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O tenente infiltrado que levou a PJ ao dinheiro escondido

O tenente infiltrado que levou a PJ ao dinheiro escondido

Bruno Gonçalves Felícita Cabrita 15/02/2018 14:00

Em finais de 2015, um homem decidiu denunciar uma rede criminosa que atuava nas messes da Força Aérea e envolvia as mais altas cúpulas. Pormenores revelados por Mercador (nome de código) foram vitais 
para a PJ desmontar esquema e descobrir o dinheiro

Há quem diga que as juras apenas servem para serem subvertidas, mas quando se trata do juramento dos militares de carreira de servir e morrer pela pátria, espera-se que seja para levar a sério. E, para Mercador – nome de código de um tenente que denunciou e levou a que fosse desmantelada uma rede de associação criminosa ao mais alto nível na Força Aérea –, manter essa promessa era uma questão de honra.

Em outubro de 2015, quando o jovem tenente mal acabara de ser colocado na Base Aérea n.o 5 (Monte Real), um outro oficial, o major Vítor Martinho, que tirava o molde à humanidade segundo a moleza do seu caráter, tentou recrutá-lo para o esquema de sobrefaturação já enraizado em grande parte das messes e que há anos lesava o Estado português. Era através deste aliciamento, aliás, que era feito sempre que chegava alguém novo a uma messe, que a associação criminosa, dirigida por uma cúpula de topo do Estado-Maior da Força Aérea, se fortalecera e estendera os seus tentáculos a quase todas as messes deste ramo militar.

Mercador não pensou duas vezes. Parecia que Portugal tinha contraído uma doença incurável: a corrupção atravessava como balas todas as classes sociais do país. O caminho que tinha pela frente era difícil e punha em risco a sua vida e a carreira, mas decidiu limpar a casa e, em finais de 2015, denunciou o caso à Polícia Judiciária, passando a atuar como agente infiltrado. A partir daí andou sempre com um pequeno gravador dissimulado no corpo e tinha sempre à mão uma máquina fotográfica.

“É do interesse de todos que assim continue” O tenente era calmo por natureza e conseguia blindar os sentimentos para se poder moldar sem dar o flanco. Quando, ao terceiro dia do mês de dezembro, dois dos homens do major Martinho entraram no seu gabinete, ele já sabia ao que vinham. Os sargentos António Gouveia, de 51 anos, e António Paulo, de 52, foram diretos ao assunto: contavam com a sua colaboração para não denunciar o esquema. Mercador assumiu uma pose de colaboração enquanto os ouvia descrever a estrutura hierárquica da rede: “Olhe que isto já existe há muito tempo, tem pessoas a diferentes níveis da hierarquia militar e é do interesse de todos que isto assim continue.”

Ainda mais descontraídos, os sargentos passaram a descrever o esquema da sobrefaturação com as empresas que abasteciam as messes de alimentos e de outros produtos básicos, o que permitia a cada elemento do grupo levar o dobro do ordenado para casa: “Os fornecedores entregam determinadas quantidades de alimentos mas, no final do mês, é faturado um valor três vezes superior ao que entregaram na realidade. A diferença entre o valor faturado e o dos produtos realmente entregues corresponde ao lucro a dividir pelos elementos militares envolvidos.” Claro que havia uma concertação com as empresas “amigas”, sempre contratadas por ajuste direto e com informação privilegiada que lhes permitia baixar o preço dos produtos para assim também ganharem. É que, conforme a explicação dos sargentos, também as empresas tinham o seu retorno: “Desta parcela, entre 15 e 30%, dependendo dos fornecedores e da negociação que efetuaram quando iniciaram a sua participação nesta atividade, revertem para os próprios.”

 O dinheiro é como o amor: não há quem não faça tudo para o ter. Assim, antes de darem por concluída a reunião que cimentava, no entender deles, mais um recrutamento, os sargentos direcionaram os ponteiros no único sentido que faz mover o mundo: “O tenente também passa a receber a sua parte.” E prosseguiram, continuando a deslindar a estratégia: com o final do ano, os fornecedores envolvidos na marosca acertariam as contas entre a faturação final, já inflacionada; a diferença dessa faturação com as guias de entrega dos produtos durante o mês iria permitir apurar o bolo de cada um. Posto isto, distribuíram-lhe as funções: “O tenente apenas tem de confirmar os valores a receber e aceitar os pagamentos.”

Marisco e champanhe nunca faltavam Mercador despediu-se de si próprio para se adaptar a um novo personagem. Uma semana depois do primeiro encontro com os dois sargentos, recebeu de novo um deles no gabinete. Era António Paulo e trazia consigo um envelope com as receitas de dois meses de uma padaria comparsa. Mal se viu sozinho, Mercador trancou o gabinete e abriu cuidadosamente o envelope: dois maços de notas, totalizando 1845 euros, as anotações “Set[embro], Out[ubro]” e as respetivas contas. Seguiu as instruções da PJ à risca e fotografou tudo.

Naquele mesmo dia descobriu o homem que fazia a ligação com a cúpula da rede de corrupção. O sargento Gouveia foi ao seu encontro e perguntou-lhe: “O capitão Luís Oliveira já lhe ligou?” Tratava-se de um dos homens da Divisão de Abastecimento e Transportes (DAT), departamento do Estado-Maior da Força Aérea que gere o “rancho” dos militares, o elemento que dava a cara junto dos oficiais das messes envolvidas, fazia a recolha das luvas e as entregava ao alegado líder da rede, o major-general Milhais de Carvalho.

Mercador, que não fora contactado pelo capitão da DAT, contrapôs: “Mas porquê?” O outro, com a transparência de um lago sem lodo, libertou: “É altura de fazer o acerto de contas e eu tenho em minha casa a parte que cabe ao Luís Oliveira.” Os fornecedores, ao descobrirem que chegara um oficial novo à Base Aérea n.o 5, desfaziam-se assim em mesuras e oferendas. Poucos dias depois, duas das empresas envolvidas, com receio de perderem adjudicações futuras, fizeram--lhe chegar uma caixa de dois quilos de camarão e uma garrafa de espumante. Digamos que “pegá-los pela boca” era tradição antiga neste mercadejar: marisco, champanhe e bolos nunca faltavam.

 Com o passar do tempo, o infiltrado, que desempenhava o seu papel como se tivesse nascido para aquilo, conseguiu estabelecer laços de confiança com o grupo. Guardava o dinheiro ilícito num cofre, recebia fornecedores, participava em jantares de conluio e assistia à distribuição das luvas.

Vida Espartana O sargento Gouveia, há anos neste mister, dava-lhe conselhos: “Tenha cuidado com a utilização do dinheiro porque enquanto estiver na messe não vai ter tempo para o gastar. Mas um dia, mais tarde, vai ter uma vida folgada.” De facto, temendo serem apanhados, levavam no exterior uma vida espartana: nada de sinais exteriores de riqueza. Gouveia, por exemplo, guardava as notas provenientes do crime na garagem e António Paulo, mais laborioso, colocava-as no interior da parede da bancada da cozinha de sua casa - tudo informações preciosas que permitiriam mais tarde à PJ apanhar o filão do dinheiro.

Passou o Natal, a Páscoa e o verão. Mercador ia acumulando um conjunto de informações e contactos que permitiam estabelecer ligação a outras messes onde o esquema de corrupção obedecia à mesma lógica. Um ano depois de ter denunciado à PJ o esquema para o qual fora aliciado, tinha conseguido reunir dezenas de reuniões gravadas com terceiros que revelavam o sistema hierarquizado que durante anos delapidou o erário público: do soldado ao general. E milhares de fotografias com a faturação e guias de remessa que provariam o modus operandi dos suspeitos.

Em meados de 2016, Mercador estava quase a libertar-se do fardo. Durante um ano encarnara um personagem que repudiava, mas sem um único deslize. Encontrou-se com a PJ e passou-lhes o manancial. Dias depois, começaram as buscas e as detenções.

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