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Lipo Herczka. O primeiro treinador campeão pelo Madrid está em Montemor

Lipo Herczka. O primeiro treinador campeão pelo Madrid está em Montemor

04/05/2012 03:00

Aos 89 anos de idade, Rogério Lantres de Carvalho, mais conhecido como Pipi, tem uma jovialidade admirável. Tal como a memória. Conta sempre muito bem a história e acrescenta-lhe pormenores deliciosos.

Quando lhe falamos de Lipo Herczka, a resposta é imediata. “Bom homem, sem dúvida, mas impossível quando estava de mau-humor. Sem razão aparente, no meio do treino, insultava este e aquele. Veja lá bem que de tão habituados já estávamos que nem o ligávamos nessa altura.”

É Lipo Herczka, o primeiro treinador a sagrar-se tricampeão nacional. Entre 1936 e 1938, pelo Benfica. E também o primeiro treinador campeão espanhol pelo Real Madrid, em 1932. Há 80 anos, Lipo comete uma proeza assinalável e nunca mais repetida: campeão espanhol sem derrotas, com dez vitórias e oito empates. Nem assim o húngaro ganha pontos em Madrid e o presidente Luis Usera demite-o num abrir e fechar de olhos, substituindo-o por um adjunto chamado Santiago Bernabéu.

As más-línguas falam de falta de pulso para controlar o balneário madridista, mas a derrota com o Deportivo, então na 2.a divisão, na primeira eliminatória da Taça Generalíssimo também influi na decisão de despedir Lipo. Este não se faz rogado e vai para Alicante. Assina pelo Hércules e é campeão da 3.a divisão. Na época seguinte, é despedido outra vez, a 14 de Janeiro de 1934 e assume o Granada até 1935.

lipo vs. desidério Nesse ano, muda completamente de ares. Adopta Portugal como pátria e o Benfica como clube do coração. O irmão Desidério acompanha--o mas estabelece-se no Barreiro. A 5 de Fevereiro de 1939, dá-se até um curioso (e inédito) encontro de irmãos na liga portuguesa. No Campo do Rossio, acaba 1-1. Na segunda volta, ganha Lipo por 1-0.

Ao longo de quatro épocas, Lipo ganha as tais três ligas consecutivas mais um Campeonato de Portugal, antecessor da Taça de Portugal – com este nome, é ele um dos finalistas da primeira edição, em 1939, ganha pela Académica por 4-3 nas Salésias, no seu 153.o e último jogo.

Ao Benfica, seguem-se outros clubes portugueses. Como o FC Porto, onde é tricampeão regional entre 1943 e 1945. Também treina Académica, Vila Real, Estoril e União de Montemor. É lá (em Montemor-o-Novo) que Lipo morre a 14 de Março de 1951. E é também lá (no Cemitério de São Brissos, em Montemor--o-Novo) que é enterrado.

Um tímido telefonema para a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo ajuda a explicar o fenómeno. À pergunta sobre Lipo Herczka, não há quem não o conheça. O nome é original. Quem é que se chama Lipo Herczka?

Sobre ele, muito se escreve. Carlos Carvalho, dirigente do Benfica e jornalistas, elogia-o. “Teve a rara intuição de saber adaptar as qualidades do futebolista português, de intuição e combatividade, ao estilo solto do futebol austríaco, onde a desmarcação e o toque suave de bola têm cunho de arte.”

Numa das pedras do mausoléu em Montemor, uma bola de futebol e os emblemas dos clubes portugueses. Nada de Real Madrid, o clube espanhol com mais títulos de campeão. Trinta-e-dois. O primeiro é de Herczka, o último de Mourinho. Pelo meio, tantos ilustres. Do mais recente para o mais antigo: Schuster, Capello, Del Bosque, Valdano, Toshack, Beenhakker, Molowny, Miljanic, Muñoz, Carniglia, Villalonga, Fernández... Alto aí e pára o baile.

campeão pelo sporting Fernández, Enrique Fernández Viola. Uruguaio de nascimento, estabelece-se em Espanha. Primeiro como jogador, depois como treinador. E é o único na história a sagrar--se campeão espanhol pelo Barcelona (1948 e 1949) e pelo Real Madrid (1954). Em 1957, muda-se para Portugal e é campeão nacional pelo Sporting no ano seguinte, numa acérrima luta com o FC Porto.

Valendo-se do confronto directo (3-0 em Alvalade e 1-2 nas Antas), os leões festejam o título na última jornada com um 3-0 ao Caldas. Na ronda anterior, o Sporting sai vitorioso do Barreiro com um golo ainda hoje polémico de Vasques. Ao que parece, o avançado toca a bola com a mão para tirá-la do alcance do guarda-redes Joaquim José Silvino e este estava inconsolável. “Se Vasques não tivesse tocado a bola com a mão, eu tinha--a interceptado. Perder assim é penoso, custa muito.” A polémica estende-se toda a semana porque todos os jornais dão conta de um sinal do fiscal-de-linha para uma suposta irregularidade no lance, mas a verdade é que o árbitro Álvaro Rodrigues nem liga e dirige-se para o centro do campo.

Lipo Herczka (tricampeão pelo Benfica), Enrique Fernández (campeão pelo Sporting) e José Mourinho (bicampeão pelo FC Porto). Um passado ligado a Portugal e também ao Real Madrid. Do primeiro ao último título. Do primeiro ao último suspiro.

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