não surpreendeu, portanto, ver reações de euforia oriundas dos principais rostos do movimento supremacista branco dos EUA. O ex-líder do KKK, David Duke, agradeceu “a honestidade e a coragem do presidente Trump” e o conhecido nacionalista Richard B. Spencer rotulou o seu discurso de terça como “justo e realista”. Já o site de propaganda racista, xenófoba e misógina Breitbart News – anteriormente dirigido por Steve Bannon, o conselheiro presidencial que concebeu toda a estratégia de campanha eleitoral de Trump e um orgulhoso filósofo da alt-right e da antiglobalização – deleitou-se com o “rugido do presidente contra a imprensa”.

Ontem de manhã, e depois de um novo tweet dirigido à Coreia do Norte, Donald Trump parece ter querido mostrar que não está minimamente arrependido com a postura assumida na véspera. “MAKE AMERICA GREAT AGAIN!”, limitou-se a escrever o presidente dos Estados Unidos naquela rede social, ao mesmo tempo que se atropelavam pela imprensa americana e mundial reações de estupefação e assombro.