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’Oumuamua, naves interestelares e emprego (científico) para sempre?

’Oumuamua, naves interestelares e emprego (científico) para sempre?

Luís Oliveira e Silva 05/03/2019 10:18

Um professor de Harvard, Avi Loeb, publicou um artigo científico no final de 2018 em que explora a hipótese de ‘Oumuamua ser um artefacto artificial enviado por uma civilização extraterrestre para explorar outros sistemas solares

‘Oumuamua é o primeiro objeto detetado e referenciado com origem exterior ao sistema solar. Foi descoberto a 19 de outubro de 2017 pelo telescópio Pan- -STARRS no Havai e, como a palavra havaiana tenta descrever, é o primeiro mensageiro que vem de longe ou de um passado distante. As suas características físicas, como a sua forma alongada, a velocidade e a trajetória interestelar, já o tornam um objeto astronómico singular. Mas as discussões que tem motivado são ainda mais extraordinárias: um professor de Harvard, Avi Loeb, publicou um artigo científico no final de 2018 em que explora a hipótese de ‘Oumuamua ser um artefacto artificial enviado por uma civilização extraterrestre para explorar outros sistemas solares. Muitos cientistas têm questionado esta interpretação, mas Avi Loeb tem reforçado a necessidade de explorar com novas missões e observações os objetos interestelares e também a sua responsabilidade, como professor universitário, de explorar os caminhos científicos mais arriscados. O que levará um dos mais importantes astrofísicos do mundo a arriscar assim a sua reputação?

Avi Loeb não é estranho a estas questões, como presidente do conselho científico do projeto Breakthrough Starshot. Este projeto, liderado por Yuri Milner, empresário, filantropo e mentor dos maiores prémios científicos – os Breakthrough Awards, de Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, e Stephen Hawking (até ao seu falecimento em 2018) –, pretende lançar milhares de nanossatélites, com velas de luz propulsionadas por feixes laser, que atinjam em 20 anos o planeta Proxima Centauri b, descoberto no âmbito do projeto Pale Red Dot do European Southern Observatory em 2016 e que orbita a estrela mais próxima do sistema solar, Proxima Centauri, localizada a cerca de quatro anos-luz da Terra.

É assim natural que estivesse particularmente atento às características que um artefacto artificial interestelar poderia ter ao atravessar o nosso sistema solar. Observações futuras de outros objetos semelhantes, assim como os estudos em curso sobre ‘Oumuamua, permitirão concluir se a conclusão de Avi Loeb, a que corresponderia uma das maiores descobertas da humanidade, é ou não a explicação mais simples ou a mais verosímil. Como acontece sempre com a ciência, e parafraseando Feynmann, se não estiver de acordo com os factos experimentais, está errado, independentemente de quem o tenha afirmado.

Em entrevistas recentes, Avi Loeb tem explicado o imperativo moral que sente para ser livre para arriscar: esse é um dos privilégios e responsabilidades de um professor universitário com “academic tenure”, ou seja, com um lugar permanente na universidade. Esta discussão é central quando falamos das universidades e, em particular, das universidades de investigação, e está intimamente associada também às discussões recentes, em Portugal, relacionadas com o emprego científico.

Só um contexto que permita que os professores possam refletir, sem restrições ou preocupações com o seu emprego, poderá proporcionar o ambiente intelectual para desenvolvimentos revolucionários. Por exemplo, a demonstração do último Teorema de Fermat resultou do trabalho do matemático Andrew Wiles entre 1986, já depois de se tornar professor na Universidade de Princeton, e 1995. Os maiores avanços resultam de esforços continuados, incompatíveis com os ciclos mais curtos de bolsas, projetos ou contratos. É assim crítico manter e reforçar a exigência da academic tenure, central para a missão das universidades e fundamental para sustentar a liberdade para discutir, criar, pensar e inovar.

Este estatuto de emprego (científico) para sempre não é, portanto, o objetivo ou o prémio final de uma carreira. Representa uma responsabilidade inicial acrescida para com a descoberta científica e um compromisso ainda mais intenso com a investigação e a liberdade académica. É assim natural que, na generalidade dos países, este estatuto seja reservado a um número muito reduzido dos doutorados, após serem cuidadosamente avaliados e terem demonstrado inequivocamente a sua independência científica, criatividade e liderança.

Em Portugal realizam-se 3 mil doutoramentos por ano. Um cálculo global, sem analisar a distribuição dos doutorados por área científica, indica que as universidades e politécnicos deveriam recrutar anualmente 550 doutorados, assumindo carreiras académicas de 35 anos. Assim, e mesmo considerando que estamos ainda longe destas taxas de recrutamento, nem todos os que se doutoram em Portugal poderão um dia almejar atingir o estatuto de academic tenure.

É por isso que exemplos como os de Avi Loeb são particularmente importantes. Mesmo colocando em risco a sua reputação – afinal, o seu recurso mais valioso –, não hesita, em profundo respeito pela sua profissão e pela confiança que lhe é dada pela sua universidade quando lhe concede academic tenure, em exercer a sua liberdade académica, em prosseguir questões intelectualmente criativas e exigentes ou, como afirmou numa entrevista recente, “not to worry about the ego, but about uncovering the truth. Especially after you get tenure”.

 

Professor catedrático do Departamento de Física, Presidente do conselho científico do Instituto Superior Técnico

 

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