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Blocos de Lego

Blocos de Lego

Luís Caldas de Oliveira 22/05/2018 12:30

É preciso explicar que, para um aluno de engenharia, um programa experiencial de empreendedorismo é extremamente desconfortável quando comparado com as disciplinas tradicionais: não há enunciados, não há dados e não se sabe se há solução

Uma das minhas tarefas da passada semana foi editar vídeos com testemunhos dos alunos da edição deste semestre do programa LLP@Técnico. O Lean LaunchPad é uma metodologia de ensino de empreendedorismo criada por Steve Blank que adaptei às necessidades do Técnico depois de um curso que fiz em 2013 com o seu autor. Neste programa, oferecido como opção a alunos de vários cursos, procuramos que os participantes experienciem os desafios que enfrentam os fundadores de startups. Por ter estado ausente do país, pedi ao Diogo Henriques, que trabalha comigo neste programa desde o início, para gravar alguns testemunhos dos participantes. Um dos testemunhos que mais me surpreenderam foi o do Oleksandr, que destacou a forma como o programa estava estruturado, sabendo exatamente o que tinha de fazer em cada semana. É preciso explicar que, para um aluno de engenharia, um programa experiencial de empreendedorismo é extremamente desconfortável quando comparado com as disciplinas tradicionais: não há enunciados, não há dados e não se sabe se há solução. Cada grupo de alunos tem de desenvolver um projeto próprio que muda radicalmente quase todas as semanas, pois devem validar as suas hipóteses com um mínimo de dez entrevistas por semana e apresentar os resultados aos seus colegas na aula seguinte. O programa tem a duração de 11 semanas e é frequente haver grupos que só encontram o projeto final bem depois da sexta semana de aulas. Esta é, precisamente, uma das lições mais valiosas: validar uma oportunidade de negócio exige muito trabalho.

Como fazer então a estruturação que o Oleksandr destacou? A melhor analogia que consigo encontrar para o modelo que usamos no LLP@Técnico é o dos blocos de Lego. Quando me ofereceram o primeiro conjunto de peças básicas, eu conseguia fazer quase tudo mas de forma muito estilizada: os telhados pareciam escadas e os carros não tinham rodas. Mais tarde ofereceram-me telhas, rodas, portas e outras peças que me permitiam fazer os modelos com maior detalhe. No entanto, em cada momento, as peças ao meu dispor podiam ser usadas para fazer qualquer construção que eu quisesse. De igual forma, o programa LLP@Técnico usa os blocos do Business Model Canvas (BMC) de Alex Osterwalder para ir oferecendo aos alunos ferramentas de desenvolvimento do modelo de negócio dos seus projetos. Os nove blocos em que dividimos o programa são:

Avaliação de oportunidades. Nas duas primeiras semanas, juntamos algumas metodologias de geração de ideias com a identificação da dimensão e o tipo de mercado para uma filtragem inicial das ideias.

Proposta de valor. Tratando-se de uma escola de engenharia, é habitual os alunos terem uma tecnologia favorita que querem usar no seu projeto, pelo que a segunda semana é dedicada à identificação dos problemas que podem resolver. É preciso validar que o problema existe e qual é o seu valor.

Segmentos de clientes. Na quarta semana introduz-se a necessidade de seleção dos segmentos de clientes iniciais. É preciso ganhar empatia com as suas tarefas, as suas dores e os ganhos que podem obter.

Canais. Conhecendo os clientes, a semana seguinte é dedicada à identificação da forma como eles desejam comprar o produto e os custos associados ao canal, seja físico ou virtual.

Relação com clientes. A sexta semana é dedicada aos custos de aquisição de clientes e ao valor que poderá trazer.

Modelo de receita. Na semana seguinte, os alunos aprendem as estratégias dos diversos modelos de receitas e as táticas para o modelo de preços. É aqui que os alunos validam o potencial do seu projeto para gerar receitas.

Parceiros. Na oitava semana passamos para o lado esquerdo do BMC começando por identificar os parceiros, a razão da sua necessidade e a disponibilidade para se associarem ao projeto.

Recursos, atividades e custos. A nona semana é dedicada à parte mais difícil do projeto, que é a validação dos recursos e das atividades necessárias para a criação da proposta de valor, bem como a evolução dos seus custos. O objetivo principal é identificar as necessidades de capital em função das etapas de desen-volvimento do projeto.

Lições aprendidas. As duas últimas semanas são usadas para ensinar os alunos a apresentar o projeto final (ver a minha crónica “5 ideias para apresentações memoráveis”).

O desafio colocado aos alunos é de irem integrando estes conceitos no seu projeto mesmo que, em qualquer momento, haja a necessidade de começar tudo de novo. Se decidirem fazer uma nova construção, já sabem como usar os blocos com que já trabalharam. É este permanente recomeço que está na origem do sucesso de um gráfico que apresento na quinta semana de aulas sobre a “montanha-russa LLP”. Indico aos alunos que devem estar no nível mínimo do seu coeficiente de felicidade, mas que este irá certamente subir. O vídeo com o testemunho do Adam que destacou esse momento confirma que assim é. Poderá saber mais sobre o programa LLP@Técnico e ver os testemunhos destes alunos no site istartlab.tecnico.ulisboa.pt/learn/llp-tecnico.

 

Professor do Instituto Superior Técnico

 

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