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A minha primeira cadeira no Técnico foi Lamas I

A minha primeira cadeira no Técnico foi Lamas I

António Ribeiro Ferreira 25/11/2017 12:16

Dezoito anos, entrada no Instituto Superior Técnico em outubro. No final de novembro estava em Quintas, de pá na mão, a limpar a lama de casas térreas de uma aldeia varrida pelas cheias. Oitenta e três mortos, metade da população

A emoção e o medo de entrar no Instituto Superior Técnico foi em outubro de 1967. O despertar para a vida veio mais tarde, quando, de pá na mão, andei por vilas e aldeias a limpar lama, a descobrir cadáveres e a revoltar-me contra um regime que deixou 500, 600 ou 700 pessoas morrerem nas inundações desse ano maldito. E foi então que as terríveis aulas de Matemáticas Gerais, Geometria Descritiva, Desenho i e Química deram lugar a dias seguidos de lama, fome, frio, cansaço e muita revolta. A cadeira Lamas i mudou-me a vida e marcou-me até hoje.

O sábado 26 de novembro tinha sido igual a tantos outros. Aulas até à seis da tarde, apanhar o 40 para o Cais do Sodré ou Alcântara-Mar. Só havia uma diferença nesse fim de tarde, princípio de noite. Chovia a potes em Lisboa. Ruas inundadas, e o caminho a pé entre o Largo de Alcântara e a estação de comboios foi feito com água pelas canelas e a roupa encharcada.

Domingo de manhã começaram a chegar as notícias. O picadeiro de Oeiras, debaixo da ponte do comboio, ficou devastado. O dia de descanso foi passado sem sobressaltos. Com a informação controlada, só segunda-feira de manhã, quando ia começar mais uma semana de aulas às oito da manhã, tive a noção de que algo de muito grave tinha acontecido. A associação de estudantes estava cheia de gente, a agitação era enorme, e a direção tinha decidido organizar brigadas de voluntários para apoiar as populações afetadas pelas cheias. As informações eram cada vez mais aterradoras e o 10 762, acabado de aterrar no IST, não hesitou em inscrever-se. Mal sabia que esse pequeno gesto ia ser tão decisivo na sua vida.

 

Quintas, 83 mortos

Terça-feira começou a minha nova vida. Equipado o melhor que podia, sem o fatinho e a gravata obrigatórios na altura para quem andava no IST, foi-me dada a guia de marcha para Quintas, no concelho de Vila Franca de Xira. As ordens eram claras. Com uma credencial na mão, os membros das brigadas andavam à borla na Carris e CP e tinham apoio nos locais das câmaras municipais. Uma situação que rapidamente acabou quando o regime entendeu que a presença de milhares de estudantes nas operações de socorro era uma tenebrosa jogada de forças subversivas que tinha de ser combatida de uma forma muito mais eficaz e varrida do terreno. A solidariedade estudantil passou a ser reprimida. Só a caridade da Cruz Vermelha e do tenebroso Movimento Nacional Feminino tinham passadeira vermelha das autoridades e das forças de segurança, com a PIDE à cabeça.

A viagem até Vila Franca correu como previsto. A brigada de 20 estudantes foi bem recebida e de imediato tínhamos pás novas cedidas por uma loja de materiais de construção civil. Subimos para uma camioneta de caixa aberta do município e lá partimos para Quintas. Não sabíamos a dimensão da tragédia que tinha destruído a aldeia. Na encosta que dava acesso à aldeia estavam uns poucos habitantes. Em silêncio, assistiram à chegada dos estudantes. O nosso trabalho era limpar as casas da zona térrea que tinham sido atingidas pelas águas do rio Grande da Pipa. Casas dos 83 mortos.

A lama ali estava à nossa espera. Lama no caminho para as casas, lama em todas as pequenas divisões das pequenas casas. Estava um dia de sol. Frio mas cheio de sol. O almoço veio à hora certa. A associação de estudantes fornecia um saco de plástico com uma sandes de queijo e duas peças de fruta a cada voluntário. Comemos rapidamente. O silêncio era total. Ouvia-se apenas o barulho das pás a tirar a lama das casas. Um homem aparece a uma janela.

– Boa tarde. Esta casa é minha.

– Estamos a limpá-la. Pode ser?

– Sim, muito obrigado. Olhem, isto foi tudo de repente. Estava a dormir com a minha mulher, a chuva era muita, mas nada de anormal. Ouvi um grande estrondo, levantei-me, abri a porta do quarto e fui logo apanhado pelas águas. Não consegui abrir as portas do quarto das minhas filhas. Subi para o parapeito, trepei para o telhado e chamei a minha mulher. Agarrei-lhe as mãos por uns segundos. Mas a força da corrente era tão grande que nunca mais a vi.

A voz do homem era calma. Tranquila. Nós estávamos sem palavras. Emocionados.

– Essa boneca? Estava onde?

– Estava naquele quarto, debaixo da lama.

– Posso levá-la? Era da minha filha, a Clara. Tinha sete anos.

– Claro. Desculpe estar um pouco suja, mas não temos água para a lavar.

– Não tem problema.

Olhou fixamente para a boneca, esboçou um sorriso, apertou-a com força contra o peito e despediu-se:

– Muito obrigado. Deus vos ajude.

Atirámos as pás para a lama e chorámos. Em silêncio. Cada um para seu lado.

 

GNR entra em ação

O trabalho acabou já a noite se tinha posto. Cansados, sujos de lama, mãos feridas pelas pás, revoltados com o cenário de tragédia, as brigadas dirigiram-se para a saída da aldeia, uma pequena encosta que tinha ficado a salvo das águas. Cerca de 15 habitantes, encostados às casas ou sentados às portas, assistiam em silêncio ao regresso dos “rapazes”. A camioneta de caixa aberta da câmara estava à nossa espera. Mas a surpresa era um jipe da GNR com um cabo e dois soldados. O cabo, barrigudo como era habitual na época, atira para os estudantes:

– As pás têm de ficar aqui no jipe. Não saem com elas.

Incrédulos com a situação, explicámos calmamente que o compromisso era entregar as pás na loja ao lado da câmara. Resposta pronta do cabo:

– Não sei nada disso. A ordem é não saírem daqui com as pás.

Resposta pronta de um dos estudantes:

– As pás vão connosco. É o que está combinado.

– Acabou a conversa. Para não haver chatices, deixem as pás.

É então que se levanta um habitante de Quintas, homem com mais de 50 anos, alto e bem encorpado:

– Os rapazes levam as pás. Os senhores estiveram aqui todo o dia de costas alto e não puseram os pés na lama. Os rapazes andaram ali todo o dia, comeram uma sandes e umas laranjas e ainda está a chateá-los. Já disse. Os rapazes levam as pás.

Sentia-se bem a tensão no ar. Outros homens levantam-se e aproximam-se do jipe. O cabo olha para nós, olha para os habitantes e dispara:

– Pronto. Levem lá as pazes. Não quero mais chatices.

Avançámos orgulhosos para a encosta. Tínhamos vencido as forças da repressão. Uma mulher, sentada na ombreira de uma porta, chama-nos:

– Venham cá, meus meninos. Tomem lá um golinho que vos aquece a alma e o corpo.

E assim acabámos o dia em Quintas, a beber uns goles de bagaço do bom. Que de facto nos aqueceu a alma e o corpo nessa noite fria de novembro.

O Movimento Nacional Feminino Foram dias e dias a levantar cedo, chegar ao Técnico e partir para novo destino. Um deles foi para Alenquer, outro concelho devastado pelas cheias. Chegámos a uma aldeia e tínhamos por missão limpar um largo cheio de lama. Os habitantes estavam à porta de um café, nas janelas das casas de primeiro andar, em silêncio, a verem um grupo de estudantes de pás nas mãos, preparados para o trabalho que ninguém antes tinha feito. Como sempre, cumprimentámos as pessoas e dissemos que éramos estudantes do Técnico que estávamos ali para ajudar. Silêncio total. Metemos mãos à obra. Por volta da hora do almoço – a tal sandes e as duas peças de fruta – vemos chegar uma camioneta de caixa aberta com três senhoras impecavelmente fardadas de branco e encarnado. Parámos para assistir à cena quando uma delas bateu as palmas para chamar a atenção dos habitantes:

– Boa tarde a todos. Somos do Movimento Nacional Feminino e temos aqui cobertores para vos dar. Quem quiser pode vir aqui à camioneta, por favor.

Ninguém se mexeu. Para chegar à camioneta das senhoras era preciso atravessar o mar de lama. Volta a senhora:

– Vocês aí, rapazes. Levem os cobertores às pessoas.

Silêncio total dos rapazes.

– Vá lá, não sejam mal-educados. Levem lá os cobertores.

Um rapaz mais exaltado e revoltado com a cena agarra na pá, enche-a de lama e atira-a para cima das senhoras impecavelmente fardadas. Os outros fazem o mesmo e, num ápice, as três senhoras ficam com as fardas, a cara e os cabelos cobertos de lama. Começam aos gritinhos e uma dá ordem ao motorista para fugir. A senhora das ordens aos rapazes, coberta de lama, ainda tem tempo para gritar:

– Seus subversivos. Vou já fazer queixa à GNR.

A camioneta desaparece na curva da estrada, a brigada volta ao trabalho e, de repente, o silêncio é interrompido por uma enorme salva de palmas. Olhámos e vimos os habitantes da aldeia, no café, nas janelas e nas portas a baterem palmas a um grupo de rapazes que ali estava todo sujo a fazer o trabalho que ninguém ainda tinha feito. Como andávamos todos com os nervos à flor da pele, aquele gesto provocou não só uma enorme emoção como nos encheu de força para continuarmos dias a fio com os pés e as mãos na lama.

 

Vacinado numa igreja

Os estudantes de Medicina também andaram no terreno e conseguiram aquilo que o regime não estava a conseguir: arranjar vacinas, nomeadamente da varíola. Vindas de diversos países europeus, de borla, chegavam ao aeroporto e eram rapidamente distribuídas por brigadas de estudantes de Medicina para vacinarem populações e as brigadas de voluntários no terreno. Claro que nada era fácil em 1967. E, assim, as autoridades tudo fizeram para dificultar a saída das vacinas da alfândega do aeroporto. Os boicotes sucediam-se, mas mesmo assim muitas pessoas foram vacinadas por estudantes e as brigadas de voluntários foram convocadas para receberem também as vacinas disponíveis.

A minha brigada do Técnico, que andou sempre entre Vila Franca e Alenquer, foi convocada para ir à igreja de Alhandra bem cedo, antes de ir para o trabalho. Assim foi. Quando chegámos, lá estavam vários estudantes de bata branca, dentro da igreja, a vacinarem as populações e os estudantes das brigadas. As filas estavam bem organizadas: quem ia para o terreno tinha prioridade e foi assim que um estudante do Técnico foi vacinado por um estudante de Medicina nesse novembro de 1967. Sem dizer ai nem ui.

 

Uma cadeira para a vida

A minha primeira cadeira no Técnico, Lamas I, acabou em meados de dezembro. A PIDE atacou a associação de várias maneiras. Chamou a direção à António Maria Cardoso para a intimidar. Queria saber de onde vinha o dinheiro, se os estudantes andavam a distribuir panfletos contra o regime às populações. A minha primeira cadeira no Técnico, Lamas i, mudou toda a minha vida. Fez-me crescer, ganhar consciência do país em que vivia, de quem o governava e da realidade miserável que eu não conhecia. Lamas I foi uma cadeira para a vida. Foi uma cadeira que me fez homem. Um ano depois, na véspera de Natal de 1968, o licenciado em Lamas foi expulso de casa dos pais. Lamas i não se esquece. Lutar contra o regime era ser fiel a Lamas i. E assim foi.

 

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