12/08/2022
 
 
Sócrates quis publicar livro contra ‘três embustes’ da direita

Sócrates quis publicar livro contra ‘três embustes’ da direita

João Porfírio Felícia Cabrita 22/01/2017 11:11

Ex-primeiro-ministro tinha planos para um terceiro livro, desta vez com a ajuda do blogger António Peixoto, a quem pagava uma avença por publicações favoráveis ao seu Governo. 

Dizendo-se farto das «mentiras» e da «narrativa da direita», que o responsabilizava pela entrega do país à troika, José Sócrates planeou escrever um livro com a defesa da sua governação.

O trabalho seria um ensaio sobre Portugal e a crise europeia, e o título - dizia ele aos amigos - poderia até ser um trocadilho que jogasse com o da comédia cinematográfica Quatro Casamentos e um Funeral.

A ideia surgiu no verão de 2014, meses antes de Sócrates ser detido. E o objetivo era desmontar os «três embustes» que lhe eram atribuídos e com os quais a direita quereria enterrar o «valor supremo» da igualdade social e fazer triunfar o neoliberalismo. O plano foi detetado nas escutas telefónicas efetuadas no âmbito da Operação Marquês.

Desta vez, Sócrates pretendia prescindir de Domingos Farinho, o professor de Direito que o terá ajudado a escrever A Confiança no Mundo e o Dom Profano. Em julho de 2014, enquanto Farinho se dedicava a este último livro, o ex-primeiro-ministro arranjava novo colaborador para fixar em livro as ideias que tinha na cabeça desde o regresso de Paris, procurando justificar o passado e colocar-se novamente no palco político.

A escolha recaiu em António Peixoto, que durante uma década se escondeu sob o pseudónimo Miguel Abrantes nos escritos publicados no blogue Câmara Corporativa, que o MP julga ter sido financiado por Sócrates para fazer a defesa feroz dos seus governos e políticas, enquanto arrasava a oposição.

Editar a ‘narrativa’

 Um ano antes, em março de 2013, numa entrevista à RTP 1 - que antecedeu a estreia do seu espaço de comentário político ao domingo -, já Sócrates denunciava os «três embustes» que o Governo de Pedro Passos Coelho criara à sua volta. Esses três ‘embustes’ eram:

1. Ter sido ele o responsável pela crise portuguesa;

2. Ter aberto as portas à troika; 

3. Ter sido o Governo socialista que conduziu ao pedido de ajuda externa.  

Segundo Sócrates, esse processo foi causado pela crise internacional de 2008 e foi precipitado pela posição do PSD no Parlamento, ao chumbar o PEC IV.

A expressão colou-se como bandeira da sua nova «narrativa» política, e não houve jornal ou estação televisiva que não citasse os «três embustes». O próprio deslumbrou-se com a metáfora e, em julho de 2014, entre as várias conversas que manteve quase diariamente com António Peixoto - que na blogosfera continuava a difundir textos favoráveis ao PS e a Sócrates -, deu-lhe a notícia, glosando o título do original cinematográfico de Michael Newell: «Estou a pensar escrever um livro inspirado no filme Três Casamentos e um Funeral: ‘Os Três Embustes’».

‘O Galamba fala muito’

De seguida, Sócrates resumiu a nova obra: rebater a ideia de que foi ele o responsável pela abertura das portas à troika e de que a crise era só portuguesa, e atacar «a questão ideológica da ofensiva da direita contra a igualdade». Mas faltavam-lhe conteúdos, e pediu conselhos ao interlocutor. Peixoto estava disponível para tudo: «Ajudo no que for preciso, e o João Galamba de certeza que também ajuda». Mas, embora Galamba, seu conselheiro em política financeira enquanto fora chefe do Governo, lhe merecesse simpatia, Sócrates não o quis neste projeto: «Não, que ele fala muito. Temos de manter isto só entre nós».

Peixoto começou por chamar a atenção dos investigadores da Operação Marquês devido ao pagamento que recebia disfarçadamente para produzir textos para o Câmara Corporativa. A partir de cerca de 100 emails enviados neste período por ele a Sócrates, com a resenha das notícias sobre o estado político do país, o MP consolidou a tese de que a avença mensal de 3500 euros (que lhe era paga a ele e ao seu colaborador Rui Mão de Ferro pela RMF Consulting) tinha como objetivo manter o Câmara Corporativa.

O blogue nasceu em setembro de 2005, seis meses após o início do primeiro mandato de Sócrates como chefe do Governo. Os primeiros posts, assinados por um desconhecido Miguel Abrantes, eram ataques aos ‘privilégios’ de grupos corporativos que Sócrates tinha na mira reduzir: magistraturas, farmácias, Forças Armadas, PSP e GNR. As várias frentes de combate do líder do PS inspiraram, aliás, o nome do blogue.

Desde o início do projeto, José Sócrates terá pago os serviços de Peixoto via Rui Mão de Ferro, o mesmo arguido que tratou do contrato com Domingos Farinho. Mas, no final de 2012, achou por bem transferir o contrato para o nome do filho. Para tal, solicitou a Mão de Ferro que os recibos verdes fossem emitidos em nome de António Mega Peixoto (atual assessor do presidente da Câmara de Lisboa).

Recentemente ouvidos pela equipa da Operação Marquês, pai e filho meteram os pés pelas mãos. Enquanto Mega Peixoto assegurou não conhecer Santos Silva nem Mão de Ferro e ter sido remunerado por prestação de serviços ao Grupo Lena, não sabendo contudo indicar qual a sede da sociedade, o pai sustentou que a avença lhe era paga pela empresa de Mão de Ferro, sócio de Santos Silva.

‘Apanhar’ Rodrigues dos Santos

Desde que saiu do Governo até ser detido, Sócrates recorreu permanentemente a António Peixoto como seu conselheiro político. Era este que lhe recolhia material para utilizar no seu espaço televisivo de opinião. 

Indisposto com José Rodrigues dos Santos por lhe ter feito perguntas embaraçosas, Sócrates pediu uma vez a Peixoto, a 3 de abril de 2014, para lhe arranjar «qualquer coisa para apanhar» o jornalista da RTP. O interlocutor apenas lhe disse que possuía vídeos de entrevistas de Rodrigues dos Santos aos sociais-democratas Passos Coelho e Morais Sarmento, que «não tinham nada a ver» com a forma como o jornalista questionara Sócrates.

Noutras ocasiões, Sócrates transmitia com franqueza as suas opiniões a Peixoto. Quando foi anunciado que António Barreto saíra da Fundação Francisco Manuel dos Santos, financiada pelos proprietários do Pingo Doce, Sócrates disse ao outro que «o caniche se zangou com o patrão».

Por várias vezes, Peixoto pediu ao seu financiador orientações políticas para o blogue. A 16 de setembro de 2013, Sócrates respondeu-lhe «que aquilo está muito bem». O outro explicou-lhe que estava «a dar um bocadinho de folga nas áreas próximas do Bloco», mas não sabia se fazia bem, ao que recebeu a total concordância do interlocutor. No mês seguinte, acertaram entre ambos que João Constâncio, filho de Vítor Constâncio, iria começar a colaborar também no Câmara Corporativa. Amigo de Sócrates, João Constâncio fora convidado nessa altura por Sócrates para ficar instalado no apartamento de Paris. Constâncio chegou de facto a escrever para o blogue, sob pseudónimo, segundo julga saber o MP.

Apoio a Guterres, ‘só para chatear’

Sócrates foi também trocando opiniões sobre o Câmara Corporativa com o seu antigo secretário de Estado Filipe Boa Batista, que mantinha uma ligação permanente a Peixoto. 

A 7 de março de 2014, Batista perguntou a Sócrates, sobre o blogue, se «aquilo é para continuar», tendo recebido resposta afirmativa. A 22 de abril, o outro insistiu sobre se «aquilo do nosso amigo é para continuar, que ele está um bocado à rasca». Sócrates reiterou que sim e esclareceu que já falara com Peixoto. O ex-secretário de Estado sugeriu então que se juntassem, pois o blogue merecia que pensassem «um bocado naquilo». Depois de Sócrates concordar, Batista falou em «fixar uns objetivos, umas temáticas». Os investigadores baseiam-se nestas conversas para tentarem provar que Sócrates era o verdadeiro dono do blogue - e, portanto, responsável pelo seu financiamento, com dinheiro que lhe pertencia mas que estava em contas bancárias tituladas por Santos Silva.

Sócrates usava o Câmara Corporativa também para interferir na vida política interna do PS. Quando se discutia que candidato os socialistas deviam apresentar às eleições presidenciais, Peixoto disse ao ‘patrão’, a 14 de maio de 2014, que não sabia se devia falar de António Guterres, ao que Sócrates respondeu que sim, que o outro podia escrever que «os socratistas apoiam Guterres, só para chatear».

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