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Fazer a América pequena outra vez

Fazer a América pequena outra vez

Jorge M.S. Sampaio 09/02/2017 16:40

Um pouco por todo o lado, é possível ouvir hoje, com alguma naturalidade até, supremacistas brancos a tentar explicar por que razão as suas ideias fazem sentido, discutindo e defendendo-as em pé de igualdade não apenas em plataformas perdidas nos confins da internet ou em anfiteatros suburbanos alugados para o efeito — o mundo da alt-right e do Breitbart é o mundo do pluralismo absoluto, pelo qual alguns politólogos ansiavam. 

Ta-Nehesi Coates é jornalista no The Atlantic, onde escreve essencialmente sobre política, sociedade e cultura, e publicou já dois livros — The beautiful struggle (2008) e Between the world and me (2015) —, movendo-se em terrenos de não-ficção ensaística, autobiografia e teoria política. Com o seu último livro, alcançou tal unanimidade que, para além de ter sido elogiado por Toni Morrison ou Jay-Z, ganhou o National Book Award para não-ficção e foi-lhe atribuído o prestigiado prémio MacArthur Foundation “genius”.

De acordo com Coates, Entre mim e o mundo — título da edição portuguesa da editora Ítaca —, que é uma espécie de manifesto epistolar afro-pessimista, foi inicialmente concebido como uma colecção de ensaios sobre a Guerra Civil, mas, após a morte de Michael Brown e a reacção de incredulidade que viu no seu filho pela não condenação de um polícia que tinha matado alguém, reconsiderou a temática e, movido por uma colossal indignação, resolveu escrever sobre uma ideia aparentemente simples: «[n]a América, é tradição destruir o corpo negro – é herança» (no mundo, acrescento eu, a tradição de destruição do corpo estende-se aos restantes homens, tendendo a desigualdade a diminuir na destruição humana). O livro aparece, como realça Sukhdev Sandhu, num momento em que quase diariamente somos fustigados por imagens e vídeos, partilhados nas redes sociais, de negros a serem estrangulados, espancados ou mortos pela polícia, o que levou uma multidão a sair à rua e a exigir mudanças — é o tempo do Black Twitter, do Black Lives Matter, ou do «activismo hashtag».

No livro, cujo título foi resgatado de um poema de Richard Wright e que encontra expressa inspiração na forma epistolar do ensaio de James Baldwin My Dungeon Shook – Letter to my Nephew on the One Hundredth Anniversary of Emancipation, Coates dirige-se a Samori, o seu filho de 14 anos. Porém, conforme chama a atenção Darryl Pinckney, enquanto Baldwin implora ao sobrinho para, tendo em atenção a sua própria humanidade e poder, aceitar a sua responsabilidade de ajudar «a tornar a América naquilo que se deve tornar», Coates, movido por uma raiva e pessimismo patológicos, escreve ao seu filho no dia em que este faz quinze anos o seguinte: «e sabes agora, se não sabias antes, que as esquadras do nosso país foram investidas com a autoridade de destruir o nosso corpo (…). E a destruição é meramente a forma superlativa de um domínio cujas prerrogativas incluem buscas, detenções, espancamentos e humilhações. (…) Ninguém é responsabilizado».

À medida que o livro avança, Coates vai-se detendo por vários momentos da sua vida, num estilo confessional. Começa pela sua infância passada em Baltimore, onde conheceu inicialmente o medo — «[o]uvi o medo na primeira música que conheci, a música martelada por rádios levados ao ombro, cheia de decibéis e invectivas grandiloquentes». Este é o mundo que vimos em The Wire, mas também o mundo da Changes de Tupac ou da Mind playing tricks on me dos Geto Boys. Foi também na infância que Coates conheceu a violência: «[s]er negro na Baltimore da minha juventude era como estar nu diante dos elementos do mundo, diante de todas as armas, punhos, facas, crack, violações e doenças». Ressalta aqui a inescapabilidade do gueto, das ruas, da droga. Mas a verdade é que Coates conseguiu escapar, e isso deveu-se em grande medida ao seu pai, de quem herdou a raiva política que agora o caracteriza de forma indelével.

O pai de Coates — que teve uma editora especializada em afrocentrismo, para além de até em apicultura ter trabalhado —, tinha uma actividade política intensa, tendo feito parte dos Black Panther. Ou seja, Coates vivia numa família diferente daquelas que conhecia, o que não deixava de parecer estranho aos olhos de uma criança que vivia no gueto. Ainda assim, nem o seu pai fugia totalmente à dureza de Baltimore. Como refere Pinckney, a morte, na infância de Coates, podia vir durante a tarde, na forma de um miúdo que futilmente lhe apontava uma arma. Talvez seja a compreensão deste medo e violência e sua contextualização — o receio de que o seu filho não conseguisse sair do bairro — que levam Coates a desculpar o pai pelas recorrentes cinturadas.

A Universidade de Howard, que fica em Washington D.C., foi um momento decisivo na sua vida, ao ponto de a apelidar de “Meca”; lá, estudou história, embora, para se dedicar ao jornalismo, tenha deixado o curso por concluir. Foi aí, onde confraternizava com «autores de esquemas Ponzi, cristãos de seitas, fanáticos do Tabernáculo e génios da matemática», que se descobriu na literatura e história afro-americanas, conheceu a sua futura mulher, bem como o amigo Prince Jones, que acabou por ser morto pela polícia. Se foi em Howard que descobriu o poder (político) da poesia, de alguma forma talvez tenha sido a morte de Jones que mais o marcou, sendo provável que a sua radicalização tenha começado a germinar nesse momento. As questões floresciam ao mesmo passo que o seu pessimismo aumentava, mas as respostas não apareciam, o que é uma perfeita fotografia do livro Entre mim e o mundo.

Aqui chegados, importa deixar uma palavra sobre o Sonho e sobre a Luta de que tanto fala Coates. O Sonho confunde-se com a pastoral americana, chegando a ser usado como justificação para quaisquer actos. É neste quadro que Coates considera que os americanos acreditam que o Sonho é justo e resulta, de forma inata, da sua coragem, honra e bom trabalho, na mesma medida que nas ideologias totalitárias o mal infligido se iniciava na crença de homens que piamente acreditavam prosseguir o bem à luz de uma lei natural. Desse Sonho, contudo, não podia deixar de fazer também parte o brutal sistema prisional norte-americano, a polícia transformada em exército, a histórica e longa guerra contra o corpo negro. De facto, é no contraste entre o Sonho Americano dos subúrbios e a violência gratuita dos guetos que Coates se foca com enorme agudeza — «[o]s campos de morte de Chicago, Baltimore, Detroit foram criados pela política dos Sonhadores, mas o seu peso, a sua vergonha recaem apenas sobre aqueles que lá morrem». Coates compreendeu a mensagem de Malcolm X, e é por essa razão que não acredita na não-violência. A esperança de poder ser um miúdo despreocupado, de comer tartes e assados, de ter uma casa com cercas brancas, como aquelas que a televisão costuma mostrar, é para os patetas. É precisamente este pessimismo que ele acha que o pode proteger.

Não obstante tudo isto, Coates escreve ao filho que «[e]les transformaram-nos numa raça», «[n]ós fizemo-nos num povo». Isto é, como afirma Pinckney, Coates não deixa de estar satisfeito por o seu filho ser negro, porque é essa condição que lhe permite uma profunda compreensão da vida, inatingível por aqueles que se encontram encurralados no Sonho. Por seu turno, Coates não descura a dimensão do Sonho Americano nos termos da qual o problema da raça estaria ultrapassado, o que a eleição de Obama comprovaria. E quer que o seu filho saiba que o governo do povo esqueceu no passado a sua família, que a democracia americana é auto-congratulatória e que os brancos perdoam a tortura, o roubo e a escravização que são as fundações em que o país assenta.

Nada nas palavras de Coates foge à luta política. Aliás, nem a escolha do nome do seu filho é politicamente inocente — Samori Touré foi um herói da resistência ao colonialismo francês durante o século dezanove. Ora, a grande herança que aquele julga e pretende deixar ao seu filho é a mesma que o seu pai lhe deixou: a Luta. É esta que lhe permitirá perceber que também ele, em função da sua pele, não é dono do seu próprio corpo, pois a qualquer momento pode ser destruído pela América em que vivem, sem que ninguém seja por isso castigado, e sem que o próprio pai o possa proteger. 

Apesar disto, Coates acredita que o seu filho pode escapar ao medo, e é nesse sentido que, como refere Michelle Alexander, insta Samori a «[l]utar pela memória dos nossos antepassados», a lutar «pela sabedoria», mas pede-lhe que não lute pelos Sonhadores, que «terão de aprender a lutar por si próprios». O que acaba por ser contraditório, pois reconhece que os Sonhadores, com a tecnologia, conseguiram não apenas «pilhar os corpos dos homens, como também o corpo da própria Terra», ou seja, estão a preparar a sepultura de todos nós.

Feito este percurso, as críticas e eventuais perplexidades sobre o que propõe Coates podem agora ser trazidas à discussão. Como questiona Alexander, como acha Coates que os Sonhadores podem aprender por eles próprios, quando a história nos mostra que os privilegiados e os poderosos apenas cederam quando foram levados a isso? A isto acresce o facto de o seu discurso parecer esgotar-se num inultrapassável ressentimento, não transmitindo qualquer esperança de o povo negro ser capaz de melhorar o futuro que lhe foi destinado. Diversamente, Baldwin, através do amor, considera a mudança não apenas possível, como responsabilidade dos homens livres. Mesmo que se admita a condicionalidade da vida dos negros americanos de que parte, não será a raiva verbosa de Coates desproporcional, como mostra a passagem em que confidencia que, quando assistiu ao 11 de Setembro, não conseguia sentir nada pelos polícias ou pelos bombeiros que morreram a tentar salvar as pessoas que se encontravam nos edifícios do Wold Trade Center, pois «[p]retos, brancos ou o que fossem (…) podiam – sem qualquer justificação – destruir o [seu] corpo». Há algo de animal, de humano nesta afirmação. Mas não poderá Coates ser acusado de não ser estruturalmente diferente dos opressores ou do mal que lhe foi — e que lhes é — imposto?

Além disso, não ficará o seu filho ainda mais desamparado depois de ler esta carta, uma vez que nem sequer explica com exactidão no que se traduz a Luta e qual a sua vantagem em relação ao Sonho? Como é que alguém pode travar uma luta sem esperança, nem que seja um mero fio de alento? O que devem afinal os negros fazer: ficar na América e lutar, como aconselhou Frederick Douglass, ou deixar a América para trás, como pretendia Martin Delany? Não tem Coates e outros como ele a obrigação (moral) de resistir e lutar com todas as forças, seja com uma caneta ou com um microfone, contra quaisquer formas de discriminação, contra as injustiças, contra os fanáticos?

Como sugere Chatterton Williams, a dada altura talvez possa até ser identificável uma certa paranoia em toda esta raiva, como no episódio narrado no livro em que Coates, que até admite não conhecer bem os brancos, se voltou violentamente contra uma mulher que empurrou o seu filho e gritou de forma impaciente “vamos”. Não poderia aquela mulher não ser racista, senão apenas imbecil? Não é injusto que Coates, ao salientar que o racismo e a estruturação racial se mantêm nos Estados Unidos, nada diga sobre o inegável progresso verificado ao nível da igualdade, embora ele próprio seja um fruto desse progresso, do Sonho? E quanto à vida de gueto, não contribuirá para isso a «armadilha dionisíaca» (Orlando Pattersson), de acordo com a qual o estilo de vida retratado na música e cultura hip hop, i.e., no dinheiro, nas compras, nas roupas, no sexo, no niilismo de rua, nas drogas, nos clubes, tem um efeito sobre os jovens semelhante ao de uma droga? Não haverá nem mesmo uma réstia de livre arbítrio?

Devo confessar que, durante a leitura do livro, me questionei imediatamente sobre se toda aquela raiva e pessimismo não acompanhados de quaisquer respostas, não seriam inconsequentes e contraproducentes. Todavia, vivemos agora na América de Trump, que nos veio mostrar que o desânimo de Coates talvez não seja desrazoável, que nos veio mostrar que ninguém fazia ideia de que matéria era verdadeiramente feita a América, nem da magnitude das feridas e dos traumas que fazem a sua curta história. Paradigmático disto é o facto de, no rescaldo da vitória de Trump, terem começado a aparecer em paredes americanas frases como «Make America white again». Enfim, a escrita de Coates apresenta-se como um acto de agressividade, na linguagem de Didion, que parece afinal mostrar-se necessária para a tarefa a que se propõe.

Pelo que acabo de dizer, talvez Coates estivesse ciente das suas próprias contradições, talvez soubesse que este não era o momento para dar resposta às grandes questões colocadas. Era apenas o momento para mostrar quão virtual é a América pós-racial, quão profundo é o racismo estrutural que a caracteriza, e quão longe da realidade vivemos todos nós. É possível que o objectivo seja o de nos mostrar que se não entendermos a magnitude do problema racial, nunca o conseguiremos atalhar. E é nesta medida que Entre mim e o mundo talvez esteja inacabado, à espera de que consigamos compreender a sua mensagem. 

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