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Sociedades secretas. Uma rede profissional de recrutamento
Um novo livro põe a nu os segredos que as sociedades secretas mais têm tentado proteger

Sociedades secretas. Uma rede profissional de recrutamento

Um novo livro põe a nu os segredos que as sociedades secretas mais têm tentado proteger Jean-Luc PETIT/Getty Images Pedro Rainho 10/11/2015 15:18

No livro “O Fim dos Segredos”, a jornalista Catarina Guerreiro divulga informações sobre a vida interna da maçonaria e da Opus Dei.

Na hora de reforçar as suas fileiras, as sociedades secretas não deixam essa tarefa nas mãos de terceiros. E começam cedo, muito cedo, a procurar novos membros. A partir dos seis anos, há crianças sujeitas a avaliações detalhadas de perfil, feitas pelos responsáveis da Opus Dei. Na maçonaria, o recrutamento acontece mais tarde, sobretudo no terreno fértil das faculdades e das juventudes partidárias. Num e noutro caso, o importante é assegurar que a rede de influência em sectores-chave da sociedade nunca perde vitalidade.

A jornalista Catarina Guerreiro passou três anos a investigar estas duas sociedades secretas (ver entrevista ao lado). O resultado, quase 300 páginas com “O Fim dos Segredos – Tudo o que nunca lhe contaram sobre o mundo da Opus Dei e da Maçonaria em Portugal”, já foi publicado e é oficialmente apresentado no dia 18 de Novembro.

No livro foram reunidas informações sobre os rituais das cerimónias, a iniciação, as regras para a entrada, o dia-a-dia, a organização, os nomes de quem detém o poder, as relações com a política, a economia, as finanças, o património. E o recrutamento.

Em termos simples, há uma espécie de faixa etária até à qual a Opus Dei recruta novos membros e a partir da qual a maçonaria começa a procurar reforços: os 25 anos. É essa a prática comum, apesar de, nos últimos anos, terem sido lançadas pelos maçons as bases da Ordem DeMolay, que organiza encontros em templos maçónicos para recrutar novos elementos a partir dos 12 anos.

O uso regular do cilício é a mais física forma de mortificação dos opussianos, mas nem isso trava as entradas de novos membros. Mas, além dessa penalização do corpo, há um colete de forças quase simbólico a que a maioria dos elementos da Opus Dei fica obrigado quando passa a pertencer à sociedade secreta. O movimento de Escrivá – o sacerdote espanhol que fundou esta sociedade – obriga os numerários e os agregados (duas classes dentro daquela sociedade) a praticar o celibato. A dedicação à causa é total e exclusiva. Mas aos supranumerários, outro nível na hierarquia da OpusDei, é permitido que constituam família.

Recrutar o perfil certo Cada uma das sociedades tem os seus próprios métodos de recrutamento. Quando procura sangue novo, a Opus Dei define claramente que necessidades é preciso suprir na estrutura da instituição. É isso que explica que os agregados, por exemplo, sejam escolhidos em meios socialmente mais fragilizados – a estes elementos estão reservadas as funções domésticas dentro da organização.

“Os espaços com actividades para jovens são hoje um dos principais e mais importantes locais de recrutamento”, refere o livro de Catarina Guerreiro. Existem vários centros de formação da sociedade espalhados pelo país, onde impera o segregacionismo sexual. Não há nenhuma regra que obrigue os seus alunos a integrar aOpus Dei, mas cada um destes centros faz uma avaliação cuidada dos potenciais aderentes. E quando é dado o passo definitivo, a autodeterminação acaba. Cabe sempre aos superiores hierárquicos encaminhar os elementos mais novos no seu percurso académico e profissional. A escolha do curso superior é determinada pelos responsáveis da instituição, em função das necessidades internas.

A maçonaria revela muito mais interesse pelas universidades do país, porque convém a esta organização atrair novos elementos que tenham já dado provas de que o sucesso profissional está garantido. “Muitas vezes, nas universidades há uma luta de poder entre os maçons e os seguidores de Escrivá”, escreve a jornalista. A Universidade Lusófona é, de resto, a instituição em que o peso da maçonaria mais se faz sentir – ao ponto de ser conhecida como a “universidade maçónica”, com elementos maçons desde o corpo docente até ao presidente do conselho de administração, Manuel Damásio.

Mas “é nas juventudes dos vários partidos que a maçonaria mais recruta”, refere Catarina Guerreiro. “Por um lado, são jovens com carreiras políticas promissoras, o que interessa à maçonaria. Por outro, esta dá-lhes uma garantia de protecção entre os outros políticos, parte deles já membros da irmandade.”

E, neste campo, PSD e PS estão em clara maioria, em comparação com os restantes partidos. E, apesar de a regra ditar um recrutamento antecipado, a verdade é que até nos corredores do parlamento se tenta angariar mais nomes.
Mais recentemente, os templos começaram a abrir as suas portas aos jovens. As sessões para adolescentes – que rompem com a tradição de recrutar perfis já formados –, encontros organizados pela Ordem DeMolay, reúnem rapazes dos 12 aos 21 anos. Os Lions Clubes e os Clubes Rotários são outros pontos de entrada para a maçonaria, uma espécie de antecâmara da sociedade secreta. 

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