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Nicola. O café dos improvisos de Bocage

Nicola. O café dos improvisos de Bocage

Diana Tinoco Joana Marques Alves 30/04/2016 12:07

Conhecido por ser um espaço frequentado pelo poeta Bocage, o Café Nicola ‘sobreviveu’ a uma guerra civil, à queda da monarquia, ao Estado Novo e a várias crises financeiras.

Lisboa, 1787. A capital portuguesa recupera aos poucos e poucos a vida que tinha antes do terramoto que a assolou 32 anos antes. Vários investidores vêm em Lisboa uma oportunidade de negócio - Nicola Breteiro foi um deles.
Este italiano decide abrir o Botequim do Nicola no sítio a que hoje chamamos Praça D. Pedro IV, no Rossio. A inauguração do espaço não passou despercebida a ninguém, tendo mesmo a “Gazeta de Lisboa” (jornal fundado em 1715 e extinto em 1820) feito referência à abertura do estabelecimento – a comercialização de cafés e refrescos tornou-se um sucesso e rapidamente este botequim lisboeta deu nas vistas.

A academia dos reprimidos… e de Bocage. Na altura da inauguração deste espaço já se viviam tempos politicamente conturbados em Portugal. O Intendente-Geral da Polícia do tempo da Rainha D. Maria I, Diogo Inácio de Pina Manique, era responsável pela repressão das ideias oriundas da Revolução Francesa (1789-1799) e pelo controlo de vários grupos, como os jacobinos e os maçons. De acordo com alguns registos mais antigos e as histórias que foram passando de boca em boca, estes organizavam reuniões no Nicola, com o objetivo de minar os pilares do Antigo Regime e aliciar novos elementos.

Para além destes, o botequim albergava também escritores, pintores, intelectuais e políticos da altura – a essa clientela se deve a atribuição da alcunha ‘Academia’ a este espaço. Um dos clientes mais conhecidos e assíduos era Manuel Maria Barbosa du Bocage. O poeta passou largas horas neste café a declamar alguns dos seus poemas e a participar em tertúlias literárias. Diz-se, aliás, que depois de ter falecido, o seu grupo de amigos continuou a frequentar o Nicola e a organizar tertúlias, mantendo assim o seu espírito vivo.

Terá sido no Nicola que o poeta amaldiçoou o padre absolutista, escritor e polemista truculento José Agostinho de Macedo e ditou a um amigo ‘Pena de Talião’, uma sátira ao seu inimigo.

O próprio café acabou por constar na obra de Bocage: reza a história que, após uma tarde de pândega neste espaço, um polícia lhe perguntou quem era, de onde vinha e para onde ia, ao que o poeta respondeu em verso:

“Eu sou Bocage
Venho do Nicola
Vou p’ro outro mundo
Se disparas a pistola”.

De café a ourivesaria, passando por livraria. Devido às fortes pressões políticas que se faziam sentir na altura e aos confrontos entre as autoridades e a clientela, o Nicola é obrigado a fechar portas em 1834, no final da guerra civil entre absolutistas e liberais. 

O espaço prosseguiu como livraria e chegou mesmo, no início do século XX, a transformar-se numa ourivesaria. O local acaba por ser adquirido por Joaquim Fonseca Albuquerque, antigo sócio do Café Chave d’Ouro, em 1929. O novo dono decide manter o conceito e o nome original, retirando apenas a palavra ‘botequim’ e substituindo-a por ‘café’. Albuquerque quis manter o espírito que se tinha perdido com o encerramento do estabelecimento e homenagear Bocage com uma estátua criada pelo escultor Marcelino de Almeida e quadros do pintor Fernando Santos. 

A presença do poeta naquele café ficou eternizada na escultura, na poesia… Mas também no próprio café: a família Albuquerque decidiu criar o seu próprio lote de café, proveniente do Brasil e São Tomé e Príncipe, comercializando-o com o nome Nicola. Este é sempre associado à figura do poeta, daí que o símbolo da embalagem de café tenha sido, durante vários anos, um desenho de Bocage. Esta ligação entre o lote de café e o estabelecimento quebrou-se há 10 anos – “O café precisava deste espaço para o marketing, nós precisamos dele para viver”, explicou ao i Rui Oliveira, gerente desta casa há precisamente uma década.

Um espaço de campanhas. Os tempos foram passando e o Café Nicola manteve-se um local de referência. “Muitas personalidades passaram por este espaço. Principalmente políticos – é um local de referência durante as campanhas”, diz Rui Oliveira, sem querer adiantar nomes. Apesar da conotação política por vezes atribuída ao café no passado, o atual gerente do espaço afirma que tal não se verifica nos nossos dias – “é um café frequentado por membros de todos os partidos políticos, todos passam aqui”. Para além das personalidades políticas, o Café Nicola também recebeu várias pessoas do meio artístico. “Estiveram aqui vários artistas nacionais e estrangeiros, a maioria atores brasileiros”.
E, seguindo a tradição imposta nos primeiros tempos de ‘vida’ deste estabelecimento, os momentos de divulgação cultural continuam a ser uma prioridade. “Tivemos durante algum tempo sessões de jazz no café. Agora temos noites de fado. É uma forma de divulgar a nossa cultura”, explica o gerente.

“Faço a paz, sustento a guerra, 
Agrado a doutos e a rudes, 
Gero vícios e virtudes, 
Torço as leis, domino a Terra”.

Ainda hoje, Bocage é visto pelo meio popular como ‘o homem das anedotas’. No entanto, parte do seu anedotário é-lhe erradamente atribuído. Uma coisa é certa – tinha sempre uma resposta na ponta da língua: quer para os que adorava, quer para os que odiava. Podia ter sempre uma palavra mordaz para dirigir a alguém, mas também sabia quando declamar os mais doces versos. E muitos terão sido escritos depois de alguns copos e encontros inesperados no Nicola.

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