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O comícioda Alameda feito em aliançacom a Igreja para combater o PCP

O comícioda Alameda feito em aliançacom a Igreja para combater o PCP

Ana Sá Lopes 07/01/2017 18:14

«Paranóicos», «dementes»,  «irresponsáveis que não representam o povo português». No comício da Fonte Luminosa, Soares colocou o PS como a maior força anti-PCP daquele tempo.

Foi a 19 de julho de 1975, um sábado. Estávamos no verão quente. A temperatura política já tinha começado na primavera, depois do 11 de março, quando o PCP começou a aumentar a sua influência social. O primeiro-ministro era Vasco Gonçalves, que chefiava o seu quarto Governo provisório. Os ministros do PS tinham abandonado o Governo nove dias antes. No quinto Governo de Vasco Gonçalves, que tomou posse em agosto de 1975, o PS já não participou. 

O comício da Alameda Afonso Henriques – ou da Fonte Luminosa, que fica no mesmo sítio, como também ficou conhecido – foi um marco na revolução e um dos episódios mais simbólicos do combate ao PCP feito pelo PS. Mário Soares conspirou com a Igreja, grande opositora do avanço comunista, para fazer do comício da Alameda uma das maiores manifestações da revolução. Nas missas, os párocos de Lisboa fizeram apelos à participação dos católicos na manifestação do PS. As relações de Soares com a Igreja foram especialmente próximas neste período, apesar do ateísmo confesso do secretário-geral do PS. Além de saber que seria impensável repetir os erros da I República – que hostilizou a Igreja Católica – Soares sabia que a Igreja seria uma poderosa aliada para o seu grande combate: evitar a criação de «uma Cuba europeia». 

O organizador do comício foi António Guterres, agora eleito secretário-geral das Nações Unidas que, naquele tempo, era o homem da organização do PS. Foram vários os oradores, todos dirigentes socialistas. Falaram o líder parlamentar socialista António Lopes Cardoso (falecido em 2000), os deputados Luís Filipe Madeira (pai da ex-deputada socialista Jamila Madeira), Alfredo Carvalho, Marcelo Curto (falecido em 2001). 

Salgado Zenha (falecido em 1993), que era o número 2 do PS e ministro da Justiça, já demissionário, foi o penúltimo orador. Mário Soares foi o último a falar, já passava das 10 da noite. 

O discurso é de uma violência extrema contra o PCP e contra Vasco Gonçalves. Soares exige a demissão do general e ameaça que «o PS pode paralisar o país». Acusa o PCP – «esses irresponsáveis» – de ter criado «uma campanha alarmista sem precedentes» para travar a manifestação da Alameda, com barricadas a tentar impedir a chegada de manifestantes a Lisboa. Chama-lhes mesmo «paranóicos» e «dementados». «É uma cúpula de paranóicos a direção do PCP», diz Mário Soares, acusando também os dirigentes da CGTP-Intersindical de serem «uma cúpula de irresponsáveis que não representam o povo português».

No entanto, Soares faz questão de explicar que o programa do PS não era ilegalizar o PCP. «Dizemos que a reação não passará, mas dizemos também que a social-reação não passará. Temos dito, e prova-se na prática da nossa ação política quotidiana, que nós não somos anticomunistas. Quem está a provocar o anticomunismo, como nem Caetano nem Salazar foram capazes de provocar é a cúpula reacionária do PCP».

Apesar das críticas que lhe fez ao longo dos anos, a direita não esquece o comício da Alameda.ayout=

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