22/8/17
 
 
António Ribeiro Ferreira 27/02/2017
António Ribeiro Ferreira
Opiniao

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Caixote de lixo público

Qual sms, qual carapuça. As fumaças da classe política só servem para esconder quem roubou e deixou roubar milhões e milhões da CGD, a vaca sagrada alimentada pelos portugueses

A guerra dos sms de António Domingues, as comissões de inquérito, a que está suspensa e a outra prometida, os gritinhos de indignação que andam no ar sempre que o banco público aparece nas notícias, as tiradas do senhor Presidente da República, do primeiro--ministro e quejandos sobre os assuntos encerrados que ninguém quer encerrar só têm um objetivo: desviar as atenções do que realmente interessa saber sobre a gestão da CGD nestes últimos 16 anos.

Desviar as atenções dos oito mil milhões de créditos em risco, desviar as atenções dos dois mil milhões injetados no banco em 2012 e dos cinco mil milhões que este governo se prepara para meter na Caixa nos próximos tempos.

Desviar as atenções e travar a ordem do Tribunal da Relação para serem reveladas as situações dos 50 maiores devedores da CGD, nomeadamente o montante, os valores de créditos em incumprimento, as garantias e os decisores envolvidos. As atas da comissão executiva do banco público também terão de ser disponibilizadas, tendo em conta que é indiscutível o interesse público na aferição da real situação da entidade bancária. A CMVM é, por sua vez, obrigada a divulgar toda a atividade no âmbito de contencioso que envolveu a CGD desde 2000, da mesma forma que tem de revelar, igualmente, as conclusões de todas as averiguações, investigações e processos abertos desde 2000 que têm a CGD como personagem.

É evidente que esta decisão da Relação fez tocar todas as campainhas de alarme do sistema. A Caixa recorreu, o Banco de Portugal também e a classe política, da direita à esquerda, tudo fará para impedir que os portugueses saibam quem deixou e quem andou a roubar o banco público.

Para azar do sistema, a Relação indeferiu os pedidos de sigilo feitos pela Caixa e pelo Banco de Portugal. Resta saber se o banco do Estado, depois de mais um recurso para o Supremo Tribunal de Justiça, cumpre ou não a decisão judicial e se os deputados da comissão de inquérito ainda querem ver quem andou a roubar os portugueses anos a fio.

Pode muito bem acontecer que, a bem da nação, a comissão se extinga e os senhores deputados se dediquem a espiolhar sms e outras matérias tão importantes para a pátria.

Esta realidade sinistra, que o sistema e os seus protagonistas querem esconder a todo o custo, não é muito diferente do que se passou no BPN, BPP, BES, Banif e também no BCP de Jardim Gonçalves. A justiça portuguesa e o Banco de Portugal condenaram os gestores privados do BPN, do BPP, do BES e do BCP e os deputados da nação promoveram comissões de inquérito ao BPN, BES e Banif. Agora que estão em causa um banco público, governos, gestores do Estado e os empresários amigos dos políticos assiste-se a uma verdadeira lei do silêncio, uma omertà mafiosa.

Agora que os contribuintes e acionistas do banco público vão pagar uma fatura superior à que o Estado pagou pelo BPN e Banif, o silêncio é total da esquerda à direita. Agora, como é um banco público, não se vê o Ministério Público e o juiz Carlos Alexandre a fazerem buscas públicas em casa de políticos e gestores, prisões em direto e medidas de coação exemplares para quem deu e para quem gozou e não pagou os milhões que voaram do banco público, talvez levados pelas vacas voadoras de António Costa.

O medo é tanto que o governo, a esquerda, a direita e a comunicação social lacaia do sistema e muito amiga de tudo o que é público arranjaram outro espetáculo para entreter e enganar os portugueses. Nada mais nada menos do que a novela dos dez mil milhões enviados para offshores, tema que provoca de imediato muitos orgasmos, desmaios e rasgar de vestes pelas virgens do costume.

Quando o tema se esgotar e toda a gente perceber que não houve nenhum escândalo ou ilegalidade, apenas falta de registo público, os criadores de factos, os mentirosos do costume irão com certeza encontrar outro escândalo, outra polémica para que os cadáveres da CGD fiquem muito bem escondidos nos armários do querido banco público.

Mas por muito que tentem e façam, a verdade é que a Caixa Geral de Depósitos foi, é e será o caixote do lixo do regime. Em tachos e em créditos políticos dados aos amigos e empresários de um regime que falhou em toda a linha. Um regime podre e uma falsa democracia, sem economia e sem um futuro que se recomende.

As soluções nunca virão de dentro. Serão sempre impostas de fora, a bem ou a mal. Da Europa ou dos Estados Unidos. As chamadas elites portugueses estão ao nível do caixote de lixo. Estão ao nível da cotação da dívida pública e do querido banco público.

 

Jornalista

 

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