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Queiroz e Melo. ‘Recebi ameaças de morte. Diziam que era ladrão de corações’

Queiroz e Melo. ‘Recebi ameaças de morte. Diziam que era ladrão de corações’

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 07/04/2018 18:25

João Queiroz e Melo liderou o primeiro transplante cardíaco no país, em 1986. Hoje, reformado, tem uma empresa de reprocessamento de dispositivos médicos e diz que o futuro passa por hospitais mais ‘verdes’, o que podia poupar milhões. E está a recuperar os Caminhos de Santiago: aos 73 anos, tem palmilhado centenas de quilómetros. Recebeu hoje o Prémio Nacional de Saúde.

A cirurgia foi uma vocação desde pequenino?

A vocação desde pequeno era ser médico. O meu avô era médico, como hoje se diria um João Semana do Pinhal Interior. Andava de aldeia em aldeia e foi o exemplo dele que me fez querer ser médico. Ser cirurgião foi algo que apareceu mais tarde, com a influência novamente de outros familiares meus, nomeadamente o prof. Mendes Ferreira, que era uma figura saliente naquela altura na mesma zona. 

Nasce em Tomar em 1945. Vem para Lisboa quando?

Vim para Lisboa fazer o liceu, a família tinha casa cá e lá. Estudei no colégio S. João de Brito.

Que memórias tem dessa Lisboa dos anos 50?

Era outro mundo. Para mim, vindo de uma família que tinha capacidade de viver bem, era um mundo fácil. Jogávamos à bola, às vezes no meio da rua, outras vezes em campo. Ia-se bastante ao cinema, o que na altura era já uma grande extravagância. Ia ao Condes, ao S. Jorge, ao Roma. Sabíamos divertimo-nos sem grande sofisticação.

Estudava muito?

Toda a vida fui bom aluno, deve estar nos meus genes o querer ser bom aluno.

Frequenta a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa nos anos 60, com o movimento estudantil muito mobilizado. Como era o ambiente?

Foram anos agitados. Eram cursos relativamente pequenos, com 60 e poucos alunos, faziam-se amigos para a vida.

Envolvia-se nas questões políticas?

Sim, mas de uma forma muito crítica. Tinha muito a perceção de que era preciso mudar mas também tinha a perceção de quem controlava o ritmo da mudança, nomeadamente da enorme influência do Partido Comunista no movimento estudantil – com quem não concordava em termos de orientação política. 

Era fácil estar a favor da mudança não estando com o movimento estudantil? 

Eu estava muito envolvido na ação católica, na JUC, éramos uma força importante de mudança… mas quer dizer, quem não fosse ferozmente socialista, já era um perigoso conservador. Mas convivíamos e respeitávamo-nos todos uns aos outros. Devo dizer que hoje acho imensa graça ver como os revolucionários da altura estão agora.

Porquê o coração? 

Não foi tanto o coração. Já tinha acabado o curso e percebi que a cirurgia cardíaca era uma área completamente nova, onde havia muito a fazer. Na altura havia imensos cirurgiões gerais. Eu trabalhava nos Hospitais Civis de Lisboa e na altura éramos nós que procurávamos os doentes, que era uma coisa que eu não via muito bem. Achava que era o doente que nos devia procurar a nós. Quando me formei em 68 o médico era o centro do sistema, isto hoje acabou.

Mas havia mordomias?

Mordomias nunca houve, era o respeito das pessoas. As condições de trabalho no âmbito do serviço público sempre fora assim, salários baixos. Sempre ouvi o pai de um colega meu que era médico, portanto de uma geração com mais 20 ou 30 anos que nós, contar uma história: quando eram internos, fizeram uma vez queixa a Salazar porque o médico ganhava menos que o porteiro do hospital. Indignação que Salazar entendeu que era justa e resolveu com um despacho: baixando o salário do porteiro.

É uma anedota?

Não tenho os dados históricos, mas falei com várias pessoas da altura que nos diziam que era verdade!

Quando recorda os hospitais de Lisboa nesses anos 60, que imagens lhe vêm à memória?

Era tudo diferente. Nada desta medicina moderna que temos hoje existia. Um ventilador artificial que hoje é uma coisa de rotina na altura era um privilégio que só alguns serviços tinham. Não há comparação possível. Os exames, análises que temos hoje... nada disto existia.

Acha que isso deu outra sabedoria aos médicos da sua geração?

Dá-nos uma experiência de vida diferente, tínhamos de nos concentrar mais nos doentes. Mas repare: a observação era fundamental, mas quando é possível nós com os nossos olhos e mãos detetarmos a doença, é porque está muito avançada. Hoje, com a tecnologia de que dispomos, a doença é diagnosticada em fases iniciais em que ainda não dá sinais. As novas tecnologias criaram um mundo aliciante e vieram obrigar a uma postura médica completamente diferente.

E não criarão ainda mais a expectativa de que tudo se pode resolver?

Isso sem dúvida, as pessoas acham que, perante um diagnóstico, os médicos têm de poder resolver tudo. O médico resolve muita coisa mas ainda não é um deus.

O momento em que o médico sente que é falível é muito marcante?

Sim, mas não muito. Quando faço as coisas convicto de que fiz o melhor possível, fico de consciência tranquila. Se um médico se deixa envolver muito por esses sentimentos afetivos, torna-se difícil sobreviver à profissão. Temos de nos ajustar.

Uma vez perguntaram-lhe como tinha sido pegar no coração de Jorge Sampaio e respondeu que os corações são todos iguais. É uma postura fria?

É verdadeiro, tem de ser assim. Uma pessoa quando está ali não está a pensar quem é o doente.

Ao início era mais emotivo? É algo que se treina?

Não sei, acho que sempre fui assim. Não me analisei a esse ponto [risos].

Ter feito o primeiro transplante de coração em Portugal é o seu maior feito médico?

De modo nenhum, fiz operações muito mais complexas do que o transplante. Acho que o transplante tem mais impacto pelo grande valor simbólico que o coração tem. A grande dificuldade foi que, para fazer um transplante, foi preciso haver equipas extensas, organizadas e coordenadas, com protocolos certos. Fazer isso em 1986 é que foi totalmente inesperado e para mim é a maior razão de sucesso. Ninguém imaginaria, até no estrangeiro, que isso fosse possível no Portugal da altura. Ainda olhavam para nós quase como se fôssemos um país muito subdesenvolvido. Em termos de técnica cirúrgica, na altura já fazíamos em Santa Cruz operações mais complicadas. O transplante é uma técnica simples.

A primeira doente, ainda assim, teve de ser corajosa?

Eva Pinto era uma mulher de fé. Nunca teve dúvidas de que ia ser operada e de que tudo ia correr bem. A psicologia de um doente afeta muito os resultados. Ela nunca duvidou de que estava predestinada a ser o primeiro caso de sucesso num transplante de coração em Portugal e dizia-o abertamente nas conversas que tínhamos. Dizia: ‘Não se preocupe que vai correr tudo bem’.

Tranquilizava a equipa?

Sim, era ela a tranquilizar-nos.

Não foi, ainda assim, um passo pacífico.

Na altura havia alguma controvérsia em Portugal em torno da colheita de órgãos. Um ano antes um jornalista tinha escrito um livro chamado O Escândalo dos Transplantes, em que considerava que havia uns grupos médicos com umas negociatas a recolher órgãos de pessoas vivas.

Sem fundamento?

Ele questionava a existência de morte cerebral, sendo um ignorante no assunto, e como na altura a colheita era feita no Hospital da Cruz Vermelha, que era privado, considerava que havia uma negociata. Portanto sabíamos que ia haver controvérsia quando se voltasse a fazer um transplante de qualquer outro órgão. Dito isto, ele tinha razão em dois ou três aspetos. Um dos quais era que, sendo indispensável que houvesse consentimento para colher órgãos, a forma como isso na altura se fazia era ridícula: éramos todos dadores a não ser que trouxéssemos uma declaração a dizer que não queríamos dar órgãos. Ninguém vai para uma discoteca e depois tem um acidente de automóvel e aparece com um papel.

Hoje existe o registo nacional de não dadores.

Sim, isto hoje está completamente ultrapassado. Qualquer cidadão que seja contra que os seus órgãos seja utilizado, tem toda a facilidade em o fazer. Isto eram questões que antes ou depois teriam de ser corrigidas, como foram. Mas sabíamos que isto ia dar nas vistas, como deu. Recebi ameaças de morte por escrito, cartas.

Chamavam-lhe oportunista?

Ladrão de corações, que andava a matar pessoas. Durante umas semanas antes de sair de casa de manhã espreitava pelo vidro a ver se via alguém suspeito.

Era um workaholic? Como era articular o hospital com a família, com os filhos?

Eu vivi para o Hospital de Santa Cruz, posso dizê-lo com toda a clareza. Era lá que estava de manhã à noite, ao fim de semana. Trabalhávamos brutalmente, mas como toda a vida trabalhei nos diferentes sítios por onde estive, isso era o normal. Claro que foi com prejuízo da atenção que dispensei à família, claramente.

Os filhos foram para médicos?

Nenhum, depois do exemplo… Trabalhar muito e muito mal pago no Serviço Nacional de Saúde, nenhum deles quis.

Não trabalhou no privado?

Fiz alguma privada mas muito temporariamente e depois parei.

É difícil compatibilizar estar nos dois lados?

Eu entendo que se deve trabalhar com profissionalismo e sempre tentei trabalhar só num sítio, que acho que é a única forma de trabalhar com grande eficiência. Não compreendo como é que é possível, em Portugal, o normal ser trabalhar para um hospital e para a competição ao mesmo tempo, é uma contradição filosófica. Se um engenheiro trabalhar ao mesmo tempo para duas ou três companhias de telemóveis, ninguém o iria aceitar. Em Portugal, na Saúde, aceita-se isto com a maior naturalidade, é uma rotina. Como noutros países aliás, não os mais desenvolvidos. 

O Governo devia ir por aí, pela separação entre público e privado?

Acho que está entre uma série de tabus consignados pelo SNS, entre os quais a ideia de que somos todos iguais, os que trabalham e os que não trabalham, os que se dedicam e os que não se dedicam. Quando se quer gerir em condições de igualdade 200 ou 300 mil funcionários, é de facto impossível. Uma vez disse a um ministro da Saúde, um homem muito competente, que não era assim tão competente: tem as melhores fábricas, os melhores funcionários mas deixa-os ir trabalhar ao mesmo tempo para a competição, com as fábricas a custar dinheiro. Todos sabemos que as instalações do SNS não são bem aproveitadas à conta disto, não têm blocos a funcionar a tempo inteiro. Claro que os médicos a trabalhar 35 horas com um salário miserável têm direito a querer ir ganhar dinheiro noutro lado, mas isto algum dia vai ter de ser encarado de frente. E acho que não vai ser quando forem os médicos ou gestores a mandar no sistema, mas quando forem os doentes.

Imagina uma cada vez maior intervenção dos doentes?

Com certeza. Cada vez mais o doente vai querer saber porque é que é tratado aqui e não ali, quais são os resultados e depois escolher. E o financiamento acompanhará o doente. Acho que no nosso país ainda há muita gente a pensar que o SNS deve ser organizado como era há 40 anos. Não percebem que isso é destruir o SNS.

Tem havido um aumento da contestação dos profissionais, críticas a uma ingerência das Finanças. Com o SNS quase a completar 40 anos, como olha para o sistema?

Acho que o SNS tem um problema de sustentabilidade. Mas gostaria também de estar mais informado sobre a qualidade dos cuidados que presta: hoje não temos informação fidedigna sobre a qualidade.

Há dados sobretudo sobre quantidade?

Sim e alguns marcadores grosseiros, por exemplo dizer que a mortalidade na operação a uma hérnia inguinal é zero. Isto é o esperado: se alguém tiver uma mortalidade muito grande, será má prática. Precisamos de indicadores que nos permitam perceber se os tratamentos são feitos em momento oportuno, com segurança e com os resultados esperados, não só à saída do hospital – que é habitualmente o que temos – mas daí a três ou seis meses. No fundo, que nos permitam saber se aquilo serviu para alguma coisa.

Porque é que não se vai por aí?

Falta de coragem política dos sucessivos governantes, subdesenvolvimento cultural do país, não confiança na sociedade civil. Quem tem de se mobilizar é a sociedade civil, as sociedades científicas – o Governo está em observação. Não compreendo como é que hoje se gasta tanto dinheiro a avaliar qualidade mas as certificações são quase todas para metodologias, processos e instalações, não para resultados. No serviço que dirigi havia algumas certificações que obrigavam os enfermeiros a perder 23% do seu tempo a preencher formulários e check-lists que não serviam para nada.

Há indicadores de tempos de espera elevados. Confia na resposta do SNS?

Eu sou um privilegiado porque conheço. Fui operado quatro vezes, três no público e uma no privado. Duas vezes tive complicações e nenhuma delas consta dos registos, porque a forma de registar estes eventos não é exaustiva. Confio no SNS e sempre que preciso de um tratamento, se houver no SNS, vou ao SNS... 

...mas sendo médico, conhece sempre alguém que o pode ajudar a orientar no sistema.

Eu não sou exemplo. O exemplo é a minha mulher a dias que foi ao SNS, pediram-lhe exames, demoraram um ano a fazer os exames e quando voltou à consulta disseram-lhe que como já tinha passado tanto tempo os exames já não serviam e tinha de repetir. Portanto ela descontou para as consultas, para os exames, para as convenções e o valor daquilo foi zero.


Parece-lhe que quem decide ao longo do tempo tem tido essa perceção?

Creio que temos de ter mesmo uma descentralização. Não é possível ser ali no ministério, na João Crisóstomo, que se manda no país inteiro. A João Crisóstomo tem de controlar, exigir, acompanhar, mas é impensável que tudo o que se passa no país seja decidido centralmente em Lisboa. Porque é que o Hospital de Santa Cruz tem de ter as mesmas regras que um hospital em Freixo de Espada a Cinta? Toda a minha vida lutei para ter independência no meu serviço, que é aquilo que se chama os centros de responsabilidade integrados.

Conceito que este Governo se comprometeu a concretizar.

Quase todos os governos o têm prometido e depois nenhum o promove. Há dificuldades: como os orçamentos são fechados, os serviços, mesmo que sejam independentes, não têm grande margem de manobra. Um centro que funcione bem tem de ter capacidade de gerar riqueza adicional e de a usar. O único centro de responsabilidade que funcionou com alguma normalidade foi o Centro de Cirurgia Cardiotorácica do prof. Manuel Antunes em Coimbra. Porque é que nunca se conseguiu que isso fosse replicado noutros sítios? Tentei sempre que tivéssemos as mesmas condições e nunca conseguimos. Houve uma altura em que todos os médicos do meu serviço só trabalhavam em cirurgia cardíaca em Santa Cruz. De 2005 para cá, criaram-se restrições financeiras tão graves que os médicos, para chegar ao final do mês e pagar as contas, tiveram de procurar outras alternativas. E não tocaram nos mais velhos, tocaram nos mais novos, o que é uma grande aposta no futuro.

O que muda em 2005?

A partir desse ano os médicos deixaram de ser admitidos em dedicação exclusiva, das 35 horas de trabalho passaram a ter de dedicar à urgência 12 horas, portanto ficam nos serviços 23 horas. A dividir por quatro dias, dá cinco horas. Eu era pontual: das 8h30 às 15h30 tinha médicos, depois disso desapareciam... Iam fazer uns biscates algures.

Como vê o atual ministro da Saúde?

Acho que entrou com muito bom senso, com uma forma muito ponderada. Agora… não lhe sei responder ou não quero, mas não acredito que seja possível com a atual orientação ir muito longe. Diria que será quase impossível.

É um sentimento comum?

Continuo a correr os hospitais de norte a sul do país e são raros os hospitais onde os profissionais vestem a camisola, pelo contrário, parece que a despiram. Fico perplexo quando hoje em dia a linguagem habitual num hospital é dizer ‘eles’, não é dizer ‘nós’. Isto médicos, enfermeiros, toda a gente. É uma mudança de estado de espírito que vai demorar uma geração a recuperar. Inverteram as regras do jogo de forma absolutamente penalizadora, seguramente para os médicos. Mesmo que agora queiram mudar alguma coisa, perdeu-se a confiança. Ninguém garante que quando o Governo faz uma coisa, o seguinte não vai desmanchar. Uma pessoa tem a sua vida montada, fez o seu investimento e dizem-lhe vem trabalhar assim, daqui a quatro anos muda tudo...

O ânimo não melhorou com a saída limpa?

Isto é um movimento, como lhe disse, que começou em 2005, ainda não se falava em resgate. Tem a ver com opções políticas e com tabus nefastos que rodeiam o SNS.

Já falou da questão da exclusividade, mas que outros tabus importa abordar?

Tem de haver separação e as pessoas têm de tratar os seus doentes graves e menos graves no mesmo sítio. Exclusividade é uma palavra que hoje é quase proibida de dizer, mas isto tem de resolver-se. Ou aumentam salários para garantir a exclusividade, ou autorizam clínica privada nos hospitais públicos, isto tudo de uma forma disciplinada e clara.

Se não o quê? O SNS arrisca mesmo ficar um serviço dos pobres, como alguns vaticinam?

Acho que é para aí que estamos a caminhar. Hoje aceita-se como natural que haja médicos tarefeiros no SNS que vão lá umas horas por dia. É absolutamente intolerável. Hoje sou visto por um médico e amanhã por outro, não pode ser. Não há falta de médicos em Portugal, o que está péssimo é a gestão social dos médicos. O tempo dos médicos está mal aproveitado.

Salvador Sobral foi transplantado no seu antigo serviço no Hospital de Santa Cruz. Acompanhou este caso?

Não, estou completamente afastado. Saí do hospital, saí. E se soubesse alguma coisa não dizia, por razões óbvias. Tenho orgulho em dizer que formei uma equipa com grande qualidade.

Qual foi para si a maior lição da medicina?

Humildade. A necessidade de ter permanentemente uma postura de humildade.

Com os outros e com aquilo de que se é capaz?

É uma pessoa não pensar que é Deus e não se deixar deslumbrar com o seu posicionamento de domínio sobre os outros. A medicina deve ser muito mais uma atividade de compaixão do que de vanglória.

Como passa os seus dias?

Faço imensa coisa. Quis iniciar uma atividade em Portugal que conheço desde que trabalhei na América que é o reprocessamento de dispositivos médicos. É algo que se faz há 30 anos nos EUA, há 20 anos na Alemanha e que cá não existia. Acabei por fazer uma empresa que representa a maior empresa alemã nesta área e continuo nesta luta que é cultural, mas não só. O SNS podia poupar milhões de euros se fizesse o reprocessamento.

A ideia de se reutilizar dispositivos médicos tem sido um pouco controversa.

Cá. Se o reprocessamento está autorizado pela legislação, se está certificado e é feito em condições idênticas às que existem lá fora – e se, na América, são as empresas que dizem que os dispositivos médicos que só podem ser usados uma vez que fazem o reprocessamento – esta é uma controvérsia artificial. São hábitos culturais e mais que isso: o SNS podia poupar milhões cumprindo o estado da arte…

Alguém ia perder milhões?

Digo apenas isso: podia poupar milhões. No Porto isto já se faz: O Hospital de S. João recorre ao reprocessamento profissional há cinco anos. O Santo António também. Quando se diz que não há dinheiro, há centenas de atividades que podiam proporcionar ao SNS centenas de milhões de euros de poupança por ano. O reprocessamento é só dezenas. É aquilo que o Papa Francisco descreve como conversão ecológica e estamos a anos-luz disso: os hospitais são os maiores poluidores do nosso ambiente depois da indústria siderúrgica.

De que atividades fala?

De toda a forma como é gerida a eletricidade, os sacos de plástico. Em Portugal, nos hospitais, produzem-se 70 mil toneladas de lixo por ano, pelo menos, isto são dados de 2008. Dizemos que países como a América são muito maus, mas na América sabem quanto lixo produzem e reduzem. Nós aqui não medimos ou medimos pouco e não sabemos.

Tem-se falado em economizar papel e tinteiros, com as receitas e credenciais eletrónicas.

Eu estou a falar de lixo tipo 3 e 4, lixos que são contaminantes graves e que exigem procedimentos especiais de tratamento para nos descartarmos dele. Claro que os lixos urbanos também têm interesse, por exemplo os plásticos. Há movimentos na América por exemplo em torno dos ‘green hospitals’. Dos plásticos hospitalares fazem-se tapetes, mangueiras, é um mundo. Como vivi 50 anos dentro dos hospitais, não estou a criticar ninguém porque eu também não estava consciente disto até ter começado a olhar para a Saúde de fora. 

Sempre teve preocupações ambientais?

Sim. Neste momento também estou muito dedicado aos caminhos de Santiago. Assim que me reformei, estive na Universidade Católica durante três anos e depois saí e fui fazer os caminhos.

Desde o Porto?

Desde França, são 870 quilómetros, de Saint-Jean-Pied-de-Port a Santiago. Fiquei deslumbrado. Depois fiz o caminho português a partir de Valença com uma neta. Depois fiz sozinho, porque para mim o caminho de Santiago é uma jornada espiritual isolada. Depois encontramos tantas pessoas que acaba por não o ser. Depois fiz o caminho primitivo pelas Astúrias e achei que queria contribuir para melhorar os caminhos em Portugal. 

São maus? 

Os caminhos abaixo de Braga são muito deficientes, com muito alcatrão e tubo de escape. Fiz-me associado de uma associação chamada Via Lusitana e fizemos uma proposta que o Turismo de Portugal apoiou e estamos a reconstruir os caminhos de Santiago pelo interior do país, de Tavira a Trancoso. Somos todos voluntários. De Évora a Trancoso está praticamente incluído e o Presidente da Republica vai à apresentação pública deste caminho no dia 4 de maio.

Começou a andar aos 70 anos ou sempre andou?

Comecei a andar aos 50 e tal. Faço assim uns desportos náuticos. Mas os caminhos de Santiago pelo interior, com mais de 90% do caminho em terra batida, pelo meio da floresta, será uma oportunidade para as pessoas. É algo que me ocupa bastante.

Sempre foi um homem de fé?

Sim, católico, praticante, desde miúdo.

Mesmo na fase de maior trabalho no hospital?

Sim, quer dizer, quando estava muito envolvido no hospital só pensava em corações.

Mas pedia uma intervenção divina para que tudo corresse bem?

Bom, não olho para Deus com esse ar interesseiro. Mas há muitas coisas que me intrigam, talvez outras pessoas achassem milagres. Eu não consigo chegar a esse ponto, sou muito objetivo, mas existe uma divindade que é fundamental para o ser humano e os homens seriam todos melhores se acreditassem que essa divindade existe.

Na medicina alguma vez ficou de boca aberta?

Seguramente houve alguns casos de pessoas com fé que sobreviveram e que não consigo perceber como. De resto há um caso que não vou contar pois se dissesse pormenores saber-se-ia quem é, mas é inacreditável. Foi uma pessoa que deu umas provas de fé e que estava condenada face ao conhecimento médico e hoje está viva.

Receber o Prémio Nacional de Saúde deixa-o feliz?

Dos prémios que recebi, é o mais significativo. Somos selecionados por pares, pelos bastonários das Ordens e isso tem enorme valor. Mas recebo-o com a consciência de que isto aconteceu por causa de um grupo. Sou a face visível, mas muito do que fiz só foi possível por causa do grupo. 

Daqueles que vestia a camisola?

Sim, porque há 50 anos era raro que um diretor de serviço deixasse os mais jovens trabalhar. O Dr. Machado Macedo chamou para a sua volta jovens que estavam em várias partes do mundo e não foi só para nos atrair, deixou-nos mesmo trabalhar. Com isso ganhámos nós, ganhou ele e ganhou o país. Na altura isso era extremamente raro, hoje as pessoas já perceberam que se não trabalharem em grupo não chegam a lado nenhum. 

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