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Altice revoluciona media

Altice revoluciona media

Sónia Peres Pinto 15/07/2017 18:01

Com a compra da TVI e da Rádio Comercial, o grupo francês reforça a sua estratégia global e abre uma nova era no mercado dos media em Portugal. Os olhos estão agora postos na reação da NOS e da Impresa. O grupo de Balsemão está numa encruzilhada: aguarda proposta da NOS ou ataca negócio junto da Concorrência?
 

Depois de meses de negociações oficiosas e oficiais, foi oficializada ontem a compra da Media Capital, dona da TVI, pela Altice Media, por 440 milhões de euros. Este valor implica que a Prisa receba pela venda de quase 95% da sua posição na Media Capital um valor superior a 320 milhões de euros, de acordo com o comunicado enviado pela empresa espanhola. 

«A aquisição avalia a Media Capital com um valor de empresa de 440 milhões de euros», incluindo a dívida e os ajustamentos no fundo de maneio, diz a Altice, que garante que o impacto desta operação seja imediato ao nível do free cash flow da francesa. Um valor que, segundo o CEO do grupo francês, Michel Combes, é considerado «consistente», uma vez que vê este ativo com «potencial».

De acordo com as contas trimestrais da Media Capital, o passivo é de 170 milhões. Para um endividamento líquido de quase 100 milhões de euros. Além do valor que terá de pagar à Prisa, pelos 94,69% que os espanhóis detêm, a Altice teve de lançar uma OPA obrigatória, na qual se propõe comprar os 5% remanescentes. O que avalia esta compra da posição de minoritários em 11,5 milhões de euros. A maior parte da posição dos minoritários está concentrada no caixa económica galega NCG Banco, que detém 5% dos 5,13% ainda dispersos no mercado.

Estratégia global é prioridade

Com esta operação, a Altice quer  não só fazer crescer a Media Capital no mercado nacional, como também reforçar a sua política de estratégia global. Daí estar previsto exportar conteúdo português para outros territórios em que a Altice atue, em especial para França e para os Estados Unidos, investir na expansão digital, desenvolver novos canais televisivos e formatos, lançar novos serviços, aumentar os investimentos em conteúdos portugueses, melhorar o alcance de canais fundamentais como a TVI 24 e usar a Plural como o núcleo de produção de conteúdos global. 

Aliás, este é o caminho que tem sido adotado pela Altice nos vários países onde está presente. É o caso de França, Estados Unidos e Israel. «A Altice quer fornecer mais conteúdos a todos os consumidores portugueses num mundo digital e, como tal, disponibilizar mais oferta centrada em formatos e produção locais», sublinhando a vontade de «fortalecer significativamente o setor dos media».

Michel Combes, CEO do grupo Altice, revelou ontem estar muito entusiasmado por juntar dois líderes de mercado no setor das telecomunicações em Portugal. «Estamos muito entusiasmados com esta caminhada», disse, acrescentando ainda que a convergência que foi iniciada em outros países vai «começar também em Portugal, com os melhores ativos que se possa imaginar. De um lado, a PT e do outro lado a Media Capital», referiu durante a conferência de imprensa.

Também Paulo Neves, presidente executivo e do Conselho de Administração da PT Portugal, lembrou que esta aquisição «é uma tendência que existe, mas é a primeira vez que se prova que existe».

A operação ainda precisa de receber luz verde por parte das entidades reguladores: Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) e da própria Autoridade da Concorrência (AdC), mas Michel Combes considerou que será um processo sem entraves, «suave».

Para já, a presidente executiva da Media Capital, Rosa Cullell, mostrou disponibilidade em ficar em Portugal com a sua equipa, embora essa decisão seja da responsabilidade do acionista. Ainda assim, Michel Combes manifestou interesse em trabalhar com a gestora.

Balsemão numa encruzilhada

O negócio tem inevitavelmente impacto no mercado dos media e a luta por conteúdos, principalmente audiovisuais, vai intensificar-se. Essa realidade já era antecipada pelos analistas do Caixa BI, quando afirmavam que «uma nova disputa entre os operadores de Telecom por conteúdos pode intensificar-se».

O cenário mais provável em cima da mesa para fazer face a esta operação da Altice poderá passar por uma resposta da NOS junto da Impresa, dona da SIC. O próprio CEO da operadora de telecomunicações, Miguel Almeida, admitiu há meses que não iria ficar de braços cruzados caso a Altice comprasse a Media Capital. «Se a Altice comprar a TVI e os reguladores não fizerem nada, haverá guerra», revelou em dezembro passado.

A verdade é que esta compra da Media Capital deixa o grupo liderado por Francisco Pedro Balsemão numa encruzilhada. Se for opor-se a esta operação junto da entidade da Concorrência também fica de braços atados se vier a receber uma oferta da NOS. Para já, Balsemão tem sido de poucas palavras em relação a esta matéria. Só no início deste mês, quando foram oficializadas as negociações entre a Altice e a dona da TVI afirmou que «era preciso aguardar pelo desfecho deste processo que certamente também terá intervenção regulatória e concorrencial e depois logo vemos como vamos agir». 

Para o grupo Haitong, esta solução poderia ser vantajosa para manter equilibrado o acesso aos conteúdos no mercado nacional - um novo campo de batalha onde as duas operadoras de telecomunicações se têm confrontado, sobretudo no que diz respeito aos conteúdos desportivos. «Miguel Almeida não elaborou no que entendia como retaliação mas, na nossa visão, é claro de que a NOS pode considerar comprar o outro grupo de comunicação social, a Impresa, que tem a SIC, para ter poder negocial contra a PT/Altice», disse.

Uma opinião partilhada mais recentemente pela Caixa BI, ao revelar que «este cenário assume que a NOS não permanecerá passiva nesta guerra. […] Um cenário possível seria a NOS lançar uma proposta sobre a Impresa, que poderia estar avaliada em 230 milhões de euros».

Já o presidente da Vodafone, Mário Vaz, chegou a afirmar que, sendo que do ponto de vista económico a televisão é um negócio difícil, então o objetivo de quem compra «deve ser devidamente investigado e esclarecido» pelos reguladores.

Impacto na bolsa 

Esta mexida está a ter impacto no mercado bolsista. As ações da Media Capital fecharam a última sessão da semana a valorizarem 17% para os 3,64 euros. Um valor que está 29,8% acima da contrapartida oferecida pela Altice. Já a Prisa fechou a subir mais de 10% para 3,02 euros, tendo chegado a disparar mais de 19,5%, enquanto a Altice subiu 2,02%, para 20,45 euros.

Os títulos da Impresa fecharam a valorizar 13,30% para 0,43 cêntimos. Ainda no campo dos media, a Cofina também registou ganhos, com as ações a avançarem 1,48% para 0,41 cêntimos.
 

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