8/12/19
 
 
Ricardo Costa 23/02/2017
Ricardo Costa

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Caso encerrado

O anunciado fim do “SMSgate” confirma Centeno até melhor oportunidade de saída e precipita a estratégia de Costa de largar a dependência de BE e PC

Quando um ministro das Finanças (seja como for, sempre um vice do primeiro--ministro de qualquer governo, seja ele qual for) coloca o seu lugar à disposição – que é como quem diz, está pronto para ir embora e não aguenta mais –, estaria encontrado um facto político da maior relevância. Se ainda mais se sabe que essa disponibilidade de renúncia não é a primeira, mas apenas aquela que se sabe pela boca do próprio, estaria ademais sinalizado um problema no governo: a sua sustentação e o seu próprio equilíbrio. Se depois ainda vem a saber-se que tudo é mais grave do que o “SMSgate” na medida em que esteve em cima da mesa, a propósito do primeiro elenco da nova administração da Caixa Geral de Depósitos, o retrocesso da “recapitalização” da Caixa e o fantasma de novo “resgate financeiro”, então compreendemos todos que o ministério está sob fogo há demasiado tempo e em contínuo. Daí o desgaste de Centeno, que porventura ainda não se habituou às agruras da exposição e da polémica fora dos muros privados. Daí a frustração de Centeno, que já levou demasiados tiros furtivos e anúncios sacerdotais sobre a sua saída antes de tempo. E estes são, por ora, os factos políticos: desgaste e frustração, antes de uma “substituição”, em tempo mais favorável, do ministro das Finanças.

Acontece que António Costa, em matéria de lealdade política, é um senhor. Algo de similar se tem passado com Manuel Caldeira Cabral na Economia, outro alvo a abater mas sempre protegido por Costa no seu trabalho e nas suas metas. Mesmo que, no topo da pirâmide, a lealdade seja a si próprio e ao seu projeto, Costa não o deixa cair nem dá qualquer fôlego. E nesses exercícios compromete Marcelo, que também não se tem escondido. Reconheçamos, não obstante, que mesmo que não fosse leal ou entendesse que essa lealdade tinha ultrapassado os mínimos olímpicos da sobrevivência, esta nunca seria a altura para Costa fragilizar e dar bandeira: a economia dá bons sinais (entre aumento da procura interna, crescimento das exportações, diminuição do desemprego e expetativas de investimento) e o saldo com o exterior recupera; a execução orçamental de 2016, no meio das contabilidades habituais e dos perdões discutíveis, é numericamente um sucesso; algumas reformas e resoluções de problemas crónicos de deliberação do Estado estão a ser apresentadas. A pornográfica dívida pública é o custo, mas não interessa para este filme. São esses sucessos e o bom entendimento com a Comissão Europeia – a cereja ambicionada será a exclusão do anátema do “défice excessivo” – que são contrários às filosofias e doutrinas conhecidas de BE e PC. O que é fundamental para a estratégia de Costa: depende temporariamente de BE e PC, mas não abdica do que é responsabilidade e identidade na gestão do país. E será esta a marca que o poderá libertar da dependência dos partidos à esquerda e manter as pontes com PSD e CDS, sem radicalismos e, até, ambições de maioria eleitoral. E essas ambições têm âncora na fiabilidade do país, pois é nela que Costa aposta tudo para largar BE e PC e deixar para longe PSD e CDS.

Quem ainda não percebeu isto não compreende que não vale a pena prolongar o “SMSgate”. De facto, está encerrado. A Caixa tem nova administração. Centeno sairá em melhor oportunidade. Costa informará Marcelo e Marcelo protegerá Costa. O campeonato segue para o verão e para as autárquicas. A não ser que se saiba algo extraordinário que ainda não se sabe e ninguém saiba que se pode saber…

 

Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto, Escreve à quinta-feira

 

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