23/7/19
 
 
Queridos manos

Queridos manos

Maria Flor Mendonça 26/05/2016 21:49

Que me desculpem pai e mãe, mas são os irmãos que nos moldam, o nosso primeiro público, os primeiros críticos, quem nos incentiva sem segundos sentidos

Eternas correrias, discussões, lutas e disparates: lembro-me de cortar o cabelo a todos os meus irmãos com a primeira tesoura que recebi! Éramos muitos, muito divertidos e tínhamos muita imaginação: ingredientes bem chocalhados e sempre prontos a servir.

As férias grandes, de quatro meses corridos, eram sempre agasalhadas de inúmeros primos, todos a vivermos juntos. Dá para imaginar? Somos 6 irmãos e 53 primos direitos; mas no verão, em crianças, não funcionava esse vínculo de irmãos: éramos 53 irmãos. E foi sempre tão bom! Quando voltava a escola, voltávamos a ser os seis irmãos Sacadura: unidos contra tudo e todos, que nem heróis da Enid Blyton.

A infância escorreu, casei, saí. E mesmo adorando o meu marido, a falta que me fizeram os meus irmãos!... Um riso contínuo, uma responsabilidade irresponsável, um preenchimento vago mas desmesurado no coração, mas também no fígado, nos músculos, na pele... Uma falta palpável e sempre preenchida, porque o corpo formado por nós acaba por se desmembrar na geografia, mas nunca nas memórias.

Que me desculpem pai e mãe, mas são os irmãos que nos moldam, o nosso primeiro público, os primeiros críticos, quem nos incentiva sem segundos sentidos, quem nos emenda sem segundas intenções e sem nos querer magoar, quem nos corrige mesmo sem autoridade.

Começaram por trepar connosco às árvores, por nos ajudar a fazer casas de madeira, misturas de ervas e bagas, coleções de insetos e rabos de lagartixa. Depois ouviram os nossos primeiros sonhos, os nossos primeiros pensamentos incompreensíveis (até para nós). Viram-nos namorar, casar, ter filhos, e já netos.

Os irmãos seguem connosco ao nosso lado sempre, nos momentos altos e nos momentos em que precisamos do colo deles, e eles precisam do nosso ombro. E quando precisam de nós, é a nós que agigantam.

Dizem que os amigos nós escolhemos, mas os irmãos não. Não concordo! Eu só tenho os irmãos que escolheria e de que eu preciso.

Preciso do Pedro, do seu carinho, do seu coração enorme, do seu calor humano incomparável, da sua capacidade de me fazer rir constantemente, do seu poder de diagnóstico médico que ninguém supera e que me ajuda quando estou fisicamente mais abatida ou doente.

Preciso da Isabel, que me apoia sempre mesmo que eu erre, que acha que eu posso fazer sempre mais e melhor do que eu própria acho, cuja alegria de viver e deslumbramento por tudo o que há na vida me aproxima de tudo o que passa por mim e me toca.

Preciso do Zé Miguel, do seu apoio incondicional, da sua disponibilidade, da sua capacidade de estar com cada um de nós como se fôssemos únicos para ele e como se só ele é que pudesse carregar as nossas fraquezas e desânimos, deixando que nele pousemos as nossas tristezas.

Preciso do João Paulo, o nosso irmão mais culto, que nos ensina, nos orienta, e o mais espiritual, ensinando-nos como se é ao mesmo tempo bom pai e boa mãe de dois filhos, depois de enviuvar subitamente, ajudando-nos a percorrer a estrada da vida pelo caminho mais luminoso que poderia haver e que foi ele quem o descobriu para nós.

Preciso do Nuno, meu irmão pequenino que, apesar de ser o mais novo entre nós, é quem nos dá estabilidade e conselhos para que as crises do mundo que passam não nos abatam nunca, e nos coordena entre nós mediando os nossos conflitos e limando todas as nossas arestas, discreto e confiável.

Preciso dos meus irmãos. Acredito que fui eu que os escolhi assim mesmo, tal e qual.

Neste 31 de maio, Dia dos Irmãos, muito obrigado. Obrigado, queridos manos, por tudo o que faz de mim quem sou e por tudo o que de melhor eu gosto de ser.

Advogada

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×