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10 razões para a derrota do PS

10 razões para a derrota do PS

Mario Cruz/Lusa Ana Sá Lopes 05/10/2015 12:28

Depois de quatro anos de enormes sacrifícios, a coligação PSD/CDS vence as eleições. Todas as esperanças depositadas em António Costa desvaneceram-se e o PS conseguiu só mais um ponto do que o “poucochinho” obtido por Seguro nas Europeias. Como é que se pode explicar isto?

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Crise da social-democracia O caso mais evidente é o Pasok, o partido grego irmão do PS que praticamente desapareceu do mapa político. Em Maio os trabalhistas ingleses sofreram uma pesada derrota oferecendo de bandeja aos conservadores uma maioria absoluta. Os socialistas europeus, unidos na Europa aos conservadores em todas as questões políticas básicas, têm dificuldade em apresentar um projecto eleitoral alternativo. Quando teve 31% nas eleições europeias, Seguro invocou que o resultado estava em linha ou era superior aos dos seus partidos irmãos por essa Europa fora.

2

Costa não foi “o líder” António Costa desafiou António José Seguro para o confronto interno porque considerou a vitória nas eleições europeias por 31% “poucochinho”. Na altura das primárias, as sondagens davam António Costa – e os “costistas” utilizaram isso na campanha – como o mais bem colocado para ganhar as legislativas. O capital político de António Costa, que era gigantesco há um ano, foi sendo pouco a pouco desperdiçado. Perdeu os primeiros tempos enquanto líder da oposição num pesado silêncio, afirmando que só tomaria uma posição sobre qualquer coisa quando tivesse pronto o “cenário macroeconómico”. Claramente a estratégia do silêncio fê-lo perder o enorme capital de esperança que acompanhou a sua ascensão a secretário-geral do PS. Quando finalmente surgiu, o cenário macroeconómico era complexo e não serviu para captar eleitores à esquerda, sendo que o PS foi incapaz de contrariar as acusações da direita sobre “o regresso ao despesismo”.

3

Factor Sócrates Ter o ex--primeiro-ministro preso no dia das directas para a eleição de António Costa como secretário-geral foi um choque para o PS. António Costa bem tentou dissociar o partido do caso judicial que envolve Sócrates, mas o fantasma esteve sempre lá. Entre os socialistas apoiantes de Costa muitos defendiam que o ex--primeiro-ministro era “um preso político”, como ele próprio se afirmou. O próprio José Sócrates disse por duas vezes que o seu processo “visava prejudicar o Partido Socialista nas eleições legislativas”. Se a investigação contra Sócrates foi um fantasma que perseguiu Costa desde o dia 1 como secretário-geral, a famosa “herança” governativa de Sócrates foi igualmente um factor de perturbação da liderança de António Costa. Se Costa tinha acusado António José Seguro de pura e simplesmente não falar da “herança”, o próprio António Costa teve dificuldades em lidar com a “herança”. Os portugueses não estavam reconciliados com o governo que, segundo a narrativa que foi interiorizada pela maioria, tinha conduzido através do seu “despesismo” o país “à bancarrota”. Só nos últimos dias da campanha António Costa se apercebe deste risco eleitoral e vem invocar indirectamente a “herança”, criticando-a. É quando diz que não se pode comparar a retirada da sobretaxa “à construção do TGV”.

4

Desunião no PS António Guterres, depois da guerra fratricida com Jorge Sampaio, conseguiu aparecer nas eleições de 1995 com o PS unido. A ajuda preciosa de Jorge Coelho fez com que em Outubro de 1995 guterristas e sampaístas estivessem unidos pelo cimento do poder iminente. António Costa não conseguiu unir o partido. Com as feridas da guerra das primárias do Verão de 2014 ainda abertas, António Costa não se preocupou minimamente com uma verdadeira união do partido. Desprezou totalmente a capacidade de desgaste interno que os 30% que tinham saído derrotados das primárias acabariam por fazer no PS. É evidente que integrou “seguristas” nas listas, mas muito poucos. A “vingança” foi terrível e acabou por vir na forma da candidatura presidencial de Maria de Belém, a presidente do partido durante o consulado segurista, que conseguiu apoiantes muito para além do reduto dos apoiantes de António José Seguro. António Costa, que tinha apostado tudo num apoio do PS à candidatura de Sampaio da Nóvoa, vê-se de repente com uma candidatura de uma ex-presidente do PS que não tem o seu apoio e que espelha claramente a ferida aberta que a eleição do secretário-geral foi incapaz de sarar no PS.

5

A solidão Tal como António José Seguro, António Costa fechou-se sobre si mesmo e sobre um núcleo reduzido de fiéis. Uma parte do PS sentiu--se distante da nova liderança, mesmo aqueles que tinham sido seus grandes apoiantes. António Costa não conseguiu estruturar um discurso que passasse uma mensagem clara aos cidadãos que fosse alternativo ao simplismo da coligação. O “cenário macroeconómico”, por muito louvável que seja, foi uma mensagem que não chegou ao cidadão comum.

6

Taxa Social Única. Se a maioria das pessoas não percebeu na íntegra o cenário macroeconómico do PS percebeu pelo menos uma coisa muito clara: o PS queria reduzir a Taxa Social Única para aumentar o consumo, mas que iria ter repercussão nas contribuições para a Segurança Social. Se a redução da TSU dos patrões ia quase deitando abaixo o governo de Passos Coelho – uma medida que Passos assumiu, depois recuando – a ideia do PS ficou sempre colada ao risco de desmantelamento da Segurança Social, um tema muito sensível para os portugueses. Ao contrário do corte dos 600 milhões nas pensões que está no PEC enviado a Bruxelas pelo governo – que Passos Coelho disfarçou desafiando o PS para um amplo consenso em matéria de Segurança Social – a medida foi escrutinada amplamente pela opinião pública. E condenada também largamente, mesmo entre sectores simpatizantes do PS.

7

Campanha desastrosa O discurso de Carlos do Carmo no almoço na Cervejaria Trindade, com o fadista a insultar a candidatura presidencial de Maria de Belém, sentada na mesma mesa, foi só a cereja no topo do bolo de uma campanha eleitoral cheia de “gatos”. Do famoso escândalo dos cartazes, que levou à demissão do director de campanha Ascenso Simões, até aos próprios cartazes e palavras de ordem totalmente despojados de “espírito de vitória”, passando pelos discursos erráticos de António Costa que ora fazia um discurso totalmente à esquerda ou lançava os dados do moderadíssimo programa macroeconómico.

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Eficácia da coligação Muita da ciência política explica que as eleições perdem-se, não se ganham. Ora, depois dos quatro anos mais duros que os portugueses viveram nos anos recentes, era natural a derrota do governo. Até os próprios partidos da maioria não contavam com a vitória até há uns tempos. Mas as coisas inverteram-se quando Passos Coelho e Paulo Portas, numa campanha minuciosamente preparada – ao contrário do visível amadorismo do PS – conseguiram fazer passar a mensagem que o governo “tinha posto as contas em ordem”, evitado o segundo resgate, conseguido a diminuição da taxa de desemprego e o regresso da confiança dos consumidores. Contra isto, o medo: se vierem os socialistas, voltaremos “à bancarrota”. O PS não conseguiu desmontar este discurso nem provar que podia fazer muito diferente. O país não quis trocar “o certo pelo incerto”, nem o conhecido pelo desconhecido que não dava garantias de grandes mudanças. Pior: Costa não conseguiu transmitir aquilo de que mais se orgulhava e tentou vender nos cartazes: confiança.

9

A Grécia Não foi por acaso que Passos Coelho, nos últimos dias da campanha, invocou “o colega Alexis Tsipras”. A capitulação da Grécia, em que depois de um referendo em que ganhou o “não” ao programa europeu, os gregos acabaram por aceitar um programa muito pior, foi uma derrota das alternativas à austeridade. Se nem o Syriza, um partido outrora radical, conseguia lutar contra a Europa, como o poderia fazer o PS “bonzinho”? Em Portugal, o efeito Grécia não penalizou o Bloco, o partido-irmão do Syriza. Aliás, deu-lhe mais 5% dos votos que podiam ter feito a diferença se fossem parar ao PS.

10

Dívida Pública Se um dos grandes problemas nacionais é a dívida, o PS não tem nenhuma alternativa àquela preconizada pela coligação. Ao apoiar o Tratado Orçamental e ao ter desistido da reestruturação, mostrou que a alternativa dos socialistas é difícil de explicar e trabalhosa de pôr em prática. 

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