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Alfredo Barroso 16/06/2017
Alfredo Barroso

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Um albergue espanhol em França

O La Republique en Marche! apadrinhado pelo recém-eleito presidente francês faz-me lembrar o PRD que, por cá, foi apadrinhado pelo presidente Eanes em fim de mandato

Mais de metade do eleitorado francês (51,29 %) não foi votar na 1.ª volta das eleições legislativas, estabelecendo assim um autêntico recorde de abstenções. A parte restante, que não chega a metade do eleitorado, decidiu votar maioritariamente no movimento político La Republique en Marche, a que o general De Gaulle provavelmente chamaria “o coiso” (“le machin”), e a que eu chamarei, mais prosaicamente, “albergue espanhol” – que me faz inevitavelmente recordar o que foi, por cá, em meados da década de 1980, o PRD (Partido Renovador Democrático) apadrinhado e impulsionado pelo então Presidente da República em final de mandato, general Ramalho Eanes.

O movimento político La Republique en Marche, apadrinhado e impulsionado pelo recém-eleito Presidente francês, Emmanuel Macron, que logrou obter 32,2 % dos votos, é, de facto, um autêntico “albergue espanhol” recheado de veteranos da política francesa, que prometem renová-la depois de virarem as casacas e fazerem “liftings” que não disfarçam as suas imensas e profundas rugas no rosto. Trata-se, afinal, de uma conjugação conjuntural e provisória de oportunistas de todos os bordos que, sob a capa da suposta “renovação” ou “refundação” da República Francesa, aspiram à constituição de um novo partido político suficientemente difuso, no qual possam dar vazão às suas ambições pessoais, que não lograram vencimento nos partidos tradicionais.

Toda esta “mascarada” resulta, por um lado, da progressão eleitoral da Frente Nacional de Marine Le Pen – que conseguiu disputar a 2.ª volta da eleição presidencial com Emmanuel Macron, mas que, agora, não foi além de 14 % dos votos expressos – e, por outro lado, da “dinamitagem” do Partido Socialista Francês, levada a cabo por um “comando” constituído pelo medíocre Presidente François Hollande, um primeiro-ministro oportunista, Manuel Valls, e um ministro da Economia ex-gestor do banco de negócios Rothschild & Cie, Emmanuel Macron, que apunhalou pelas costas os outros dois enquanto o diabo esfrega um olho, ovacionado pelo patronato e pela direita em geral.

É evidente que o PSF tem largas culpas no cartório ao deixar-se arrastar retardatariamente pelos arautos da Terceira Via, que muitos julgavam morta mas o que estava era mal enterrada em França. Seguiu, assim, o destino do PASOK, na Grécia, do PSOE, em Espanha, e de outros partidos ditos socialistas fascinados pela doutrina (e moda) neoliberal. A decisão de “dinamitar” o PSF coube a Manuel Valls, numa famosa entrevista à revista L’OBS, a 23 de Outubro de 2014, na qual se recusou a considerar-se “socialista” – por ser tão só “pragmático, reformista e republicano” – e afirmou ser urgente “acabar com a esquerda passadista”, defendendo Emmanuel Macron por serem ambos representantes de “uma nova geração que assume as suas responsabilidades”. Macron espetou-lhe um punhal antes de ser eleito e, após a eleição, foram os seus apoiantes que lhe enterraram o punhal até aos copos, quando Valls zarpou do PSF e foi pedir asilo político a Macron.

Por cá, a direita e os seus comentadores estão decepcionados com o excelente resultado obtido pelo Labour Party de Jeremy Corbyn nas eleições legislativas no Reino Unido, e não perdem uma ocasião para lhe manifestarem o seu ridículo desprezo. Também os irrita imenso a boa saúde do governo do PS apoiado por uma maioria parlamentar de esquerda. Custa-lhes muito que António Costa tenha resgatado o PS do velho “arco da governação” e não se cansam de lhe desejar um lindo enterro. Insultam-no e rezam-lhe pela pele todos os dias. Dizem que Costa e Centeno são “malabaristas” que vão acabar “com as bolas esborrachadas no chão”. Chamam “pantomineiro” a Costa e acham que ele “bem sabe que a pantomina está para acabar”. E garantem que é “zero” a responsabilidade deste Governo no crescimento do PIB e no aumento das exportações.

O futuro é incerto, mas atrevo-me a predizer que o “albergue espanhol” de Macron vai acabar por ter o mesmo destino do PRD. Tal como os meteoritos ou estrelas cadentes, que se desfragmentam totalmente quando entram em contacto com a atmosfera terrestre, assim estes movimentos ditos “renovadores” se desfragmentam politicamente ao entrarem em contacto com a realidade.

 

Escreve à sexta-feira,

sem adopção das regras

do acordo ortográfico de 1990

 

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