19/8/17
 
 
Nuno Ramos de Almeida 17/04/2017
Nuno Ramos de Almeida

nuno.almeida@newsplex.pt

A verdadeira bandeira

Quais são os verdadeiros alvos dos ataques dos EUA na Síria e Afeganistão e da exibição de força ao largo da península coreana? É Damasco, Teerão e Pyongyang, ou seremos nós?

No número de dezembro da excelente revista brasileira “piauí” publicava-se um texto do jornalista da “New Yorker” Evan Esnos sobre o que seria o mandato de Donald Trump à luz do seu programa e biografia. O artigo começa por nos revelar o milionário por ele próprio. No seu livro “Como Ficar Rico”, de 2004, Trump explica a sua genialidade: “As pessoas sempre ficam surpreendidas com a rapidez com que tomo decisões importantes, mas aprendi a confiar em meus instintos e a não pensar muito.” E acrescenta: “A descoberta de que a superficialidade pode ser inteligente foi para mim uma experiência profunda.” Evan Esnos também mostra outros conselhos reveladores do atual presidente em que ele se orgulha de ser desconfiado e vingativo. “Se você não reage à altura, então não passa de um idiota!”, escreveu em 2007. “Seja paranoico”, aconselhou em 2000. Se a “superficialidade” é boa, Trump é genial. Em 1984, com 30 e poucos anos, afirmou ao “Washington Post” que queria negociar os acordos nucleares com os soviéticos. “Demoraria uma hora e meia para aprender tudo sobre mísseis”, declarou. “E, de todo modo, acho que já sei quase tudo.” Segundo Bruce G. Blair, investigador do Programa de Ciência e Segurança Global da Universidade Princeton citado pelo jornalista da “New Yorker”, Trump, numa receção em 1990, encontrou um negociador americano de armas nucleares e deu-lhe conselhos sobre como fazer um acordo “genial” com seu equivalente soviético. Aconselhou-o a chegar atrasado, encarar o interlocutor, enfiar-lhe o dedo no peito e dizer: “Fuck you!” Há pouco tempo, um ex-funcionário republicano da Casa Branca a quem Trump recorre disse a Evan Esnos: “Honestamente, o problema com Donald Trump é que ele não sabe o que não sabe.” Neste momento, o presidente Donald Trump terá sempre a seu lado um assistente militar encarregado de levar a maleta de couro e alumínio de 20 quilos com um “manual para a condução da guerra nuclear”. A mala, conhecida na gíria da Casa Branca como a “bola de futebol”, tem uma lista de alvos estrangeiros: cidades, arsenais e infraestruturas. Para dar início a um ataque, Trump teria de, em primeiro lugar, comprovar a sua identidade a um comandante na sala de guerra do Pentágono, confirmação que é feita mediante códigos inseridos numa carteira de identidade única conhecida como “biscoito”. (De acordo com Dan Zak, autor da obra recente sobre armas nucleares: “Almighty: Courage, Resistance, and Existential Peril in the Nuclear Age”, “conta-se que Jimmy Carter, certa vez, por acidente, enviou o ‘biscoito’ para a lavanderia. Bill Clinton o teria perdido e durante meses não contou a ninguém”.)

O problema da cara alaranjada de Trump e dos seus comentários sobre “as maravilhosas” explosões ou o “fantástico” bolo de chocolate que comia enquanto mandava atacar “o Iraque” é que todas essas coisas nos fazem pensar que o ataque à Síria, a explosão “da mãe de todas as bombas” no Afeganistão e a excursão de um porta-aviões nuclear, acompanhado de uma esquadra de ataque, às costas da Coreia do Norte são fruto de uma imbecilidade pessoal agravada por uma idade teimosa. Nada mais falso. Um imbecil pode provocar um acidente que leve o planeta à guerra, mas a política permanente de conflito que está por detrás do homem só pode ter chegado à Casa Branca porque corresponde a uma corrente fundamental dos interesses de parte da elite financeira e política norte-americana.

Há anos circulava na América Latina uma anedota em que se perguntava e respondia a uma questão: “Qual a razão por que não há golpes de Estado nos EUA?”, “Porque lá não há embaixada norte-americana”, explicava a história. Washington têm um historial de promover invasões, intervenções armadas e conspirações noutros países. Essas ações, profusamente legitimadas por uma comunicação social que raramente tem capacidade de as investigar, são normalmente antecedidas de acontecimentos que fazem parte da aceitação de uma ação violenta por parte da opinião pública. O ditador Bashar al-Assad não é um menino de coro, mas é curioso que, numa altura em que está a ganhar a guerra na Síria, resolva fazer um ataque com armas químicas para matar 80 pessoas, a maioria das quais crianças, permitindo assim colocar o seu poder em risco e legitimando a nova intervenção dos EUA. A resposta de que Washington é uma “democracia” e os “democratas” não se portam mal à mesa tropeça na história. Os EUA apoiaram e apoiam – veja-se o caso da Arábia Saudita – algumas das mais sanguinárias ditaduras do mundo. De tal forma que uma vez interrogado um presidente dos EUA sobre o apoio da sua administração ao sanguinário ditador Anastasio Somoza, ele terá retorquido: “É um filho da puta, mas é o nosso filho da puta.”

Os EUA já inventaram várias vezes falsos pretextos para atacarem outros países. Em 1964, o presidente Lyndon B. Johnson e os serviços secretos norte-americanos afirmaram que barcos dos EUA tinham sido atacados a 4 de agosto de 1964 no golfo de Tonkin. Segundo eles, havia provas evidentes de que os navios tinham sido atacados por unidade navais norte-vietnamitas. Com base nisso, aviões norte-americanos bombardearam bases da armada norte-vietnamita e foi dada uma ordem para a intervenção dos EUA diretamente na Guerra do Vietname.

Em 2005, documentos desclassificados revelaram que não houve nenhum ataque de navios do Vietname no golfo de Tonkin. E que a ordem que justificou a escalada militar dos EUA já estava redigida muito antes do alegado incidente. Os serviços secretos e a NSA falsificaram os registos das comunicações norte-vietnamitas para tornarem credível a acusação e justificarem, perante a opinião pública, o envolvimento militar direto na Guerra do Vietname.

A sequência de acontecimentos e de ataques dos EUA tem mais alvos do que aparentemente parece ter. Os mísseis dos EUA sobre a segunda maior base aérea da Síria têm como alvo aparente Damasco, Teerão e Pyongyang, mas como alvo real o congresso dos EUA e os aliados europeus, que se apressarão a fazer a genuflexão da praxe às bombas do império. Os mísseis na Síria, a superbomba que destruiria uma cidade como Lisboa, a exibição de força ao largo da Coreia do Norte servem para mostrar poderio militar, pretendem legitimar Trump perante os norte-americanos, afastar qualquer inquérito à ligação russa nas eleições e, sobretudo, mostrar que os EUA continuam a mandar porque têm os mísseis maiores.

Todas as projeções económicas dão que os EUA estão a perder a liderança da economia mundial em poucas décadas. Estas recentes ações são muito menos fruto de uma cabeça imprevisível com um penteado inconsequente do que parecem. A maior potência militar mundial está a atuar como um grupo de segurança que vende os seus serviços a discotecas: paguem-lhe que não terão problemas que eles próprios podem criar. Washington está a perder o poder económico e quer garantir de outra forma, se isso for necessário, a sua supremacia. A guerra sempre foi a continuação da política por outros meios.

Voltemos à história. Em 1899, os Estados Unidos da América discutiam no Congresso a anexação das antigas colónias espanholas que tinham lutado pela sua independência, nomeadamente as Filipinas. Nessa altura, o poeta britânico Rudyard Kipling escreveu um poema apologético para declarar que o facho da civilização tinha passado das mãos do Reino Unido. “O Fardo do Homem Branco” defendia que passara a caber a Washington tratar dos selvagens para o bem deles, sem contar com o seu agradecimento. Os nativos do mundo tinham de ser dirigidos pelas potências ocidentais. Eram homens inferiores, de civilizações fracas que precisavam de ouvir a voz do dono. Os agitadores deviam ser castigados e eliminados, se necessário por meios violentos. Os selvagens deviam ser controlados, para seu bem. Assim começava a declaração de bondade civilizadora:

Tomai o fardo do Homem Branco

Enviai vossos melhores filhos

Ide, condenai seus filhos ao exílio

Para servirem aos vossos cativos;

Para esperar, com chicotes pesados

O povo agitado e selvagem

Vossos cativos, tristes povos,

Metade demónio, metade criança.

 

Entre o consenso dos meios de comunicação e dos poderosos houve um homem que não se calou. O escritor que assinava Mark Twain, autor d’“As Aventuras de Huckleberry Finn”, respondeu com um artigo em plena euforia “civilizadora”, quando os poderosos norte-americanos abriam garrafas de champanhe pela anexação das ilhas do Havai, Samoa e Filipinas, de Cuba, Porto Rico e de uma ilhota que se chama, eloquentemente, dos Ladrões. Perante isto, Twain faz uma singela proposta, pede que se mude a bandeira nacional: que sejam negras, diz, as listas brancas, que umas caveiras com tíbias cruzadas substituam as estrelas e que os EUA assumam a verdadeira identidade de piratas.

 

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