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As 20 loucuras de Marcelo Rebelo de Sousa

As 20 loucuras de Marcelo Rebelo de Sousa

Margarida Davim 27/01/2016 13:20

Irrequieto por natureza, o novo Presidente da República é conhecido entre os amigos pelas suas “marcelices”. Ontem, no primeiro dia depois de ser eleito, fez duas: estacionou num lugar para deficientes e andou sem cinto numa reportagem para a SIC. Mas o seu historial de travessuras é muito longo. O i escolheu 20 das mais divertidas.

A cama da avó Joaquina

Quando resolveu candidatar-se à Assembleia Municipal de Celorico de Basto, Marcelo começou a falar na avó Joaquina para justificar a ligação à terra. Mas a verdade é que o maior contacto que teve com a avó foi em Lisboa, com quem ficou a viver enquanto os pais estavam em Moçambique. Nessa altura divertia-se a pregar partidas à senhora. Uma vez, depois de tremor de terra de 1968, pôs-se debaixo da cama da avó e simulou uma réplica de forma tão real que ela ia saindo para a rua em pânico, ainda em camisa de dormir.

Balsemão lelé da cuca

Tudo começou com um desafio da amiga Margarida Salema, irmã de Helena Roseta, durante um jantar no Pabe. “Não és capaz de dar porrada no Balsemão”, desafia Margarida, contestando a isenção do “Expresso”. Marcelo não resiste e pede aos gráficos para, numa página que já está fechada, encaixarem uma frase que lhes entrega numa folha escrita à mão e onde se lê: “O Balsemão é lelé da cuca.”A frase aparece desgarrada e fora de qualquer contexto a meio de um pequeno texto na “Gente”, a secção satírica do “Expresso”, a 5 de agosto de 1978. Francisco Pinto Balsemão, que estava de férias no Algarve, nem queria acreditar quando leu o jornal. Mal chegou à redação, chamou Marcelo e deu-lhe uma descompostura. Aflito, Rebelo de Sousa desculpou-se como pôde. E anos mais tarde diria que estava só a testar até que ponto a revisão do semanário estava a funcionar bem. A verdade é que Balsemão quase o despediu. Quase, porque nessa altura Marcelo era já demasiado valioso para ser despedido. 

Enforcamento no “Expresso”

Balsemão chamou Marcelo para uma entrevista para o semanário que ia lançar. Estava-se em 1972 e o jovem jurista começava a dar nas vistas. A ideia inicial era que fosse trabalhar para a administração, mas rapidamente os seus talentos o levaram para a redação, onde brilhava verdadeiramente. Nesse dia, Marcelo encenou o seu enforcamento para divertir as secretárias enquanto esperava pelo início da reunião. Dizia que se enforcava se não fosse contratado e pôs um cordão do estore atado ao pescoço para o ilustrar. Quando Balsemão entrou, ainda apanhou Marcelo pendurado e de língua de fora.

Ignorar a censura

Marcelo aproveitou o facto de Francisco Pinto Balsemão estar fora, em Madrid, para praticar uma das maiores irreverências que ficaram com o seu cunho na história do “Expresso”. Rebelo de Sousa resolveu fazer uma primeira página como se já não existisse censura, em maio de 1973. O semanário foi para as bancas com uma “autópsia política do 28 de maio” e uma história sobre um massacre na Guiné, um tema tabu, politicamente muito sensível para a época. A façanha custou caro ao jornal. O “Expresso” passou a ser sujeito a prova de página, o que implicava que a censura tinha de ver todas as páginas já terminadas. Isso atrasava e muito o fecho das edições, com consequências financeiras desastrosas para o jornal de Balsemão.

Receber o embaixador em cuecas

Marcelo estava na sede do PSD, na São Caetano à Lapa, à espera de um embaixador do Irão, quando um acidente fez com que molhasse as calças. Sem tempo para secar a roupa ou arranjar outras calças, José Luís Arnaut ainda se oferece para emprestar as suas ao líder. Só que a diferença de tamanhos torna a troca impossível. A solução é receber o diplomata em cuecas e peúgas, sempre sentado à secretária, com a justificação de que receber os convidados sentado é um costume cultural que não deve ser contrariado. O iraniano passou toda a reunião sem perceber que Marcelo estava, afinal, em trajes menores.

Mergulho no Tejo

Em 1989, Marcelo era famoso entre as elites, mas um quase desconhecido do grande público. Com a tarefa quase impossível de correr contra o então secretário-geral do PS, Jorge Sampaio, para a Câmara de Lisboa, Rebelo de Sousa teve de fazer uma campanha criativa para ganhar notoriedade. Fica para a história das campanhas o seu mergulho no rio Tejo nessas eleições autárquicas. A ideia era chamar a atenção para a poluição do rio de forma suficientemente espetacular e inusitada, para receber a maior atenção possível dos media. Convocados os jornalistas, Marcelo vai até a meio do Tejo num cacilheiro, mas desce para um barco de borracha de onde mergulha. Em ótima forma física, o candidato só temia apanhar alguma doença no mergulho. Mas as coisas iam acabando mal quando foi apanhado por uma corrente forte e quase perdeu os calções brancos às riscas verdes.

Tocar às campainhas com Guterres

Marcelo Rebelo de Sousa e António Guterres conheceram-se através de António Barahona, um colega dos tempos do Liceu Pedro Nunes, quando ambos andavam na faculdade. Alunos brilhantes e católicos fervorosos, Marcelo e Guterres tinham muito em comum e, em conjunto com o padre Vítor Melícias, fundaram o Grupo da Luz – uma associação de jovens católicos – em 1970. Próximos a ponto de Marcelo ser um dos cerca de 20 convidados do casamento de Guterres com Luísa, foram grandes amigos. Mas quando ambos eram já líderes dos seus partidos, o secretário-geral do PS não resistiu a uma ferroada no seu velho companheiro. “Como é que se pode confiar num tipo que, quando saía de minha casa de madrugada, acordava a vizinhança toda tocando-lhes às campainhas?”, perguntou Guterres numa declaração ao “Expresso” que ficaria para sempre colada à imagem de Marcelo.

Hipocondria obsessiva

Permanentemente preocupado com a saúde, Marcelo adora entrar em farmácias para descobrir as últimas novidades em medicamentos. Tanto que, na campanha das presidenciais, fez questão de entrar numa para comprar comprimidos para o estômago, antevendo a azia que Belém lhe pode provocar. Amigo há quase 40 anos de Marcelo, o médico Germano de Sousa conhece bem este lado do seu antigo vizinho. Quando moravam porta com porta, Germano não resistia a provocar o amigo quando o via de manhã, dizendo-lhe que estava com muito má cara. “Era o suficiente para ficar aflito”, conta o antigo bastonário da Ordem dos Médicos, a quem Marcelo pediu conselhos antes de se atirar ao Tejo na campanha para a Câmara de Lisboa, em 1989. “Devia ter tomado uma vacina, mas como só me perguntou na véspera, já não dava tempo de tomar nada.” Rebelo de Sousa ficou aflito com a resposta, mas arriscou. E não consta que tenham ficado sequelas do mergulho.

Irritar a Opus Dei

No verão de 1970, Marcelo Rebelo de Sousa estava a recuperar do desgosto amoroso de acabar o namoro com Teresa Beleza, irmã de Leonor Beleza, quando Mota Amaral o convenceu a participar num retiro da Opus Dei. Não era a primeira vez que a Obra tentava seduzir o jovem Marcelo para aderir à causa. Já antes, Adelino Amaro da Costa tinha feito essa aproximação. As coisas acabaram, porém, por não correr bem. Rebelo de Sousa aceitou ir para o retiro nos arredores de Coimbra, mas não resistiu às rotinas exigentes, que incluíam acordar às seis ou sete da manhã, tomar um banho de água fria e ir em jejum meditar sobre castidade e obediência. Ao fim de alguns dias, Marcelo junta um grupo de amigos – do qual faziam parte Miguel Beleza e Carlos Santos Ferreira – e vão para os copos em Coimbra. A graça correu mal aos jovens, que apanham uma grande repreensão e se afastam da Opus.

A clandestinidade na faculdade

No ano letivo de 1969/70, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu criar “uma corrente estudantil que não fosse maoista nem PCP nem socialista” e surge o MAI (Movimento de Ação Académica). Apesar do nome pomposo, o MAI resumia-se basicamente ao próprio Marcelo e ao colega, dez anos mais velho, Cândido Igrejas Barreiro. Juntos, redigiam comunicados que espalhavam pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, defendendo a democracia e a demissão do ministro da Educação, José Hermano Saraiva. Marcelo diria ao jornalista Vítor Matos, autor da sua biografia, que o movimento deixou a PIDE perplexa por ter “um grau de clandestinidade exemplar”. Mas isso não corresponde à verdade, como o próprio Vítor Matos escreveu no seu livro: a polícia política do regime estava a par de todas as movimentações clandestinas do jovem estudante de Direito, que incluíam escrever artigos à mão e lançá-los dos andares superiores da faculdade para o átrio ou afixá-los nas paredes durante a noite.

Embaixador no futebol

Em pleno PREC, Marcelo estava no Brasil quando foi assistir a um jogo amigável entre a seleção nacional e a seleção canarinha, enquanto vogal da direção da Federação Portuguesa de Futebol. A situação era explosiva: Portugal estava em revolução, o Brasil oprimido por uma ditadura militar. Mas o clima em campo era ainda mais tenso, sobretudo depois de o português Nené se ter lesionado num choque com o guarda-redes brasileiro. José Maria Pedroto quis substituí--lo, mas já tinha feito três substituições e a conversa subiu de tom, com a seleção portuguesa a ameaçar abandonar o campo. No meio da confusão, foi Marcelo quem entrou no relvado do Estádio Serra Dourada de Goiânia e convenceu os jogadores a ficar, lembrando-lhes que, se não o fizessem, perderiam os 30 mil dólares que cabiam à Federação Portuguesa de Futebol. O argumento vingou. Portugal perdeu por2-1. E o presidente do Brasil abandonou o estádio. Mas Marcelo salvou o dia.

A vichyssoise

A vingança, como a vichyssoise, serve-se fria. E foi assim que Paulo Portas a serviu, quando tornou pública a história do que considerou ser uma traição de Marcelo, no “Parabéns”, um programa de Herman José na RTP1 que era, à época, um sucesso de audiências. O episódio serviu para colar à pele de Rebelo de Sousa a imagem de pessoa pouco confiável. Rezava a versão de Portas que Marcelo, como fonte do então diretor do “Independente”, lhe passou o relato de um suposto jantar no Palácio de Belém. Além do que por lá se tinha falado, Marcelo foi ao ponto de descrever a ementa, que começaria com a famosa sopa fria. Mas o acaso fez com que Paulo Portas encontrasse um dos constitucionalistas que supostamente teriam estado no dito jantar. Foi o suficiente para perceber que a história não correspondia à verdade. “Herman, era tudo mentira! Tudo mentira! Os nomes, as pessoas, o que cada um tinha dito e até a ementa”, contou Portas na televisão.

Pontos na língua

Marcelo era líder do PSD, quando foi a uma reunião do PPE em Toulouse, onde era um dos oradores convidados. O problema foi ter partido um dente, quando estava a comer. O dente partido rasgou-lhe a língua e rapidamente o professor começou a sangrar da ferida. Foi preciso levar vários pontos na língua para conter a hemorragia. Mas isso não impediu Marcelo de discursar na reunião, falando em inglês e em francês, a muito custo, e com a língua cheia de pontos.

Fuga aos paparazzi em mota de água

Quando Marcelo Rebelo de Sousa chegou à liderança do PSD, a sua vida pessoal começou a despertar o interesse da imprensa cor-de-rosa, que chegou a fotografá-lo com a namorada Rita Amaral Cabral para mostrar a mulher que o líder do PSD andava a “esconder” ao país. Por essa época, um fotógrafo do Tal&Qual foi para o Algarve com a missão de fotografar as férias do professor. Marcelo estava na praia com o filho Nuno quando se apercebeu de que estava a ser perseguido pelo paparazzo. Para evitar a reportagem indiscreta, atirou-se à água e começou a nadar. Nadador experimentado, Marcelo afastou-se a braçadas largas do repórter e foi a nado para outra praia. Ficou tão longe do sítio onde tinha deixado as coisas na praia que foi o filho Nuno quem o foi resgatar de mota de água, já a salvo dos olhares indiscretos dos fotógrafos.

Conversa com o bêbado

Terminado um comício em Fafe, o líder do PSD procurava um sítio para jantar com a namorada Rita Amaral Cabral e o assessor de imprensa Zeca Mendonça quando foram parar a uma tasca, o único sítio aberto para comer àquelas horas. É aí que um homem já bêbado o aborda e lhe pede ajuda. Explica-lhe que a mulher está zangada com ele, mas que é uma grande fã do professor e que a única maneira de o perdoar e de o deixar entrar em casa é ser o próprio Marcelo a ir lá convencê-la. Marcelo vai. A mulher, que já estava de pijama, nem queria acreditar. Mas comoveu-se. E convidou o líder do PSD para uma patuscada que durou até às cinco da manhã.

As noites loucas

“As noites loucas de Marcelo” era mesmo o nome de ações de campanha de Rebelo de Sousa na já célebre candidatura para a Câmara de Lisboa em 1989. A sessões decorriam numa das então mais famosas discotecas da capital, o Alcântara-Mar. Mas a veia noctívaga de Rebelo de Sousa – conhecido por dormir quatro a cinco horas por dia – não se fica por aí. Como professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Marcelo era conhecido pelos alunos por os acompanhar depois dos jantares de turma pela movida lisboeta. Consoante os estudantes eram mais ou menos betinhos, o professor seguia com eles para a Kapital ou para o Plateau, depois das grandes jantaradas que organizava e onde muitas vezes acabava a pagar a conta dos alunos que discretamente saíam antes da chegada da “dolorosa”. Pelas noites, o catedrático também abria os cordões à bolsa, pagando os copos dos universitários que o acompanhavam na ronda das capelinhas noturnas.

Sopa na jornalista

Marcelo é famoso pela forma como se retrata quando percebe que fez alguma coisa mal. Mas a jornalista do “Expresso” Cristina Figueiredo nem queria acreditar quando, à hora de jantar, o então líder do PSD lhe apareceu em casa, em Alfragide, para se desculpar por não lhe ter dado uma entrevista que lhe tinha prometido, preferindo ir ao programa de Margarida Marante, na SIC. Sozinha em casa com a filha bebé, Cristina foi apanhada de surpresa por um telefonema de José António Lima, director-adjunto, que a avisou de que Marcelo se preparava para ir lá a casa. Leva-lhe uma moldura e um pedido de desculpas por lhe ter “dado sopa”. Mas acabou por ser a jornalista a aquecer-lhe uma sopa, depois de o líder do PSD estar quase duas horas em sua casa sem ter jantado. “Então o que tem que se coma?”, perguntou Marcelo, depois de Cristina lhe ter perguntado se já tinha comido. Acabou nessa noite por tirar uma fotografia a Marcelo com a sua filha bebé ao colo que ainda tem na moldura na sala.

Mãos-largas

As aventuras na política têm custado caro a Marcelo Rebelo de Sousa. Foram várias as vezes que pagou do seu próprio bolso ações de campanha, como aconteceu também nestas presidenciais. Uma das vezes foi na corrida à Câmara de Lisboa, quando resolveu comprar rosas para oferecer às senhoras. Noutra ocasião, já líder do PSD, lembrou-se de patrocinar a vinda de todas as crianças de todas as escolas de Celorico de Basto à Expo 98. A história é contada pelo jornalista Vítor Matos, na biografia de Marcelo Rebelo de Sousa, onde se revela que muitos dos miúdos a quem o líder social-democrata pagou a viagem nunca tinham ido sequer a Guimarães, quanto mais à capital. Ao todo, foram 2100 crianças em 38 autocarros. A brincadeira custou a Marcelo cerca de seis mil contos na moeda antiga, cerca de 30 mil euros.

Fazer chorar Ferreira Leite

Quando Durão Barroso escolheu para ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite, Marcelo fez um comentário contundente na TVI. “Quem não tem cão caça com gato”, avaliou o comentador, implacável na análise apesar de Manuela ser sua amiga. Ferreira Leite é que, conta o jornalista Vítor Matos na biografia de Marcelo, não terá gostado nada do comentário. A ministra social-democrata chegou a chorar com a avaliação feita pelo amigo. A verdade é que, noutras alturas, um elogio de Marcelo às “belas pernas” de Ferreira Leite arrancou uma sonora gargalhada à normalmente contida e sisuda social-democrata.

Tortura de sono a Vitorino

As negociações para a revisão constitucional foram duras. Marques Mendes negociou horas com Jorge Lacão no parlamento. Mas no final foi Marcelo quem afinou os últimos pontos com António Vitorino, então ministro da Defesa e da Presidência de António Guterres e seu antigo aluno na Faculdade de Direito. Rebelo de Sousa esteve das três às seis e meia da manhã ao telefone com Vitorino para desbloquear os últimos pormenores da longa negociação. O ministro socialista tinha uma reunião com militares no dia seguinte às nove da manhã e, à medida que a conversa se alongava, ia ficando nervoso com a ideia de não conseguir dormir e muito ensonado. Para o líder do PSD, habituado a dormir pouco, era uma tática negocial: com as resistências em baixo, António Vitorino cederia mais facilmente ao argumentário de Marcelo Rebelo de Sousa.






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