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Sem-abrigo. Quando o mundo inteiro cabe dentro de uma mochila

Sem-abrigo. Quando o mundo inteiro cabe dentro de uma mochila

José Sérgio Rita Pereira Carvalho 27/12/2018 21:21

Na cidade de Lisboa há cerca de 350 pessoas que vivem na rua. Falta de trabalho ou a dependência de drogas romperam o teto de gente que hoje não tem destino certo. Grande parte junta-se ao almoço e ao jantar na CASA, uma instituição que garante refeições aos sem-abrigo que nada têm para comer. 

 

Nos Anjos, em plena Avenida Almirante Reis, existe um restaurante com menus executivos a 11 euros e também um hotel de três estrelas. Entre o restaurante e o hotel encontra-se o Centro de Apoio Social dos Anjos (CASA), com almoços e jantares para quem não tem o que comer e onde dormir. Esta casa mata a fome a dezenas de sem-abrigo que sobrevivem nas ruas de Lisboa. 

São 11h15 da manhã e a fila começa a formar-se junto ao centro de apoio social dos Anjos, uma instituição da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que ajuda quem mais precisa há 90 anos. Os almoços começam a ser servidos ao meio dia, mas há quem chegue cedo. Tempo é de facto uma das coisas que a rua não tirou aos cerca de 350 sem-abrigo da cidade de Lisboa. “Temos o tempo todo do mundo”, diz quem espera do lado de fora. 

E é do lado de fora, na rua, que se encontram as histórias de quem vive nela e para ela. E há pelo menos 350 histórias diferentes. Mircea (nome fictício) foi dos primeiros a almoçar. Sai da CASA sem destino, apenas com uma pequena mochila às costas. ”Tenho aqui a minha vida toda, o resto fui perdendo”, afirma. Não sabe para onde vai: “Às vezes vou arrumar uns carros para ganhar umas moedas, outras vezes fico só a ver os outros”. Está em Portugal há 18 anos, veio da Roménia, e vive na rua há dois. Tinha uma família normal - casado e dois filhos pequenos. Tinha também emprego, trabalhava na construção civil. Um problema de coluna impediu-o de continuar a trabalhar. “Deixei de levar dinheiro para casa e as coisas acabaram”, confessa a olhar para o chão. De lágrimas nos olhos, explica que é difícil perceber porque não pode ter “uma vida normal como os outros”. “Quem é que quer passar o Natal com um sem-abrigo?”, pergunta para justificar o facto de ter passado o Natal sozinho e sem ver os filhos. 

A passagem de ano vai ser igual. O dia 31 será um dia igual aos outros, não há motivos para festejos. A CASA está aberta 365 dias por ano, especialmente nas épocas festivas como o Natal e a passagem de ano, sempre com coordenadores e voluntários que lutam para dar pelo menos uma noção de lar a quem não tem nenhum. Todos os dias são distribuídas mais de 460 refeições, não só a sem-abrigo, como também a quem tem uma casa disponibilizada pela Câmara Municipal de Lisboa, mas não pode dispensar esta ajuda. No entanto, Mircea não vai lá para o último jantar do ano. “Não quero, é muita gente, não me sinto bem”, diz.

À noite, os sonhos desvanecem-se Não muito longe da freguesia dos Anjos, há uma avenida conhecida pelo luxo, pelas roupas caras e pelos hotéis de cinco estrelas - a Avenida da Liberdade. Durante o dia até podem passar despercebidos, mas à noite o silêncio denuncia quem faz do chão da calçada, da entrada dos prédios, ou das lojas, a sua cama. Os cobertores são dados pelas associações que ajudam os sem-abrigo, as roupas também. António já se habituou a dormir no chão gelado. “No inverno custa mais, mas tenho outra alternativa?”.

A noite é talvez o pior inimigo dos sem-abrigo. “À noite é sempre mais difícil, eu durmo na rua e às vezes durmo num carro abandonado que está para ali, mas depois aparece a polícia e chateia-me”, refere Mircea, sem medo de se caracterizar como um sem-abrigo. 

“Para o próximo ano espero ter os documentos que me roubaram”, acrescenta. O homem de 51 anos conta que foi roubado enquanto dormia na rua, onde os assaltos são muito frequentes. E, apenas com o passaporte na mão, pergunta “quem é que vai dar emprego a uma pessoa que nem morada tem?”. Os desejos para o próximo ano passam por arranjar um emprego, que acredita que consegue com a ajuda da Segurança Social. “Eles estão a tratar dos papéis para me ajudar, não me posso queixar que não tenho ajuda”, garante.

Já António acredita que é difícil sair da rua: “Com 48 anos, sem nada, onde é que eu vou arranjar trabalho?”, pergunta. Uma vida atribulada, com mais baixos do que altos, atirou António para a rua há 15 anos. A dependência da droga, tirou-lhe tudo e hoje é um dos habitantes da rua. 

As histórias multiplicam-se, têm contornos diferentes, mas acabam todas no mesmo plano - ao relento. Mircea garante que nunca teve vícios: “Nunca fumei, nunca me meti nas drogas, merecia outra vida”, afirma enquanto mexe na barba que “precisa de ser aparada, mas às vezes não há espaço para todos no centro”.

António aponta para um dos hotéis e diz: “Se gostava de dormir ali? Às vezes sonho que estou lá, e não é que parece que estou mesmo?”. Na Avenida da Liberdade, ou na Avenida Almirante Reis, há centenas de pessoas sem teto e sem um porto seguro para se abrigarem quando cai a noite. Assim, durante o dia, Mircea continua a arrumar carros e, durante a noite, António continua a sonhar.

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