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Em nome da filha. Viagem ao mundo escondido da violência doméstica

Em nome da filha. Viagem ao mundo escondido da violência doméstica

Marta F. Reis 22/02/2017 12:22

“Em nome da filha”, um livro com relatos de mulheres vítimas de violência, é apresentado esta tarde no liceu Camões, em Lisboa. O i falou com a autora.

- A quem serve o amor?
- O amor serve o amor.

Esta história foi contada a cem pessoas, que por sua vez a contaram a mais cem, de modo que agora é a vossa vez de contar às outras cem que ainda não a conhecem. Eu já fiz a minha parte.

Termina assim “Em nome da filha”, um livro com relatos de mulheres vítimas de violência doméstica a tentarem libertar-se da prisão do dia-a-dia e das memórias. A autora Carla Maia de Almeida tem 48 anos, é jornalista e autora de livros infantojuvenis. Quis perceber o mundo da violência doméstica, ouviu e escreveu. Encontrou respostas. As histórias reais deram corpo ao livro-reportagem publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que será apresentado esta tarde na Escola Secundária de Camões. As últimas páginas são um conto dos irmãos Grimm, que Carla reescreve, para que a mensagem das mulheres com quem conversou possa seguir o seu caminho.

Logo na introdução do seu livro lembra uma expressão que ouviu em miúda e a marcou: “As telhas escondem muitas coisas”. Esta continua a ser uma realidade demasiado escondida?

Ouvi essa expressão uma vez e mais tarde relacionei-a com um caso de violência doméstica num casal amigo da família, mas na altura eu era criança e não tinha noção. É um lado pessoal sobre o qual não me quero debruçar mas são coisas que ficam no inconsciente das crianças.

Há milhares de participações de violência doméstica no país. Acha que se todos puxarmos pela memória recordamos sinais de vezes em que a violência esteve próxima?

Não sei. Cresci nos anos 70, a violência doméstica não era encarada como é hoje. Havia outra benevolência, menos informação. A geração dos meus pais e dos meus avós tinham outra visão do casamento e das relações de intimidade, em que a mulher tinha um papel mais passivo. Muitas vezes, suponho eu, essas suspeitas que podia haver de violência doméstica nem eram questionadas, era como se fizessem parte do casamento. As coisas mudaram muito mas a violência doméstica continua a ser objeto de vergonha, medo, culpa. Quis que o meu trabalho enquanto jornalista desse um contributo relevante para haver mais informação.

Ainda assim hoje fala-se muito de violência doméstica.

Sim, mas apesar de estar na ordem do dia, dá-me a sensação que ainda não se sabe muito, tal como eu não sabia antes deste trabalho. Sou jornalista há 25 anos, sempre trabalhei nas áreas de cultura e de sociedade, mas é um tema complexo em que existem múltiplos sentimentos, contextos.

Qual foi o pontapé de saída para este livro-reportagem?

Foi uma proposta que fiz à Fundação. Queria perceber porque é que a violência doméstica continua, quais os agentes implicados. O pontapé de saída foi esta vontade de querer compreender.

Mas começa tudo com uma história, com uma pessoa?

Não. Tenho um livro dirigido mais a adolescentes e adultos que se chama “Irmão lobo” em que já abordo o problema de uma família disfuncional. Talvez venha daí, do facto de a família ser um dos meus temas literários. Sempre me interessei por comportamentos, pelas contradições nas pessoas. Quando pensei em fazer uma reportagem de fundo, o tema da violência doméstica foi algo instintivo.

Conheceu quantas mulheres vítimas de violência conjugal?

Conheci mais, mas no livro conto a história de oito mulheres que estão em casas de abrigo para vítimas de violência doméstica e depois outras duas histórias. A da Filipa, que começa o livro, e a de uma outra mulher. A história da Filipa é emblemática por muitos motivos. Acontece em 1993, numa altura em que a violência doméstica nem era notícia.

Conta que, um dia, o pai de Filipa, na altura com 16 anos, mata a mãe na rua com dois tiros de caçadeira, com a jovem ao lado.

É uma história pesada, também por todo o historial de ameaças até aí. E é nisso que este caso é muito semelhante àqueles que continuam a chegar nos dias de hoje às casas de abrigo. Há como que uma espécie de comportamento padronizado que implica ameaças, manipulação contínua, chantagem, um cerco psicológico tremendo.

E de fora pode parecer que está tudo bem. Filipa diz a certa altura que “fora de casa, os agressores são sempre fantásticos”.

Penso que isso varia mais. Há agressores que escondem as suas intenções e há aqueles que alardeiam para quem quer ouvir o que vão fazer.

O que é mais assustador: os que parecem fantásticos aos olhos dos outros ou os que alardeiam e ninguém os leva a sério?

É uma pergunta difícil. Creio que será sempre mais assustador lidar com o invisível. Mas assustadores são todos casos, viver com uma bomba-relógio.

Como foram os encontros com estas mulheres?

Ouvir estas mulheres foi o mais fácil comparado com tudo o resto. Uma das coisas que pedi quando contactei as casas de abrigo – primeiro através da secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade e depois através da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género – foi procurar ter mulheres de diferentes faixas etárias, casos em que tivesse havido violência no namoro ou antecedentes familiares por ser um elemento preditor da violência (embora a relação não seja linear). Mas, acima de tudo, procurei mulheres que quisessem mesmo contar a sua história, que isso fosse importante para elas. E acho que o principal contributo deste livro é esse.

Dar a palavra às mulheres?

Que queriam falar para avisar outras mulheres. E por isso posso dizer que os encontros foram bons. Eu quase que só tinha de ligar o gravador, olhar nos olhos e deixar falar. Fazia questões para pontuar a conversa mas basicamente escutei.

E como se escutam relatos tão duros?

Tenta-se. É um mundo subterrâneo, escondido, cheio de sentimentos complexos, contraditórios, onde há grandes conflitos de poder. Um elemento chave nestas relações violentas é o poder, uma pessoa que sistematicamente quer controlar a outra.

Surge também, a certa altura, o conflito entre amar e odiar, ou não?

Há uma dependência emocional. Claro que encontrei casos de mulheres que me disseram que continuavam a amar, mas a maioria não. E ao longo deste trabalho tive apenas um caso de uma senhora que retrocedeu. Estava a caminho do local da entrevista quando me ligaram da casa de abrigo a dizer que ela estava a considerar regressar a casa. De resto, as pessoas com quem falei estavam combalidas, ainda com emoções muito fortes, mas num fase de transição. Viver uma situação de violência doméstica ocupa um espaço mental enorme.

Muitas vezes as agressões duram anos e anos.

O tempo médio em Portugal são 13 anos.

Entre todos os encontros, que relato mais a marcou?

Prestei sempre muita atenção à expressão corporal. Um dos casos que mais impressionou é o de uma senhora que não tinha sequer permissão do marido para olhar em frente. Quando caminhava ao lado dele na rua tinha de estar sempre a olhar para baixo. E toda a postura dela, a linguagem gestual, era de um corpo envergonhado, encolhido, fechado sobre si próprio. Demorou um certo tempo a estabelecer contacto visual comigo. E há um pormenor que nunca esquecerei. Ela sofreu agressões nos olhos que a deixaram quase cega, teve de ser operada e depois recuperou. A certa altura conta-me que o agressor andou em cima da cara dela com os pés. É uma imagem tão repugnante que vai ficar comigo para sempre. Como é que uma pessoa lida com isto?

Com a humilhação extrema?

É isso, é maldade.

Será maldade ou loucura?

Um dos grandes equívocos em relação à violência doméstica é que muitas vezes pensa-se que os agressores – e foquei-me nas mulheres porque são a maioria das vítimas mas também há homens – são pessoas psicopatas. Eu sou jornalista e não pretendo passar por especialista em violência doméstica, mas o que me foi explicado, nomeadamente por um psiquiatra, é que há uma percentagem mínima de casos que se enquadram na psicopatia. O agressor, na maioria das vezes, pode estar ao nosso lado, funcional. Claro que podem ser pessoas com falta de empatia e outras características particulares, mas não são loucos.

Que outros equívocos encontrou?

Que a violência doméstica só é uma coisa de pobres. Tive dificuldade em encontrar casos de pessoas “diferenciadas”, mas é porque essas mulheres não vão para as casas de abrigo, que são um último recurso. E nesses casos em que a mulher e os seus filhos correm risco de vida, são mesmo. Às vezes têm de passar por duas e três casas de abrigo porque os agressores descobrem onde elas estão.

Que imagem reteve das casas de abrigo? São lugares de acesso condicionado e morada desconhecida.

Conheci três casas. O que posso dizer é que as mulheres têm direito à sua privacidade, não são espaços com camaratas como vemos no acolhimento de refugiados. Têm assistência psicológica e é feito um trabalho de recapacitação. Ficam até seis meses, numa altura em que ainda estão a processar tudo. Agora, ninguém gosta de sair da sua casa e notei nas mulheres com quem falei uma grande revolta. Pensam “então eu é que fui a vítima e ele agora está lá sentado no sofá a ver televisão”.

Fisicamente, como encontrou estas mulheres?

São mulheres como nós. Claro que há abatimento, as lágrimas assomam facilmente. Há sinais físicos de culpa, como olhar de lado.

Chamou à reportagem “em nome da filha”. Porquê?

Por vários motivos. Calhou todas as mulheres quem quem falei serem naturalmente filhas mas terem também filhas mulheres. Quis refletir que muitas vezes o ciclo da violência doméstica pode ser interrompido por uma atitude das mães no sentido de empoderar as filhas. A última rapariga no livro, de 20 anos, frisa isso. Tem a ajuda da mãe, que nunca lhe disse para aguentar uma vida que não queria. Depois há o sentido simbólico. Estas mulheres estão a falar em nome de outros e desta causa. Há ainda a história de Filipa, a filha que assistiu ao assassinato da mãe e organizou a sua vida – é a filha que abre caminho a outras que se seguem. Num sentido ainda mais simbólico, pensei no sinal da cruz. Quando dizemos “em nome do pai”, elevamos a mão à testa. “Em nome do filho” levamos a mão ao coração. Estas histórias são histórias do coração, de emoções fortes que espero que ajudem a acabar com os julgamentos que ainda existem.

Como assim?

Aquilo que continuamos a ver em muitos comentários, que “estão ali porque querem”, que “gostam de levar porrada”, que “elas é que não os largam”. São comentários indignos para algo grave e que pode acontecer a qualquer pessoa. Não é um problema de pobres, alcoólicos e ignorantes. É uma armadilha.

Sai deste processo de escrita com algum diagnóstico?

A violência doméstica dá sinais, muitas vezes subtis, mas se tivermos mais atentos podemos prevenir. O que se passa é que muitas vezes nem a família consegue ajudar. Veja-se aquele caso da mulher raptada em Grândola, salva in extremis pelas autoridades quando tinha feito queixa há 15 dias. Não quero ser pretensiosa, mas saio com uma ideia que foi um bocado resposta à minha pergunta inicial. Como é que se aborda esta problemática? É pelo agressor, pelas vítimas, pelas casas de abrigo? Percebi que é um problema tão emaranhado que não se pode deixar nenhuma ponta solta. Outro alerta partilhado por todos os especialistas com quem falei é que é preciso educar os mais novos, só assim vamos combater estatísticas assustadoras. Ainda agora um estudo revelou que um em cada três rapazes acha normal violência no namoro e não entende como violência o controlo do telemóvel, impedir a namorada de vestir certas roupas ou dar-lhes um empurrão. Isto não pode continuar, senão estes rapazes daqui a dez anos vão estar a matar mulheres e namoradas.

Escreve a certa altura que a violência doméstica é difícil de provar.

É algo em que não pensamos muito. Então a violência psicológica é dificílima de provar, mas até a física pode ser questionada: veja a decisão recente da Relação de Évora, em que os juízes consideraram que apertar o pescoço não é violência doméstica. É difícil porque muitas vezes as pessoas não fazem logo queixa, não há uma perícia no Instituto de Medicina Legal e o que conta muitas vezes em tribunal são esses relatórios. E a vítima no meio disto tudo é permanentemente revitimizada, quantas vezes tem de contar a história. Parece-me também preocupante que, na maior parte dos casos, os agressores tenham penas suspensas.

Termina o livro com a reescrita de um conto, “A rapariga das mãos cortadas”, e pergunta a quem serve o amor.

Sim, esse reconto não estava pensado inicialmente mas como é um trabalho composto de histórias achei que fazia sentido. É um conto dos irmãos Grimm que simboliza a condição agredida das mulheres. Estas mulheres enquanto estão debaixo da coação estão incapacitadas de agir e o que quis dizer com essa pergunta é que o amor não tem dono, o amor não serve as ordens de ninguém. O amor serve o amor. E quis deixar este conto no final por outro motivo. Quem trabalha em contexto terapêutico em casos traumáticos sabe que as pessoas não se exprimem com as ideias arrumadas: e muitas vezes é pelo simbólico que apreendem. Gostaria de perceber como é que esta história pode ressoar no íntimo de uma mulher que passou por uma situação destas. Pode ser uma forma peculiar de terminar uma reportagem, mas foi um risco que corri.

 

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