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Maria de Oliveira Dias. “Deixámos de pensar em alimentos para pensar em nutrientes”

Maria de Oliveira Dias. “Deixámos de pensar em alimentos para pensar em nutrientes”

João Porfírio Marta Cerqueira 07/12/2016 17:14

Vegetariana desde criança e vegan há muitos anos, Maria de Oliveira Dias lança livro que põe fim aos mitos em torno de uma vida saudável 

Quando percebeu que os animais da quinta da avó com os quais brincava acabavam por lhe calhar no prato, concluiu que comer carne não seria opção. Aos 12 anos, Maria de Oliveira Dias descobriu a palavra “vegetariano” e percebeu que havia um nome para aquilo que defendia há anos. Além da carne e do peixe, passou a banir também os derivados e é sem ovos, manteiga e leite que faz os doces da “The Love Food” – o blogue que passou a empresa de catering, de workshops e de venda de produtos saudáveis. Tudo o que aprendeu sobre o veganismo está no livro “Os Básicos da Cozinha Vegan”, onde acaba com mitos, conjuga receitas e dá dicas para uma transição pacífica para uma vida que acredita poder ser sempre melhor.

De onde surgiu essa consciência de proteção animal?

Viver no campo foi fundamental. Saber que o que me ia para o prato era a galinha ou a cabra com que tinha estado a brincar há uns dias fez-me tomar consciência daquilo que queria e não queria comer. Aos quatro anos percebi que a porca Margarida da minha avó acabou no tacho e nunca mais tive uma relação pacífica com a carne.

Mas aos quatro anos já havia consciência do que era ser vegetariano?

Claro que não, mas a verdade é que, para eu comer carne ou peixe, a minha mãe tinha que a esconder em bolonhesas ou bacalhau à Brás. Se visse nervos, olhos, espinhas ou sangue, já não conseguia. Saber que havia um animal por detrás daquela comida era horrível.

E aos 12 anos tornou-se vegetariana.

Sim. Eu nem sabia o que isso era até a minha prima rebelde dizer que ia ser vegetariana. Apercebi-me de que eu já o era, foi só preciso comunicar à família e passar à prática. Durante um ano, a minha mãe ainda me forçava a comer, mas eu dava tudo às escondidas ao meu cão. Depois de um ano, a minha mãe percebeu que não era uma mania e passou a cozinhar mais a pensar em mim.

Passou a comer melhor?

Nem por isso, alimentava-me muito mal, principalmente quando vivi sozinha em Paris, onde baseava o meu dia em alface, queijo e vinho tinto. Aliás, antes de me tornar vegan, não tinha a mínima preocupação com a saúde. Desde que não fosse carne nem peixe, comia tudo.

É um mito achar que a comida vegetariana é mais saudável?

Completamente. Agora vive-se uma altura de extremos, há a vertente dos superalimentos, dos que comem como se estivessem em Bali. Depois há outra corrente, a dos sumos verdes, que junta uma imensidão de frutas e legumes. E depois há a vertente low carb, quase sem hidratos. Deixámos de pensar em alimentos para pensar em nutrientes.

O que lhe trouxe de novo o veganismo?

Toda uma nova perspetiva sobre a importância de comer coisas da época, por exemplo, e de não sobrecarregar o organismo com coisas desnecessárias. O corpo até deve ficar baralhado com a quantidade de comida que normalmente lhe damos. 

E como foi essa transição? 

Supernatural. Depois de perceber a forma como as vacas e as galinhas são mantidas para darem leite e ovos, bani os derivados da minha alimentação.

Como fez a substituição dos alimentos de origem animal?

Não fiz, não há necessidade de substituir. Quase não como soja nem tofu, mas nos meus pratos não faltam legumes, cereais, hidratos e leguminosas.

E quando come fora, quais são as limitações?

Há cada vez mais escolha, mas quando vou a restaurantes normais acabo por comer os acompanhamentos. Já cheguei a um restaurante de uma terra pequena, expliquei que não comia nem carne nem peixe nem derivados, e a senhora, a querer ser muito simpática, trouxe-me uma travessa com uma camada de alface, tomate e cebola. E por cima uma mistura de esparguete, batatas fritas e arroz. [risos]

Ainda há muitos mitos à volta do veganismo?

Sim, e mantêm-se os mesmos desde que me tornei vegan. Acham que é muito caro, quando só uso produtos da época, cozo as minhas leguminosas e como cereais integrais, que saciam muito mais. Outra das coisas de que me falam sempre é da falta de nutrientes, mas a verdade é que nunca tive de tomar suplementos e o meu filho, com um ano e meio, pesa 15 quilos.

A família também entrou na onda vegan?
Sim. O meu namorado não era, mas acabou por se converter, e o meu filho nunca comeu nada de origem animal. Quando o pediatra me aconselhou a introduzir papas, percebi que o primeiro ingrediente das que se vendem no supermercado é açúcar. Recusei-me a isso e desde sempre que sou eu a fazer as papas e as sopas. Até os três cães lá de casa só comem comida feita por mim ou ração vegan.

E como é que o veganismo passou a negócio?
Sempre gostei de cozinhar e apurei o olfato a cozinhar carne e peixe para os amigos sem provar os cozinhados. Comecei a pesquisar, a experimentar, a estudar, e reuni condições para ensinar aos outros aquilo que se tornou uma base para mim: uma alimentação integrada, orgânica e saudável. Fiz um blogue – o “The Love Food” – que mais tarde passou a fábrica de produtos sem corantes, nem conservantes, nem farinhas ou açúcares refinados.

E agora o livro.

Sim. Além dos workshops que organizo, esta é outra forma de chegar às pessoas. Além de receitas e dicas, quero acabar com os mitos à volta do veganismo e explicar que a transição é muito mais fácil do que as pessoas imaginam.

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