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“Lisboa, Cidade Triste e Alegre”. Retrato de uma sinfonia urbana dos anos 50

“Lisboa, Cidade Triste e Alegre”. Retrato de uma sinfonia urbana dos anos 50

Ana Tomás 11/10/2015 18:12

O livro que a dupla de arquitectos-fotógrafos Victor Palla e Costa Martins publicou em 1959 vai agora para a sua terceira edição, a segunda com a chancela da Pierre von Kleist. Lançado ontem na loja “A Vida Portuguesa” do Intendente, “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” é considerado por muitos o melhor fotolivro nacional. Um documento que revela as diferentes facetas da capital nos anos 50 e que, como qualquer clássico, se quer disponível.

“Este álbum é diferente: não se trata de um simples inventário ou reportagem documental e muito menos duma colecção de ‘bonitas’ provas isoladas. As fotografias que compõem o volume, afastando-se tanto quanto é possível daquilo que se entende por fotografia de ‘salon’, são antes o retrato da Lisboa humana e viva através dos seus habitantes – de dia, de noite, nos seus bairros, na Baixa, no Tejo –, revelação ora alegre ora triste, mas sempre terna e sentida, da vida duma cidade.”

A explicação que Victor Palla e Costa Martins deram sobre o seu livro poderia servir para a cidade de hoje, com dinâmicas e circunstâncias diferentes, mas igualmente imperfeita e dicotómica. Mas é da “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” dos anos 50 que se fala no texto, uma das anotações dos dois arquitectos e fotógrafos que o criaram.

O retrato chega agora a uma terceira edição pela Pierre von Kleist, que em 2009 já tinha feito a primeira reedição deste documento fotográfico originalmente publicado em 1959, em sete fascículos subscritos.

São cerca de 200 fotografias que Victor Palla (1922-2006) e Costa Martins (1922-1996) seleccionaram de um total de seis mil, paginaram e fizeram acompanhar de textos de vultos literários como Fernando Pessoa (e os seus heterónimos), António Botto, Almada Negreiros, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Alberto de Serpa, Cesário Verde e Gil Vicente, e de inéditos de Eugénio de Andrade, David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill e Jorge de Sena, entre outros.

Além do conteúdo da versão original, a terceira edição traz, tal como a segunda, que a Pierre von Kleist publicou há seis anos, um suplemento com um texto original do crítico de fotografia britânico Gerry Badger, uma pequena introdução à história do livro e a tradução para inglês do índex, que os autores fizeram e no qual descrevem cada imagem e outros pormenores, conforme explica José Pedro Cortes, que gere a editora com André Príncipe. “É uma oportunidade de o público internacional também ver o que foi directamente escrito pelos autores”, refere José Pedro Cortes, que lembra que “Lisboa, Cidade Triste e Alegre” é por muitos considerado o livro de fotografia português mais importante, tendo-se tornado um objecto de culto e praticamente raro.

“Isso tem muito a ver com a história inicial. As pessoas subscreviam nos quiosques locais os sete fascículos e no final recebiam uma capa, levavam a encadernadores e ficavam com uma cópia. Acontece que, dos fascículos que foram impressos, houve muitas pessoas que não concluíram a colecção, portanto poucas cópias foram feitas na altura”, explica o editor.

Depois da primeira edição, o livro caiu no esquecimento e só em 1982 seria recuperado, quando António Sena o incluiu na exposição “Lisboa e Tejo e Tudo”, na galeria Ether. Muitos dos fascículos, por encadernar, foram reunidos, tendo-se feito cerca de 200 cópias que colocaram esse material de novo no mercado. Mais tarde, através de Gerry Badger e Martin Parr, que o escolheram para figurar no primeiro volume de “The Photobook: A History”, o livro de Victor Palla e Costa Martins ultrapassaria as fronteiras do país para alcançar reconhecimento internacional. Sobre ele, Badger e Parr escreveram: “‘Lisboa, Cidade Triste e Alegre’ é particularmente notável pelo uso de ideias gráficas desenvolvidas por fotógrafos como William Klein ou Ed van der Elsken, criando um livro vibrante, com uma sequência cinemática.”

Várias lisboas A descrição feita em “The Photobook: A History” ecoa nas palavras de José PedroCortes quando explica o que torna este livro especial na forma como revela a capital portuguesa naquele tempo, a vida de cidade em plena ditadura, entre a pobreza e uma certa aspiração à grandiosidade. “É um livro que tenta retratar uma Lisboa em todas as suas vertentes e não apenas na visão do Estado Novo, das Avenidas Novas e todos os grandes monumentos. Uma Lisboa que vai desde as varinas, em Alfama, até às crianças a brincar nas escadas. Portanto, o livro misturava tudo o que a cidade tinha para mostrar na altura”, descreve. Ou, como os próprios autores definiram, um poema gráfico e, simultaneamente, a sinfonia de uma cidade, de algum modo seguindo a tendência dos livros de fotografia do pós-guerra.

Há, no entanto, outra marca que distingue a forma como a cidade é vista e que se prende com o facto de terem sido dois arquitectos a observá-la e fotografá-la. “Por um lado, via-se que olhavam atentamente para o fervilhar da cidade, um fervilhar transversal, de todas as classes sociais, mas ao mesmo tempo – e talvez seja isso que torna o livro mais importante e mais arrojado – sem as preocupações da fotografia enquanto arte.” Os autores fotografaram para o livro, com as imagens a reflectirem um ritmo e uma sequência e a valorização do cru e do espontâneo, em detrimento do estudado ou do tecnicamente perfeito, somando ainda decisões graficamente arrojadas. “Acho que isso só acontece porque são autores que não vêm da fotografia, mas que têm esse lado muito visual”, considera.

Da Lisboa dos anos 50 para a dos dias de hoje sobram referências que não se perderam com o tempo. Nas zonas históricas, como o Bairro Alto ou Alfama, sobrevivem a traça e aspectos da vivência de outrora. O que a obra cristaliza, para além do registo da cidade à época em que foi fotografada, é, como sublinha José Pedro Cortes, o sentimento de uma Lisboa na encruzilhada entre duas realidades. “Há uma cidade que tenta fugir para uma arquitectura inspirada pela arquitectura internacional, pelos novos edifícios que estavam a ser criados em Alvalade, nas Avenidas Novas, mas com a carga muito grande de um passado pobre, com vida de rua, com pessoas que iam fazer o seu dinheiro, dia a dia, semana a semana.”

Paisagens Entre a Lisboa triste e alegre, a arquitectura que se impôs e se manteve presente, por oposição a outras marcas que desapareceram, revela-se a escura face da cidade branca. No final do livro, há uma parte em que as fotografias foram quase todas feitas à noite e com uma abordagem e técnica modernas. Imagens parcialmente desfocadas ou arrastamentos, nas quais se adivinha uma Lisboa boémia. 

Como em qualquer sinfonia, também aqui não se quer perder o tom, e a terceira edição, depois de esgotados os dois mil exemplares da segunda, quer garantir isso mesmo. “Da mesma maneira que existem muitos clássicos da literatura que repetidamente se vão publicando, é justo que o livro mais importante da história da fotografia portuguesa esteja disponível.”

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