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João Ferreira: o candidato ‘engraçadinho’ da CDU

João Ferreira: o candidato ‘engraçadinho’ da CDU

João Porfírio Rita Porto 29/01/2017 18:56

Trabalhador, inteligente e ortodoxo. É assim que é visto o candidato da CDU a Lisboa por colegas eurodeputados. Mas há quem ache impossível concliar lugares de vereador com deputado ao Parlamento Europeu.

«Podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha, seria fácil aumentar votação». A frase é de Jerónimo de Sousa, no rescaldo das eleições presidenciais, em janeiro do ano passado. O secretário-geral do PCP referia-se à candidata do Bloco de Esquerda, Marisa Matias. Mas basta recuar dois anos para o mesmo argumento poder ser utilizado contra (ou a favor) os comunistas, quando escolheram João Ferreira para encabeçar a lista da CDU às eleições europeias. É um dado objetivo: João Ferreira é um sucesso entre as mulheres (e homens também).

Doutorado em ecologia, o recém-anunciado candidato da CDU a Lisboa começou a dar nas vistas cedo. Chegou ao Parlamento Europeu (PE) como deputado em 2009, juntamente com Ilda Figueiredo – mandato renovado em 2014. Em 2012 torna-se membro do Comité Central do PCP e cerca de um ano depois fica como vereador da Câmara Municipal de Lisboa, depois de ter sido candidato – cabeça de lista – também pela CDU.

Antes de chegar às lides políticas, exerceu diversos cargos ligados à Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa como membro do senado, membro do conselho diretivo e membro da direção da associação de estudantes. Foi ainda presidente da Direção da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica e técnico superior da Associação Intermunicipal de Água da Região de Setúbal.

‘Um ortodoxo’

Atualmente com 38 anos, divide-se entre Bruxelas e Lisboa. O eurodeputado do PS, Carlos Zorrinho, recorda as vezes que esteve com João Ferreira a assistir a jogos do Sporting através da televisão e do iPad e a trocar comentários sobre o clube de futebol. «É quase tão sportinguista quanto eu», conta o socialista entre risos.

‘Doenças futebolísticas’ à parte, o antigo secretário de Estado descreve o colega eurodeputado como sendo alguém «muito empenhado nas funções e muito trabalhador», além de ser «uma pessoa de requinte trato e agradável». Em termos ideológicos, «um ortodoxo», sublinha o socialista ao SOL.

Nuno Melo é da mesma opinião. Para o eurodeputado do CDS, João Ferreira é «um dos rostos da renovação comunista», mas isso não se traduz numa maior abertura. Assiste-se antes a um discurso de «uma linha muito monolítica e antiga do comunismo ortodoxo». «Nessa medida chega a ser surpreendente. É suposto que a renovação geracional aligeire e o PCP, pelo contrário, reforça muito a sua base dogmática nesses jovens, dos quais o João é um deles», refere ao SOL.

José Manuel Fernandes também olha para o comunista como um «deputado empenhado» e «da linha dura» do PCP. «Reconheço inteligência e empenho a João Ferreira que, no entanto, é mal aplicada. Põe-se numa posição ortodoxa e extrema, onde até se confunde com a extrema direita», defende o eurodeputado do PSD ao SOL. O social-democrata relembra as várias situações em que a extrema esquerda e extrema direita votaram no mesmo sentido: a saída do Euro, o orçamento da União Europeia e os fundos estruturais.

Vereador e eurodeputado

E não é a única crítica de José Manuel Fernandes a João Ferreira. «Não sei como é que alguém se candidata a uma câmara municipal, estando a exercer um mandato [de eurodeputado] a meio. Quais são os eleitores que está a trair? Está a enganar os eleitores de Lisboa ou todos os que votaram nas europeias?».

O eurodeputado considera «impossível conciliar uma campanha eleitoral e um lugar na vereação com uma presença no PE». E defende que o candidato da CDU devia ter «a atitude nobre» de renunciar ao cargo de deputado no PE para se poder dedicar em exclusivo a Lisboa.

João Gonçalves Pereira, também vereador do CDS na Câmara de Lisboa, considera que João Ferreira consegue gerir bem o dois cargos. «Eu próprio estive no PE e na Câmara de Lisboa e consegui perfeitamente compatibilizar as duas situações. Bruxelas é aqui ao lado», lembra o centrista ao SOL.

Rui Tavares recorda que não se trata de uma situação «inédita», apesar de ser mais comum entre eurodeputados belgas e franceses, tendo em conta a distância geográfica. «Ana Gomes é uma eurodeputada muito ativa e também foi vereadora em Sintra».

O dirigente do Partido Livre esteve com João Ferreira no grupo da Esquerda Unitária entre 2009 e 2011, ainda que a trabalharem áreas diferentes: o comunista na área da agricultura e pescas e Tavares na área das liberdades e direitos civis. «Trabalhador, sólido, inteligente e disciplinado», afirma Rui Tavares sobre o ex-colega comunista. Ortodoxo? Nem por isso. «Não diria que João Ferreira é um ortodoxo, mas é certamente alguém disciplinado e bem dentro daquilo que é o património ideológico do Partido Comunista. As próprias noções do que significa ser ortodoxo e pragmático na esquerda portuguesa mudaram muito desde 2015».

 

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