23/10/17
 
 
Grécia. O principal erro do Syriza foi ter acreditado que se podia reformar a UE

Grécia. O principal erro do Syriza foi ter acreditado que se podia reformar a UE

Shutterstock Zoom 07/08/2017 10:15

“Se as eleições fossem realizadas hoje, o Syriza perderia por grande margem”, mas Alexis Tsipras acredita que a recuperação económica o ajudará a chegar ao fim do mandato

Dois anos depois do início da governação do Syriza, Atenas desapareceu das manchetes dos jornais, como se a política grega tivesse retomado à normalidade. Na última semana de julho o governo grego voltou, pela primeira vez desde 2014, a emitir títulos de dívida, na ordem dos três mil milhões de euros. Tsipras aproveitou para conceder uma entrevista ao canal Alpha TV para defender que este regresso pontual aos mercados representa uma “recuperação da economia” grega e de que “o pior está para trás”, esperando que o programa de ajustamento termine em Agosto de 2018. Mas será que existe uma verdadeira “recuperação da economia”?

De acordo com Grigoris Zarotiadis, professor de Economia Internacional na Universidade de Salónica, a “história da recuperação económica” é “a mesma que temos ouvido nos últimos anos, incluindo no último governo PASOK-Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras”. Para Zarotiadis, “o que estamos a observar é uma economia que se mantém estagnada” e “o argumento de que a economia grega tem crescido não corresponde à realidade”.

Emmanouil Tsatsanis, professor de Ciência Política do ISCTE-IUL, acha que “a economia está a melhorar lentamente em termos de crescimento pela primeira vez” e que “a confiança do mercado está aos poucos a ser restaurada”. Para Tsatsanis, “pela primeira vez em anos a economia grega parece ter uma perspetiva estável”.

No que ambos concordam é na questão dos salários e pensões, hoje mais reduzidos do que antes da crise. “O governo grego tem aumentado significativamente os impostos, especialmente para a classe média e alta, com o intuito de cumprir as metas orçamentais” acordadas com as instituições europeias, refere Tsatsanis.

ESPERANÇA E DESILUSÃO

Há anos que a Grécia tem estado no centro da crise económico-financeira. Depois de duríssimas medidas de austeridade na sequência de dois memorandos de entendimento com a troika, o povo grego elegeu pela primeira vez em décadas um governo liderado por um partido de esquerda-radical, o Syriza. Esta nova realidade eletrificou a esquerda-radical europeia, mas também elementos do apelidado socialismo democrático. Acreditava-se pela primeira vez que o xadrez político no continente europeu estaria a movimentar-se para a esquerda e que a austeridade imposta pelo Eurogrupo poderia ser travada. Manifestações e comícios de apoio ao governo grego realizavam-se nas ruas europeias. A célebre frase “a troika está morta” que Yannis Varoufakis, então ministro das Finanças grego, proferiu numa conferência de imprensa com Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo, ecoou pelo mundo. Um governo fazia finalmente frente ao Eurogrupo.

O primeiro indício de que o governo grego se teria submetido aos ditames do Eurogrupo chegou na noite de 20 para 21 de fevereiro de 2015, na forma de um primeiro acordo entre as partes. Neste, o governo grego, em troca de uma extensão de quatro meses do resgate, acordou com o Eurogrupo atingir os excedentes orçamentais, respeitar os pagamentos da dívida e não usar fundos do resgate existentes para qualquer outra finalidade além do apoio aos bancos. Meses depois de negociações à porta fechada, Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, anunciou, a 27 de Junho de 2015, um referendo sobre um acordo proposto pela troika, que afinal não tinha morrido.

Ao contrário do que a maioria das sondagens produzidas previam, o “OXI” (não) ganhou ao “NAI” (sim) com 61% dos votos contra 39%, provocando um terramoto dentro do governo. Na madrugada após o referendo, Tsipras decide ignorar os resultados e aceitar o acordo. Varoufakis demite-se em discordância com Tsipras e é substituído por Euclides Tsakalotos. As negociações são retomadas com o governo grego numa posição bastante frágil. Tsipras é alvo de muita pressão na Cimeira Europeia de 12 de julho, uma das mais longas da história do projeto europeu. A 14 de agosto é assinado um terceiro memorando, o mais duro até ao momento, e Tsipras confronta-se com uma forte oposição da ala mais à esquerda do partido, a Plataforma de Esquerda, liderada por Panagiotis Lafazanis, colocando em causa a maioria absoluta no parlamento helénico.

Recusando discutir a questão do novo memorando com a oposição num congresso do partido, Tsipras convoca eleições legislativas antecipadas para 20 de setembro, obrigando a Plataforma de Esquerda a romper com o partido e a formar uma nova força política, a Unidade Popular, em conjunto com outras organizações mais pequenas pertencentes à esquerda-radical.

Nas eleições legislativas de 20 de setembro, o Syriza conseguiu a proeza de alcançar mandatos parlamentares suficientes para continuar a coligação com os Gregos Independentes, mesmo que doravante fosse aplicar um programa oposto àquele com que foi eleito em Janeiro de 2015.

O Syriza não é apenas um exemplo de um partido que falhou em cumprir as suas promessas eleitorais, mas também um que adotou por inteiro o programa da oposição. A sua capitulação alimentou a ideia de que não existe alternativa à austeridade, prejudicando toda a esquerda-radical europeia e o surgimento de novas alternativas. O partido não falhou por a austeridade ou o Eurogrupo serem invencíveis, mas por ter acreditado na ideia de que a UE era transformável por dentro e de não ter preparado cenários alternativos para um confronto que sabia a priori que iria deflagrar.

Lições da experiência Syriza

É cada vez mais complicado encontrar alguém que faça um balanço positivo dos dois anos de governação do Syriza, seja à esquerda ou à direita. No que concerne “ao objetivo de colocar um fim à austeridade”, o governo do Syriza “falhou espetacularmente”, declara Tsatsanis. Zarotiadis acrescenta que, em consequência do falhanço do Syriza, “se assiste à continuação do aprofundamento da doutrina neoliberal aplicada no país nos últimos anos”.

Porém, Tsatsanis concede que o Syriza “conseguiu algumas realizações menores, como proporcionar algum alívio para as populações mais pobres, nomeadamente o acesso a cuidados de saúde, que entraram em colapso no auge da crise”. Uma segunda vertente do balanço que este professor de Ciência Política faz é a relação entre o governo e a oligarquia que controla os meios de comunicação social. “Para combater o ambiente hostil nos meios de comunicação social, o Syriza procurou apoiar os seus próprios aliados oligárquicos”.

A relação entre o Estado e a sociedade sempre foi uma questão fundamental na política nacional grega. Décadas de clientelismo no Estado, em consequência da alternância governativa PASOK-ND, fizeram com que uma reforma política assumisse uma posição fundamental no programa do Syriza. De acordo com Tsatsanis, o “Syriza parece não ter nenhum plano credível para reformar o Estado grego”, bem pelo contrário, “em vez de o tentar reformar, o Syriza está a tentar colonizá-lo, tal como os seus predecessores fizeram”, desapontando “os seus eleitores que esperavam uma mudança mais democrática no seu governo”. Uma das consequências, refere Zarotiadis, é precisamente a do “fosso que se está a criar entre os cidadãos e as instituições”, criando “espaço para o aparecimento de novas forças políticas”. Tsatsanis é contundente ao afirmar que a experiência de governação do Syriza “danificou a reputação da esquerda no país”.

Quais as principais lições da experiência do Syriza? “Um governo de esquerda num pequeno país europeu não consegue mudar a Europa sem ter importantes aliados”, diz Tsatsanis que reconhece que “a esquerda radical europeia não tem um verdadeiro plano para governar”. É neste sentido que Zarotiadis defende “a necessidade de se elaborar um plano analítico sobre a zona euro, tendo em conta todas as possibilidades”, numa eventual confrontação com as instituições europeias. “O Syriza deveria ter levado o confronto até às últimas consequências”, mas “não estava preparado”, explica.

Em entrevista recente ao “The Guardian”, Tsipras demonstrou manter a mesma postura dos primeiros sete meses do seu governo: não acreditando numa Grécia fora do euro. “Deixar a Europa e ir para aonde… para outra galáxia?”, reafirmando de seguida a ligação do país com o continente e projeto europeus: “A Grécia é uma parte integral da Europa. Sem ela, como seria a Europa? Perderia uma parte importante da sua história e herança”.

Mesmo depois de meses de confronto e de mais de um ano a aplicar as medidas de austeridade e reformas estruturais impostas pelas instituições europeias, que durante anos rejeitou efusivamente, Tsipras continua a negar qualquer percurso alternativo ao da UE. Pode ser que agora acredite que consegue mudar o Eurogrupo.

E agora?

“Se as eleições fossem realizadas hoje, o Syriza perderia por grande margem. Tsipras sabe disso e, portanto, o objetivo é chegar ao fim dos quatro anos de mandato [algo que não acontece desde 2004] e fazer eleições em 2019. Parece que o plano é criar uma história de sucesso de ter sido o governo que acabou com a crise na Grécia”, ao mesmo tempo que “na frente interna age como um partido responsável e avança com a colonização do Estado para se assumir como o principal partido de centro-esquerda”, considera o professor de Ciência Política.

Zarotiadis tem dúvidas se “o governo do Syriza se vai aguentar durante muito tempo no poder por causa das medidas que têm de ser aprovadas no parlamento pelos deputados da maioria”. O principal risco de queda do governo é a dissidência de deputados, colocando em causa a maioria absoluta (153 deputados em 300). No entanto, a principal questão para o professor de Economia Internacional é a forma como “a instabilidade política e económica criadas na zona euro pela doutrina neoliberal das instituições europeias e da construção da moeda única obrigarão à necessidade de se discutir o futuro do euro.”

 

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