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José Maria Tallon. “Todos os livros sobre as dietas são uma mentira”

José Maria Tallon. “Todos os livros sobre as dietas são uma mentira”

Marta F. Reis 03/06/2016 19:01

Era o miúdo gordo da escola e acredita que isso o ajuda a ter empatia com os doentes. Tallon chegou há 30 anos a Portugal

É conhecido como o médico dos gordos e dos famosos, o mais recente Bruno de Carvalho. José Maria Tallon faz 30 anos de carreira e recebe-nos no seu apartamento num 12.º andar no Campo Grande. Aos 57 anos, fala com entusiasmo do doutoramento, com o qual espera começar a pôr fim à epidemia da obesidade, e percorre episódios de uma vida irrequieta. Tirou oftalmologia e psicologia. Estudou nutrição e antienvelhecimento e anda a tomar suplementos que lhe dão energia. Fala das cinco mulheres e dos filhos. Mas a história mais marcante é uma experiência de quase morte. Nunca mais foi o mesmo.

Como era o menino José Maria?

Traquina, irrequieto e sonhador. Sou de uma aldeia pequena de Granada, Algarinejo. Fiz lá a primária até aos dez anos, na altura o ensino obrigatório. Aos dez, ia-se trabalhar ou continuava-se os estudos.

Os pais quiseram que fosse estudar?

Tinham essa possibilidade e mandaram-me para um colégio interno de padres em Granada. O meu irmão, ano e meio mais velho, já andava lá. 

Eram só rapazes?

Claro. Havia um colégio ao lado de raparigas e vê-las ao longe, ou melhor, intuir as raparigas era uma coisa incrível. Fechávamos os olhos e imaginávamos que estávam a mudar de roupa. Foi uma época fantástica , como a infância costuma ser. Mas tinha claro na minha cabeça que tinha dois caminhos, semear batatas, com todo o respeito por quem o faz, ou estudar.

O que faziam os pais?

A minha mãe era farmacêutica e o meu pai era industrial.

A sua mãe já tinha estudado.

Sim. A minha mãe foi sempre uma pessoa muito científica, à frente do seu tempo. Queria medicina mas os pais disseram-lhe que era de mais. Farmácia vá lá… mas medicina nem pensar. Imaginem se a chamavam a meio da noite para socorrer alguém no campo, uma mulher não podia. 

No liceu já queria ser médico? 

Soube que queria ser médico aos quatro anos. Costumávamos brincar na farmácia. A maioria das pessoas da terra não sabia ler e a minha mãe fazia manipulados e punha os medicamentos em caixas com símbolos. Uma vez quando ela estava a fazer aquilo disse-lhe que não queria ser farmacêutico. Não queria fazer as coisas como ela, queria ser médico para mandar fazer.

E ela?

Achou que era uma coisa de criança. Mas a ideia manteve-se. Nas férias de verão ia com os médicos fazer consultas. A relação com ela era muito próxima. Na aldeia havia o padre, o sargento e o médico. 

Mas queria medicina familiar?

A minha primeira ideia era o médico de aldeia, que resolve os problemas sejam eles quais forem. Fiz a chamada medicina à periferia e adorei. Houve uma época em que quis ser cirurgião cardíaco, mas as facas não eram comigo. Sou mais clínico, gosto de investigar. Entendo que a cirurgia, e ainda bem que existe porque resolve problemas, é o fracasso da medicina. 

Voltando à juventude no colégio, era só estudar ou faziam muitos disparates?

Todos. Quando se vai para um colégio interno com dez anos e se passa semana e meia dentro de quatro paredes só se faz disparates. A primeira coisa foi arranjar uma chave do refeitório dos padres, para nos irmos abastecer à noite. Havia uns bolos fantásticos que só os padres tinham. Íamos lá tirá-los e, às vezes, um pouco de vinho. 

Batiam-vos quando se portavam mal?

Nunca. A imagem que tenho era de ser um colégio religioso mas progressista. Aprendíamos o hino da Andaluzia, o que na altura era controverso, e a dar valor ao que tínhamos. Havia um forte compromisso social que me ficou marcado. 

Cresceu com uma educação católica. É crente?

Sim, sempre fui. Sou de uma família católica pouco praticante, como são a maioria. Há quem tenha problemas em chegar ao céu e a Deus pela lógica. Se formos por aí é complicado. Sou muito pragmático. Basta-me numa noite de verão olhar para o céu e para as estrelas e pensar que, quem as pôs ali, sabia o que fazia. Sou mau praticante, mas tenho a sorte de ter fé.

Aumentou ao longo da vida?

Tem tendência a aumentar com a idade. Nunca tive dúvidas de que havia um deus, uma vida depois. Mas há um episódio na minha vida particularmente importante. Aos 26 anos tive um acidente de carro e passei por aquilo a que se chama uma experiência de pós-morte.

Como descrevem os livros?

Sim, senti-o e cada vez que penso nisso consigo recordá-lo exatamente como aconteceu naquele dia.

Como foi o acidente?

Estávamos em Itália na berma da estrada e um camião atirou o nosso carro para uma ribanceira. Fiquei num coma profundo, 15 dias ligado às máquinas. Foi logo no momento do acidente. Saí do meu corpo e estava a ver o carro destruído. Lá dentro vi uma senhora, que reconheci como a minha mulher, a sangrar do ouvido direito. Ao lado estava um homem que não reconheci e demorei tempo a perceber que era eu. Não estamos preparados para nos ver de fora. De repente tive a sensação de que uma corrente de ar me arrastava, tentei agarrar-me ao carro mas não conseguia, a minha mão atravessava-o. Fui sendo levado para um buraco escuro, uma espécie de túnel. 

O que sentia?

Muito medo e fui tentando resistir. Começo depois a ver ao fundo uma luz, como quando alguém está a soldar ferro. Uma luz brilhante, intensa e que me fez olhar para ela. A partir do momento em que vi a luz e comecei aproximar-me fui ficando mais calmo. E nesse trajeto comecei a reviver alguns momentos da minha vida. Não era ver o filme da minha vida, era reviver momentos, uns rápidos e outros lentos.

Que momentos?

O momento melhor foi ter participado num grupo, depois do primeiro ano de medicina, para ensinar pessoas a ler e a escrever. Nunca pensei que isso tivesse qualquer mérito: inscrevi-me porque gostava de uma miúda que lá andava, não por altruísmo. Revivi estar com aquelas pessoas a dizerem-me que agora já podiam escrever aos filhos a dizer o que sentiam, a lembrarem que quando tinham de pedir a alguém não tinham coragem de expressar os sentimentos. No momento em que revivi isto tive uma sensação de felicidade enorme e algum prazer físico, como a satisfação que se tem quando se come um prato de que se gosta. 

E o pior?

A pior coisa aconteceu por volta dos meus quatro anos. Eu era muito comilão. Um dia estávamos na escola, tirei um pudim flan a um colega e comi-o. Não me lembrava disto mas neste sonho ou experiência - chame-se o que se quiser - estava a comer o pudim e o Agustin estava a olhar para mim a chorar. Senti-me mal, não só tristeza mas dor física, um mal estar. Depois de reviver momentos bons e maus chego a uma espécie de sala onde me sinto acompanhado e que posso decidir se continuo ou volto para trás. Estou tão bem que decido ficar. Lembro-me depois de sentir que a minha hora não tinha chegado e vejo-me no carro, com um polícia ao lado. Sei que acordei e disse que a minha mulher tinha uma hemorragia, o homem responde que sou eu que tenho. E aí apaguei-me e fiquei em coma. Fui para o hospital e felizmente safei-me. Escusado será dizer que a primeira coisa que fiz quando recuperei foi ligar ao Agustin. 

E ele?

Não nos víamos há uns 10 anos. Disse-lhe que tinha tido um sonho - eu próprio não tinha noção se não tinha passado disso. Perguntei-lhe se alguma vez lhe tinha roubado bolachas ou um doce e ele disse que tinha sido um pudim. Tinha acabado de comer o meu e usado a minha força para lhe tirar o dele. Disse-me que foi algo que o marcou, era meu amigo e ficou triste. 

E não se lembra disso?

Não, a única memória que tenho é desta minha vivência. Claro que pedi que me perdoasse, disse que não tinha tido consciência. É curioso que ele disse que na altura tinha percebido, pela minha cara, que eu nem o estava a ver chorar. O que me deixou uma lição muito importante: temos de pensar as nossas ações muito bem, às vezes podemos dar alegrias muito grandes com coisas pequenas e outras vezes podemos magoar muito com falta de tato, com a nossa desatenção. 

Já era médico na altura. Ficou surpreendido com a experiência? 

Tinha lido alguma coisa mas achei que não passava de uma mentira. Quando despertei do coma falei com o diretor de serviço e ele já tinha ouvido uns 20 relatos. Se eu tinha alguma dúvida sobre o futuro, desapareceu. Foi uma coisa que me mudou a minha vida.

Tem sido um homem de muitos amores. Qual foi a sua primeira paixão?

A minha primeira mulher Carmen. 

Era espanhola.

Sim, a única espanhola. Apaixonei-me por ela quando eu tinha 18 e ela 15. Separámo-nos, voltámo-nos a juntar e casámos. E depois divorciámo-nos. Tivemos dois filhos.

Estiveram quanto tempo casados?

No total foram dez anos de relação. Normalmente as minhas relações duram dez anos, o que não é assim tão grave.

Quando começa, acredita que é para sempre?

Sim. Sempre que me juntei com alguém a sério estava convencido de que era para toda a vida, se não não o fazia. Quando não é, tudo bem na mesma, não desisto. Depois da Carmen veio a Catarina, depois a Sofia, depois a Raquel um período mais curto e depois a Ana. Fazemos quatro anos.

Ainda têm seis.

E espero que mais, porque os anos vão passando... mas estou feliz. Vai perguntar: mais feliz do que estive com as outras? Não percebo as pessoas que dizem “esta é que é a mulher da minha vida”. Para mim todas foram a mulher da minha vida.

Mesmo a Catarina? A vossa relação teve um desfecho conturbado na imprensa.

Tivemos uma relação fantástica.

Acusou-o de maus tratos.

Isso aconteceu depois do divórcio. Quando uma pessoa se divorcia dizem-se e fazem-se asneiras, a raiva fala mais alto. Tive uma relação fantástica com a Catarina e continuo a ter. Temos três filhos e festejamos os aniversários sempre juntos.

Nunca houve violência?

Nunca.

E não ficou magoado por ela o vir dizer no espaço público?

Acho que todos dizemos coisas de que nos podemos arrepender mais tarde. Ter três filhos com esta mulher fala muito mais alto do qualquer coisa que possa ter sentido. Mantenho carinho por todas as minhas ex-mulheres.

Tem sido muito procurado pelas mulheres, dentro e fora das consultas?

Sou latino, não o escondo. Que homem não gosta de sentir que uma mulher gosta dele? Não me chateia e tenho de preparar-me psicologicamente para que, com o passar dos anos, só me procurem profissionalmente. 

O despertar da sexualidade como foi, até estando no colégio?

Bom, havia as revistas que os externos traziam e nós escondíamos. E os padres, quando as apanhavam, diziam sempre que são uma porcaria mas lá iam folheando. Mas foi tudo normal, na adolescência. 

Não foi com uma mulher mais velha? Na altura era mais habitual...

Habitual seria… Tinha colegas que diziam que um tio, geralmente um irmão do pai, os tinha levado às meninas. No meu caso o meu pai, com a moral que tinha, seria impossível pedir isso ao irmão. 

Sai ao pai?

O meu pai teve um casamento longo até que a minha mãe faleceu. Nesse sentido o meu irmão sai mais ao meu pai, tem um casamento longo, vai fazer 40 anos em setembro que está casado. Eu nem somando todos os meus casamentos. 

O que dizia o seu pai da sua instabilidade amorosa?

O meu pai era um filósofo da vida, ensinou-me muito. Quando íamos aos domingos à praia os empregados da farmácia e da loja dele vinham sempre, faziam parte da família. Achava que uma relação devia durar enquanto os dois estivessem bem. Claro que teria ficado muito feliz se eu tivesse acertado à primeira, mas não aconteceu e apoiou-me. 

Foi a maior perda, o seu pai?

A primeira grande perda foi a minha mãe, mas eu era tão jovem que ao início não quis pensar nisso. Tinha 30 anos, não estava psicologicamente preparado e demorei uns quatro ou cinco anos até fazer o luto. Estive anos sem ter fotografias da minha mãe em casa.

Foi de repente?

Sim. Tinha 59 anos e teve morte súbita. Levantou-se e caiu morta. Tinha dito que se queria reformar aos 60 anos para viver a vida ainda jovem e morreu um mês antes, o que também foi uma lição importante na minha vida. Não deixar nada para amanhã. O meu pai morreu com 84 anos e sabíamos que o fim estava próximo. Foram ambos perdas enormes.

O pai morreu quando?

Vai fazer cinco anos. Eu nunca passei um dia da minha vida sem, à meia-noite em ponto, uma hora em Espanha, ligar ao meu pai. Era a hora a que ele se deitava. Estivesse onde estivesse ligava. Se tinha uma viagem de avião, ligava antes e depois mandava mensagem.

Como foi a primeira noite sem ligar?

Doloroso. Fiz uma viagem a Barcelona passado duas semanas e, quando aterrei, dei comigo a pegar no telefone e a ligar, tal era a força do hábito. Aconselhava-me com ele para tudo.

Como se passa de lições de modéstia e querer ser médico da aldeia para ser um médico dos ricos e ter esta casa?

Errado. Eu continuo a ser o médico da aldeia.

Ninguém vai acreditar.

Tanto faz. Quando se chega a certa altura na vida é indiferente o que os outros pensam. Fiz consulta à periferia e hoje tenho uma percentagem de pessoas de classe social baixa maior do que muitos outros médicos. A nossa consulta é transversal. 

Faz consultas de borla?

Quem não pode pagar não paga. Em cada 100 consultas, cinco são para pessoas que não podem pagar. Óbvio que se alguém quer perder dois quilos, mando-o dar uma volta. Mas alguém que tenha problemas de saúde por causa do peso e não possa pagar, atendemos. E normalmente falo com a farmácia para dispensarem os medicamentos. Se tem o filho a estudar no privado, se anda sempre a mudar de carro… aí são opções. Filtramos, respondemos, pedimos comprovativo se achamos que é caso disso e recebemos as pessoas. E são tratados com o mesmo tempo e a mesma atenção que os outros. Com o mesmo carinho ou mais. É nesse sentido que continuo a ser o médico da aldeia. No dia em que deixar de o ser, deixo de trabalhar.

Enriqueceu graças ao seu percurso na medicina?

Sim, mas a vida que levo é de muito estudo, trabalho e sacrifício. Quando estava a tirar medicina trabalhava à noite nos caminhos-de-ferro. O meu pai tinha dinheiro para pagar-me os estudos, até porque a faculdade era pública. Entendi que era altura de ganhar o meu dinheiro. 

Saía das aulas e ia fazer o quê?

Comecei por descarregar comboios e acabei como chefe de estação. O trabalho físico, a partir as costas, durou seis meses. Depois comecei a dar sugestões de como organizar as coisas de forma mais eficaz e passei a ter um trabalho mais administrativo. Quando vim para Portugal a consulta também não correu logo bem, demorou algum tempo.

Por que veio para Portugal?

Vim fazer a especialidade de oftalmologia.

Que desvio de percurso foi esse?

Tinha tirado medicina e nutrição em Espanha. Eu e o meu irmão tivemos sempre uma série de negócios e decidimos montar uns centros médicos para renovar as cartas de condução, uma coisa que existe em todo o mundo, exceto Portugal. Em Espanha é obrigatório desde 1982 os exames serem feitos em centros independentes com clínico geral, oftalmologista e psicólogo. Comecei a trabalhar num, vimos que era interessante e montámos mais quatro. A certa altura percebemos que os oftalmologistas ficavam com uma parte substancial do nosso orçamento. Então eu disse: não se pensa mais nisso, vou tirar oftalmologia e faço essa parte. 

Mas porquê Portugal?

Porque arranjei vaga para fazer oftalmologia. Quando me dá a ideia tenho de fazer as coisas depressa.

Em Espanha não havia vagas?

Havia mas só no ano seguinte. Não queria no ano seguinte, queria ontem. Candidatei-me para Portugal e Itália. Foram os primeiros a responder-me.

Veio para onde?

Santa Maria. Um hospital fantástico. Enquanto fazia a especialidade de quatro anos decidi abrir a minha consulta de nutrição e emagrecimento para ganhar dinheiro para me manter cá. 

Não se falava de nutrição nos anos 80?

Nada. E só vinham à consulta pessoas enormes porque o médico lhes tinha dito que eram hipertensas e iam morrer. 

Era onde o consultório?

Na Avenida da Liberdade, em cima do restaurante Ribadouro. Alugava duas horas, duas tardes por semana, também não tinha mais gente. Chegou a sobrar uma hora e cinquenta. Mas depois lá começaram a vir algumas pessoas, algumas conhecidas.

Que famoso lhe abriu mais portas?

Começou a haver um zunzum de que aquele fulano emagrecia as pessoas, com uns comprimidos feitos à medida de cada um e até se pode comer algumas coisas. Só aí aparece o interesse das revistas. Possivelmente um dos primeiros a falar de mim foi o Abel Dias, na “Nova Gente”. Fazia uma crónica que assinava como Daniela. Falou ele porque veio à consulta e perdeu peso. Depois as pessoas começaram a falar de mim nas entrevistas que davam. A Margarida Prieto, por exemplo. O testemunho de centenas e milhares de doentes fez a coisa disparar. E dispara porque funciona, não dá problemas e porque dou carinho às pessoas. Ao início vinham à consulta e não falavam, sentiam-se mal, estavam à espera que eu as repreendesse. Eu digo sempre: não estou cá para o castigar, estou cá para ajudar. 

Explique o método Tallon.

Carinho, paciência para ouvir mais que falar. E, óbvio, saber de medicina. Se não souber o que prescrever, por muita atenção e carinho que dê não funciona.

Que comprimidos prescreve?

Há 3000 variedades.

Homeopatia?

Não, são manipulados, misturo plantas com medicamentos químicos quando necessário. Os doentes vão aviá-los à farmácia.

Mas o que determina a medicação?

É preciso conhecer a pessoa e perceber o que lhe falta ou sobra. Se o motivo é depressão, se é fome, se é o filho que chumbou o ano. Percebido isso, é preciso saber como estimular a pessoa a mudar de hábitos e que medicamento, planta ou químico, vai ajudar. 

Começa por ser trabalho de psicólogo.

E sou psicólogo, licenciei-me em psicologia. Sim, diria que 70% é trabalho de psicólogo. Mas se fosse só psicólogo e não fosse médico não podia usar medicamentos. 

Nunca mais quis saber da oftalmologia?

Não tive tempo. Sempre pensei acabar oftalmologia e regressar a Espanha mas entretanto a consulta cresceu e comecei a pensar: vou voltar para trabalhar para outros ou fico cá a trabalhar para mim? Fixei uma quantia, que não vou dizer. No dia em que chegasse a hora de decidir, se tivesse esse número, ficava. Se faltasse um cêntimo, ia. Ultrapassou. Sendo sincero, fiquei pensando que podia ser uma moda. Sou muito inquieto mas quando faço as coisas faço com gosto. Gosto da nutrição porque tem uma maior componente de relação humana. Fiz mestrado, estou a terminar o doutoramento.

É sobre o quê?

É um programa educativo para os adolescentes. Quero encontrar um caminho para poderem controlar o que comem. Vamos ter uma aplicação para telemóvel, Obesidata, que vai permitir interagir e dar e informação. E depois há um trabalho químico e biológico em que o objetivo é perceber, do ponto de vista genético, porque é que umas pessoas têm tendência para engordar e outras não.

Ainda não se sabe?

Não. Estou seguro que o caminho para combater a obesidade está nos genes. É claramente familiar, a própria gordura é distribuída com um morfotipo familiar. Tenho um amigo comandante da TAP, o Mário, que mede 1,75 m e pesa 68 quilos. Nunca conheci ninguém que coma mais do que ele. Só engorda quem tem tendência genética para engordar.

Tem tendência para engordar?

Alguma. Era o gordo da escola. Aos dez anos dei um salto e depois na faculdade voltei a engordar. Acho que isso faz com que perceba as pessoas, vem daí um bocado a razão do carinho com que as recebo.

Hoje tem cuidado?

Sim, dou 10 mil passos por dia, faço todos os dias de manhã abdominais, pesos e flexões. Em casa, não tenho paciência para ir ao ginásio. 

Faz quantos abdominais?

Trezentos. Bom, 300 falsos, não sou o Cristiano Ronaldo. Faço três séries de 100, depois faço 25 flexões contra o lavatório, para fortalecer os músculos intervertebrais e levanto pesos de 5 kg.

Tem ar de bom vivant. E a comida?

Sou muito bom vivant. Neste momento, em que não estou a tentar perder peso, os meus almoços são normais mas ao jantar é sempre sopa ou salada e os pequenos-almoços é fruta, iogurte e queijo fresco. Gelatinas a meio da manhã e da tarde. Peso menos três quilos do que quando me casei pela primeira vez aos 26 anos.

Quanto pesa?

79kg. Não é fácil. Sinto-me perfeito como estou. Não quero perder mais mas dá-me algum trabalho estar assim.

Mas não come tapas?

Claro, mais quando vou a Espanha. Mas quando tapeamos não jantamos. Não se pode petiscar e depois enfiar um bife.

É um problema dos portugueses?

Acho que o problema dos portugueses chama-se falta de tempo e comer muito fora de casa. É tudo a correr.

Não falamos demasiado sobre comida?

Acho que não é por aí. É preciso aumentar o conhecimento e nisso espero que a aplicação seja útil. As pessoas ainda têm a ideia de que comer um pão com manteiga não é jantar. Um pão com manteiga tem 450 kcal; Cem gramas de carne de porco têm 160 kcal. E quem come o bife com salada jantou e quem come o pão não. Quem come uma tosta mista com 800 kcal não jantou, diz que não comeu nada quando a necessidade diária são 1200 kcal. 

O Estado podia fazer mais? Agora o SNS vai deixar de ter doces nas máquinas. 

Tem de haver um programa integrado e espero oferecer a aplicação através do ministério da Educação. Sem mais conhecimentos a reação é “filho da mãe, porque tiras isto? Ai é, então vou comprar ali ao lado.” A minha tese de mestrado foi sobre como ensinar nutrição e a conclusão a que cheguei é que os miúdos só estão disponíveis a auto-aprender. Com a aplicação a pessoa vai poder estar no café e saber qual é a melhor opção e, mais importante, vai poder saber como compensar as asneiras. A ideia não é deixar de comer o que se gosta, é saber compensar. Se as pessoas deixam de comer o que gostam, resolvemos a obesidade e o consumo de Prozac aumenta 400%.

Todos os dias saem livros sobre dietas. 

São todos mentira. A única dieta que funciona é mudar os hábitos de vida, fazer uma alimentação variada. Não há alimentos proibidos. Se corta nas proteínas, há carências. Se corta nos hidratos de carbono, o cérebro deixa de funcionar. 

Como vê esta moda de comer quinoas ou bulgur?

São uma série de superalimentos indicados em pessoas desnutridas. Conheço muito poucas em Portugal.

Não manda os seus doentes comer papas de aveia ao pequeno-almoço?

Não, para quê? A história de comer aveia vem do facto de haver intolerâncias ao trigo e glúten, algumas totais, outras parciais. Se vou buscar uma alternativa que as pessoas comeram menos há menos intolerâncias. Daí as papas. Mas qual é a diferença em termos de calorias das papas de aveia e papas de trigo? Nenhuma. Não entendo estas manias. Bom, entendo como alternativa a quem não tenha capacidade de pensar o que vai comer. Há um livro de sumos detox de uma nutricionista minha amiga, a Lillian Barros. Acho que nenhum sumo desintoxica nada, o nosso fígado é o detox que temos, mas quando me pedem ideias de sumos com poucas calorias sugiro o livro dela.Teve a paciência de descrever 70 ou 80 sumos diferentes. Se são 25 ou 30 gramas de espinafres e se se isso altera os resultados, não. 

Não bebe sumos detox?

Bebo sim… água.

Começa a haver o fenómeno da obsessão com a alimentação saudável. 

Sim, mas diria que continuam a ser uma minoria as pessoas que se preocupam. Hoje temos duas realidades opostas: os gordos-gordos e os figurinos totais. Devia haver um termo intermédio.

Fala com muito entusiasmo. Estando perto dos 60, isso surpreende-o?

Sou médico, gosto de entender a fisiologia humana e gosto de dar ao meu organismo o que entendo que está deficitário. De há quatro anos para cá faço alguns suplementos antienvelhecimento.

Nesta área não há também mitos?

Estou a falar essencialmente de hormonas, o que requer exames. Suplemento as minhas hormonas para as pôr em valores fisiológicos normais, por exemplo a DHA. É um campo recente, comecei a estudá-lo há 12 anos e o resultado é fantástico.

Por exemplo?

Conhece alguém com quase 58 anos que trabalhe cinco ou seis dias por semana, 12 ou 14 horas e chegue bem disposto ao final do dia com vontade de sair para beber um copo? Alguém que vá ao Porto, faz 60 consultas e liga a um amigo para ir jantar? 

Assim de repente Marcelo Rebelo de Sousa. Ele anda a fazer o seu tratamento?

Não posso dizer. Mas é um senhor excecional, acho que terá uma hiperprodução de hormonas. O fato é que eu faço suplementação com hormonas e também incluo resveratrol e melatonina. Sinto-me outro, com uma energia fantástica. Se vou viver mais? Não me interessa mas quero viver bem o tempo que estiver cá. O meu ecocardiograma diz que tenho um coração de 30 anos e não tinha quando comecei.

Não acha que se pode estar a iludir?

Eu posso morrer amanhã. O que faço nada impede que tenha cancro, um enfarte ou que me atropele um carro. Mas o tempo que estiver cá bem quero estar bem, com vontade de viver. Não me tenciono reformar. Quando morrer reformei-me, nem um dia mais cedo.

O que quer muito fazer além dos projetos sobre a obesidade?

Ver os meus filhos crescer, ter netos um dia, o que por este andar está difícil. A minha filha mais velha tem 30 anos. Queria muito ver os meus filhos independentes, o mais novo ainda tem 17 anos. 

Os outros seguiram as pisadas do pai?

Tenho duas em medicina, uma nutrição, um em gestão e outro no liceu, vamos ver.

Influenciou-os muito?

Acho que não persuadi ninguém, as pessoas dizem que sim. Eles veem a paixão com que falo daquilo que faço e sem querer foi uma forma de os persuadir. Mas fico feliz com quaisquer escolhas que façam.

Vem muita gente de fora a sua consulta?

20%.

De onde?

De todos os sítios. A doente mais distante é talvez da Austrália. Fazemos o acompanhamento por videoconferência. A maioria são da Suíça, Paris e Luxemburgo.

Portugueses ou estrangeiros? 

Inicialmente portugueses e depois os colegas de trabalho dos portugueses. Alguém que perde 20 quilos consegue escondê-lo?

E não os recuperam? Há as dietas iôiô.

Não é um problema das dietas, o problema é as pessoas não mudarem hábitos. Se mudam e continuam a ser acompanhadas numa revisão anual ou semestral não aumentam de peso. Ninguém engorda 20kg de um dia para o outro. Se engorda três deve regressar logo. 

Parece simples, mas não é.

É simples, só não é porque as pessoas têm outras prioridades. Emagrecer ou engordar tem muito a ver com a nossa cabeça e com as circunstâncias da vida. 

Já foi chamado por algum político estrangeiro?

Já estive na Arábia Saudita, não digo quando. Já estive no Brasil. 

E por cá?

Cavaco não precisou. E António Costa, digo uma coisa, vai emagrecer com o cargo. Se quiser estou disponível, mas acho que vai emagrecer naturalmente. 

Está a tratar alguém da nossa praça política?

Não posso dizer. Só posso falar de casos tornados públicos pelos próprios.

Bruno de Carvalho e a mulher são os casos mais recentes. Perderam 49 kg.

Ele perdeu 21 ou 22 e a mulher mais.

E agora estão bem?

É sempre uma opção deles mas acho que estão. A pessoa tem de sentir-se bem. Se deixa o emagrecimento antes de chegar onde queria não consegue manter.

As suas mulheres devem sentir-se um pouco constrangidas se engordam.

Todas gostaram de manter a forma enquanto estiveram comigo. Conheci a Ana em consulta quando tinha 15 anos e pesava 85. Hoje pesa 57. A Ana sempre teve muita tendência para engordar e tem cuidado.

É capaz de achar bonita uma mulher com uns quilos a mais?

Não gosto de pessoas muito magras, acho que a mulher tem de ter curvas. Não tenho obsessão por nenhum tipo de magreza, acho até que mais redondinhas ficam mais bonitas. Podia perfeitamente namorar com uma pessoa com mais dez quilos.

Quem tem “o corpo”?

Tenho de dizer a minha mulher, se não ela mata-me. A minha filha Beatriz que tem uma figura fantástica. Mede 1,60m, 51/52 quilos e come o que lhe apetece. Se for por esta área acho que talvez tenha mais dificuldade em perceber o que sentem as pessoas. 

Tem viagens por fazer?

Felizmente a minha vida permitiu-me realizar muitos dos meus sonhos. 

Disse quando cheguei que a vida dá muitas voltas, que não esperava estar aqui.

De todo. Imaginava estar em Granada, ter um Volkswagen Golf GTI.

E tem o quê?

Um Ferrari. Mas seria feliz de muitas maneiras na minha vida. Se estivesse em Granada a fazer medicina familiar seria feliz.

Mas não teria um Ferrari.

Mas estaria feliz com o Golf GTI e um T0 na praia. A vida proporcionou-me ter outras coisas e tenho-as, mas não deixo de olhar para trás e não deixo de considerar-me um homem com sorte. Lutei mas também tive sorte.

É outra lição?

Sorte sem trabalho não leva a nenhum sítio, a menos claro que saia o euromilhões e mesmo assim a alguns não corre bem. Mas nem toda a gente que trabalha tem sorte. Há pessoas que trabalharam mais do que eu e não tiveram. Fico com pena porque há gente que merecia. Adorava que o mundo fosse mais justo, que o ordenado mínimo de miséria duplicasse. Fiquei feliz quando vi que ia subir para 600 euros. Quando vi que ia ser em quatro anos fiquei desiludido.

Não tem o seu dinheiro no Panamá?

Jamais o teria. Tive várias propostas para ter a sociedade no exterior e pagar menos e sempre o neguei. Como sempre me neguei a que o call center da clínica fosse fora.

Era muito mais barato?

Dez vezes mais. Ganho cá o dinheiro, tenho de dar emprego cá e é cá que tem de ficar o dinheiro. O meu Ferrari tem matrícula portuguesa, se fosse espanhol podia ter sido mais barato. Uma das soluções que defendo é que, se há o desemprego que há, vamos redistribuir o trabalho. Trabalhemos quatro dias por semana. Ficaria muito feliz se houvesse coragem política para o aumento de ordenado a sério. Se isso implicasse eu ganhar menos 10%, qual era o problema?

Perdeu dinheiro no BES?

Não, não sou de ações. Sou de trabalhar. Prefiro ter o dinheiro na conta a dar 0,5% a essas aventuras. As minhas aventuras são outras empresas, tenho negócios no setor imobiliário. Não arrisco a investir, arrisco a criar. Construo uma casa: se a vendo antes vendo, se vendo depois vendo. É o meu dinheiro. Mas gosto de fazer.

Como olha para Portugal?

Com preocupação, com tristeza. Nasci em Espanha mas o meu país de coração há muito tempo que é Portugal. Reparei isso no último Europeu, no Portugal-Espanha, fiquei triste quando Portugal perdeu. Foi aí que me apercebi de que tinha virado. Gostava que Portugal fosse um país mais justo e não houvesse tanta impunidade.

Vai ficar em Portugal até ao fim.

Até morrer. Faço férias no Algarve. Quando regresso de Espanha só me sinto em casa quando cruzo a fronteira. Ao princípio era o contrário.

Mas não perde o acento.

É impossível. Burro velho não aprende línguas. O nosso sistema fonológico não tem sons do português e como não aprendi em criança não dá.

A palavra mais bonita?

Saudades. Quando alguém deixa saudades. Não é a palavra, é o que simboliza.

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