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As velhas famílias da máfia estão de volta a casa

As velhas famílias da máfia estão de volta a casa

João Campos Rodrigues 23/07/2019 18:44

Uma operação conjunta das autoridades italianas e norte-americanas deteve 19 pessoas ligadas à máfia na passada semana. “Têm contactos em Nova Iorque e a partir daí na América Latina. É isso que preocupa”, disse o criminólogo Federico Varese.

Menos de dois anos depois da morte do il capo dei capi – ou chefe de todos os chefes – Salvatore “Totò” Riina, em 17 de novembro de 2017, as autoridades italianas e norte-americanas aperceberam-se de uma crescente ligação entre a máfia siciliana de ambos os lados do Atlântico. O motivo? O regresso à terra mãe do clã Inzerillo, que tinha fugido para Nova Iorque para escapar à perseguição do clã Corleonesi de Riina. “Aqueles que Riina queria matar estavam a criar um laço especial entre Palermo e Nova Iorque”, afirmou o procurador italiano Roberto Tartaglia a semana passada, após revelar que tinham sido detidas 19 pessoas na Sicília e nos Estados Unidos, numa operação policial conjunta entre ambos os países contra o crime organizado. A notícia foi dada pelo La Reppublica, sob a manchete “o Padrinho voltou”.

Entre os detidos estão nomes como Tommaso e Francesco Inzerillo, bem como Salvatore Gambino – presidente da Câmara de Toretta, na Sicilia – e Thomas Gambino, de uma das famosas “Cinco Famílias” que durante décadas dominaram o crime organizado em Nova Iorque. “Nas guerras da máfia nos anos 80, os Inzerillo estiveram do lado que perdeu. A maioria deles foram mortos. Mas os Gambino, que eram ligados aos Inzerillo, imploraram a Riina que não os matasse a todos, que lhes permitisse escapar – para nunca mais regressar. Com a morte de Riina, isso mudou. Agora, estão de volta”, explica ao i Federico Varese, autor de vários livros sobre a máfia, como Mafia Life (ed. Desassossego), e professor de Criminologia na Universidade de Oxford.

Chamou-se guerras das máfias aos sucessivos massacres dos restantes capos por Riina. O capo dei capi nasceu na vila rural de Corleone, na Sicília – de onde eram oriundos os Corleone, a família fictícia de mafiosos italo-americanos retratada no filme O Padrinho, de Francis Ford Coppola. Apesar dos dois fenómenos serem frequentemente confundidos, Varese salienta que “a máfia siciliana e a Cosa Nostra em Nova Iorque são duas organizações distintas, desde há décadas. Pelo menos desde os anos 50, talvez desde os anos 30. Ser membro de uma não te torna automaticamente membro da outra”. Ainda assim, as duas organizações mantêm um certo grau de ligação – “particularmente no caso dos Inzerillo, que têm casamentos com membros da família Gambino. Isso faz parte da história destas detenções”, assegura o especialista.

Vingança Se o capo dei capi está morto – e nenhum dos seus sucessores parece capaz de reorganizar os clãs –, muitos lealistas continuam a monte. E não estão nada satisfeitos com o regresso dos Inzerillo. “Têm medo que [os Inzerillo] se vinguem dos velhos Corleonesi”, nota Varese – que falou com mafiosos da velha guarda muito receosos. A vingança de Francesco e Tommaso Inzerillo, o irmão e o primo de Salvatore Inzerillo – o “rei” da heroína de Palermo, morto pelos Corleonesi – seria uma trama digna de um filme. Mas as novas gerações dos clãs não mostram grande interesse no assunto. “Estão preparados para esquecer as velhas guerras e seguir em frente, para bem dos grandes negócios – especialmente de drogas”. Além disso, “a máfia siciliana está sob uma pressão enorme” – como mostram as detenções da semana passada. “É por isso que estamos a conversar, porque foram presos rapidamente. Eles andam a ser presos a toda a hora”, refere Varese. Contudo “a nova geração não é como Riina, não quer começar uma guerra com o Estado”, nota. “Seria estranho, mas temos de esperar para ver”.

Dinheiro De facto, grandes negócios são exatamente o que tem faltado à máfia siciliana nas últimas décadas. A Cosa Nostra “não é tão relevante como costumava ser porque não está envolvida em tráfico de droga a larga escala” – ao contrário dos seus vizinhos da Ndrangheta, a máfia calabresa, “que está entre os mais ricos e poderosos grupos de crime organizado a nível global”, segundo um relatório da Interpol de 2013 – que estima que os rendimentos anuais desta organização sejam da ordem das dezenas de milhares de milhões de euros.

Já a Cosa Nostra, ainda está “presente no oeste da Sicília, onde controla alguns bairros”, explica Varese. Os seus rendimento vêm sobretudo de esquemas de proteção (extorsão) e de contratos públicos, conseguidos através de subornos ou intimidação. Ou conseguindo eleger a sua própria gente – como será o alegado caso da eleição de Salvatore Gambino para a Câmara de Toretta. Mas pouco mais que isso. “Eles [máfia siciliana] não importam droga da Colômbia. Podem comprar a droga na Calábria ou até em Nápoles, para vender localmente, mas não são atores principais no tráfico internacional”, conta.

É por isso que ganha relevância o regresso dos Inzerillo – e a chegada dos Gambino. “Dá-lhes uma dimensão internacional. As ligações em Nova Iorque poderiam permitir-lhes [à máfia siciliana] entrar no tráfico de droga, à grande. E os Inzerillo foram parte disso nos anos 80”, explica . Aliás, terá sido o fluxo de dinheiro da heroína do patriarca dos Inzerillo, Salvatore, um dos motivos do conflito com Riina – que os acusava de não partilhar. Além do suposto desdém com que as famílias mais urbanas, estabelecidas em Palermo, olhavam para os máfias mais rurais como os Corleonesi. Chamavam-lhes peri ‘ncritati – qualquer coisa como “pés de lama” em siciliano – contaram vários pentito – ou arrependidos da máfia.

Hoje, relegados para um papel de poder local – e sem um líder impiedoso como Riina – os novos Corleonesi “estão muito abertos a negociar com os Gambino e com os Inzerillo”. Os retornados “têm contactos em Nova Iorque, e a partir daí na América Latina. É isso que preocupa as autoridades”, explica Varese.

Porquê voltar? “Seria de imaginar que pudessem ter ficado em Nova Iorque. Mas a situação lá é capaz de ser ainda pior que na Sicília, onde ainda conseguem operar nos bairros” – algo que é bem demonstrado pelo homicídio do capo dos Gambino, Francesco “Franky Boy” Cali, abatido em março à porta da sua casa em Staten Island (ver caixa). Os antigamente todo-poderosos Gambino “podem ver a máfia siciliana como sendo mais forte que a máfia italo-americana em Nova Iorque, e querem recuperar isso”. Mas, fora de todos estes cálculos, sobra o apelo de voltar às raízes. Mais ou menos em linha com as declarações de Thomas Gambino, que após a sua detenção disse às autoridades que estava na Sicília para umas “férias de família”, segundo o The Daily Beast.

“Eles são sicilianos. A ideia de que as pessoas querem sempre partir [da Sicilia] não é sempre necessariamente correta”, considera Varese. Ao longo da sua investigação aos mais diversos tipos de crime organizado, das mais variadas nacionalidades, o professor de Criminologia notou um padrão comum: “A maioria das pessoas na máfia que estão longe das terras natais não querem estar ali, querem estar em casa. As máfias são extremamente enraizadas no seu território. Estar longe é perder poder”.

Cinema Quando pensamos em crime organizado, provavelmente a primeira coisa que nos virá à cabeça será a Cosa Nostra. “Houve muitos, muitos filmes importantes, como O Padrinho, de [Francis] Coppola, que descrevem a máfia de um modo incorreto, diferente do que é na realidade a máfia italo-americana – mas que lhe deram uma grande reputação. O fantasticamente interessante é que os mafiosos adoraram. E copiaram a imagem que foi feita deles”, explica Varese – acrescentando que os tempos áureos da Cosa Nostra na grande tela já se foram. “Hollywood, as grandes produções de cinema perderam interesse na máfia siciliana. As produções mais recentes são todas sobre os cartéis no México e na Colômbia, como o Narcos. Em Itália, os programas mais populares de televisão são sobre a Camorra [máfia napolitana]”.

Para Varese, a explicação é simples. “Hoje, o grande assunto são as drogas”, tanto a nível de lucros, como a nível “da imaginação internacional”. Ao não estar envolvida no tráfico “vemo-la [máfia siciliana] em declínio. Tanto na realidade como no imaginário comum”.

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