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Nova crise à porta? Economistas dizem que sim e falam em sinais evidentes

Nova crise à porta? Economistas dizem que sim e falam em sinais evidentes

AFP Sónia Peres Pinto 17/09/2018 12:10

O ex-presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, já veio garantir que a atual situação financeira mundial, encontra-se num plano tão perigoso como o que foi vivido em 2007, ano que antecedeu a maior falência financeira: Lehman Brothers. Nouriel Roubini, conhecido por ter previsto a última crise financeira, prevê uma nova já em 2020. O i quis saber o que pensam os economistas portugueses e a opinião não diverge

João César das Neves

“O cenário da crise anterior ainda não acabou e já estamos a preparar a próxima, e a próxima, quando vier e como vier, vai ser pior porque não resolvemos bem a anterior”, garante César das Neves. O economista lembra que “a banca portuguesa continua cheia de dívidas e o investimento está em mínimos históricos, assim como o crédito às empresas”, acrescentando que a economia nacional continua a evidenciar falta de investimento e de poupança, o que, no seu entender, é compreensível face às baixas taxas de juro que são praticadas pelas instituições financeiras. De acordo com o economista, o crescimento da economia está muito sustentado no consumo. Apesar de todos os riscos, César das Neves elogia algumas das reformas que foram feitas, mas lembra que “se calhar até mais em Portugal do que noutros países, por causa da troika”. Para o economista, continua a ser perigosa a intervenção dos bancos centrais e a injeção brutal de liquidez. “Estas medidas aliviaram brutalmente os custos, mas evitaram as reformas essenciais que dariam solidez ao sistema. Ainda hoje continuamos a ter injeção de liquidez dos bancos centrais e taxas de juro anormalmente baixas”, diz.

 

Mira Amaral

O economista não tem dúvidas: a crise vai voltar. “Quando, não sei, nem sei dizer a dimensão, mas acredito que vamos ter uma nova crise financeira mundial.” Mira Amaral justifica este risco com o aumento da dívida mundial, apesar de esta ter comportamentos diferentes nos vários países. “Nos países da OCDE, a subida foi na dívida pública; nos países emergentes, designadamente na China, assiste-se ao aumento da divida privada,de empresas e famílias.” E confessa: “Para mim, a China é um fator de preocupação para o sistema mundial, dado que está muito alavancada. Vejo também os financeiros americanos a fazerem jogadas especulativas sem terem cuidado com a dimensão do risco e, se houver uma nova crise, os governos e os bancos centrais já não têm as munições que tinham em 2007.” Ainda assim, Mira Amaral admite que o papel da regulação e da supervisão no setor financeiro melhorou face a 2007, mas lembra que a ideia de os bancos reduzirem a sua dimensão não aconteceu. “Alguns até aumentaram”, salienta. Em relação a Portugal, o economista recorda que não contamos para o risco mundial, mas apenas para o nosso risco. E fala em sinais alarmantes: “Está-se a assistir a um boom do imobiliário e do crédito à habitação e parece que já se esqueceu o passado. Os manuais alertam para isso, as pessoas esquecem-se rapidamente.” 

 

Ricardo Paes Mamede

Para Ricardo Paes Mamede, grandes movimentos de capitais geram grandes oscilações cambiais e isso cria dificuldades aos países. “Um dos principais focos de tensão internacional é precisamente o facto de estarmos a assistir a uma forte desvalorização das moedas. Dois desses casos são a moeda turca e a moeda argentina. Isso significa que entidades públicas e privadas desses países veem o nível de dívida aumentar da noite para o dia”, refere. O espoletar de uma crise não é descartado pelo economista. E a justificação, de acordo com o mesmo, está à vista. “A estagnação dos rendimentos de trabalho desincentiva o investimento na economia real, o que se traduz num crescimento económico anémico. Escasseando as oportunidades para investimento produtivo, os super--ricos e os países com excedentes externos acabam por aplicar as suas poupanças em atividades cada vez mais especulativas (imobiliário, ações, matérias-primas, etc.), que quase não criam emprego e geram grande instabilidade.”

João Duque

“Os riscos existem sempre. Tenho algum receio e que não é infundado.” O alerta é feito por João Duque ao afirmar que a situação económica e financeira está a agravar-se devido à elevada injeção de massa monetária em todos os mercados. “O dinheiro abunda e é barato. Se não houver prudência por parte de quem empresta, isso pode trazer problemas para essas instituições. Estamos a ver o crédito ao imobiliário aumentar e o crédito ao consumo a disparar. Também os Estados continuam a endividar-se e esse foi um dos fatores que espoletaram a crise”, salienta. No entanto, garante que é difícil prever quando isso irá acontecer. “É muito difícil apontar datas porque o mundo é muito volátil. Aprendeu-se alguma coisa, mas continuamos a ser humanos e muito do que se usou para combater a crise provocou potenciais danos colaterais fortes. É o caso da massa monetária que, nos últimos dez anos, em alguns casos duplicou.” O economista lembra ainda aquilo a que se tem assistido em torno “da loucura das criptomoedas e da sua irracionalidade”, assim como o crescimento do índice bolsista, que na última década aumentou 14% ao ano. “Não há justificação económica para tais crescimentos, de forma sustentada, por tanto tempo.” Apesar de todos os riscos, reconhece que a banca passou a ser mais regulada, e o papel da supervisão mais reforçado. 

 

António Bagão Félix

“Costumo dizer que as crises são sempre oportunidades de discernimento porque permitem diferenciar o que é essencial do acessório, aquilo que é imediato e o que é geracional. A crise envolve muita aprendizagem, permite acautelar e prevenir, mas, mesmo assim, há sempre riscos de voltar a acontecer”, diz Bagão Félix. O economista diz ainda que os agentes económicos têm pouca memória e isso gera repetição de erros. Um dos riscos diz respeito à desconsideração da poupança. “Não há nenhum país que sobreviva se não tiver poupança e esta anda pelas ruas da amargura, tanto pelas pessoas como pelos bancos.” Mas a culpa, segundo Bagão Félix, deve-se às remunerações baixas. “Os portugueses são convidados a não poupar porque, além das taxas próximas do zero, depois são confrontados com impostos de 28% sobre a fraca remuneração. É o aqui e agora.” Os problemas não ficam por aqui. Segundo o economista, as empresas continuam a recorrer a capitais alheios em vez de capitais próprios e o Estado está mais contido em termos de despesa, mas por repressão e não por contenção, porque as regras são mais apertadas. “Assim que puder volta a fazer o mesmo. É como uma panela de pressão: esta vai aumentando até que explode”, esclarece. 

 

Eduardo Catroga

Para Eduardo Catroga, a receita é simples: “Olhando para a história económica, facilmente se vê que as crises são cíclicas” e, como tal, garante: “Vamos a assistir a uma nova crise, não se sabe é quando.” E dá como exemplo as crises vividas em Portugal. “Tivemos em 1977, em 1983, em que chamámos o FMI, e depois em 2011, quando chamámos a troika. E todas  evidenciaram o mesmo: erros acumulados que depois foram evidenciados com a crise.” E lembra que, antes de isso acontecer, em todas estas alturas, a economia portuguesa estava à beira do colapso. O motivo também não varia, segundo o economista. “Há crises que são resultados de falhas de mercado, falhas de Estado, de euforia económica que normalmente cria bolhas.” Catroga lembra que continuamos, desde 2011, num processo de ajustamento da economia que ainda não está terminado, mas que teve um período mais duro entre 2011 e 2015. “O processo tem obrigado a reduzir os níveis gerais de endividamento da economia, do Estado, das famílias e das empresas, mas continuamos com níveis demasiados elevados e, por isso, continuamos a ter esta vulnerabilidade.” Ainda assim, lembra que já foi corrigido o défice externo, mas continuamos a não ter o nível de poupança nacional desejado. Também no sistema financeiro aponta progressos, apesar de reconhecer que a banca  continua a ter um nível de malparado superior à média europeia. “Há processo de recuperação de capitais próprios e um processo de recuperação de rentabilidade de forma consistente.”. E deixa uma garantia: “Não se consegue corrigir em dois ou três anos os desequilíbrios que foram criados nos dez ou 15 anos anteriores.” 

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