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Luís Amaral. "A ideia de que a genealogia é para a nobreza irrita-me"

Luís Amaral. "A ideia de que a genealogia é para a nobreza irrita-me"

26/04/2012 03:00

Quem entre no site Geneall.net fica convencido de estar diante do trabalho de uma equipa numerosa, com filiais em vários países. Com seis plataformas em línguas diferentes, leitores em todo o mundo e uma vasta base de dados constantemente actualizada, o maior site de genealogia do mundo é, afinal, fruto do trabalho e da paixão de um português: Luís Amaral. Uma obra que é prova daquilo que pode um homem quando teima em fazer um trabalho bem feito, sem olhar a esforços. E que conquistou já prestígio e reconhecimento internacionais, sendo ainda pouco conhecida no nosso país. À boa maneira portuguesa...

Como nasceu a ideia de criar um site de genealogia?

O Geneall tem origem num trabalho que desenvolvi quando estive ligado ao jornalismo e, em particular, ao “Independente”, de que o meu irmão João, com o Paulo Portas, foi fundador. Em 1998, com a Constança Cunha e Sá na direcção e o Paulo Portas como administrador, conhecendo ele o meu interesse pela genealogia, pediu-me que assumisse a redacção de um suplemento coleccionável que acabou por se chamar “Nomes de Portugal”.

O projecto ficou nas suas mãos?

Durante seis meses fiz tudo, foi um trabalho imenso. Como estava a ser feito num contexto jornalístico, não tive tempo sequer para me preparar. Foi um trabalho muito exigente, que me custou muitas horas de sono. Durante 26 semanas fiz fascículos de genealogia ao ritmo alucinante de um jornal semanário. Eram 24 páginas, obrigava-me a fazer duas directas por semana. O desgaste foi tanto que comecei a perder cabelo e tive de passar a usar óculos para ler.

Este suplemento teve sucesso?

O coleccionável foi divulgado com uma forte campanha publicitária. Quem coleccionou e encadernou os fascículos ficou com a história de cerca de 80 apelidos, que é um retrato da sociedade portuguesa de finais do séc. XX. Teve uma tiragem impensável para um tema como a genealogia: entre 30 e 35 mil exemplares. As publicações sobre genealogia ficam-se pelos 500 exemplares, na melhor das hipóteses conseguem chegar aos mil.

Como conseguia fazer o trabalho de investigação?

Tinha, já naquela altura, uma vasta biblioteca sobre genealogia.

E como nasceu este seu interesse pela genealogia?

Aqueles que se interessam por este tema começaram, muitas vezes, pelo interesse em conhecer a história dos seus próprios antepassados e muitos nunca saem desse âmbito. Normalmente, este interesse é herdado de um avô. Foi assim comigo. A minha mãe descende de um irlandês que veio para Portugal em finais do séc. XVII. O meu avô materno tinha acumulado papelada sobre a família irlandesa e guardava tudo num baú. Quando, numas férias, decidiu mostrar aos netos aquele arquivo, os outros não ligaram, mas eu fiquei completamente fascinado. Propus ajudá-lo a organizar aqueles pergaminhos e este baú fez nascer a paixão pela genealogia. Mas, ao contrário da esmagadora maioria dos genealogistas, em vez de passar uma vida a investigar o passado da minha família, rapidamente o meu interesse transbordou para outros nomes e outras histórias.

Como apareceu o site Geneall.net?

Criei o site em 2000, a partir da base de dados que tinha construído.

Qual é o método de investigação?

Não existe um curso superior de Genealogia e, por isso, todos os genealogistas são autodidactas. Mas a metodologia é fácil: a sua certidão de nascimento refere os nomes dos pais e dos avós. E os locais de nascimento. Indo aos registos de nascimento dos pais, encontra a mesma informação, pais e avós. E assim vai progredindo. Há um momento em que essa informação não está no registo civil, que só foi criado em 1911, e está nos livros das igrejas.

Ou seja, estamos a falar dos livros de registo paroquiais.

Exactamente. Temos em Portugal um privilégio. O registo civil, como disse, é de 1911. Até ali, os registos estavam nas paróquias. Afonso Costa fez uma coisa que não foi feita no resto da Europa: “nacionalizou” os registos paroquiais e deslocou-os todos para arquivos civis. Se tivessem ficado nas igrejas, provavelmente grande parte ter-se-ia perdido, até porque não havia condições de conservação. Os livros de registo paroquiais nasceram em 1563, por decisão do Concílio de Trento. São praticamente quatro séculos de informação acumulada que transitou para os arquivos civis. Isto facilita imenso a investigação. Até 1911, tem de ir ao registo civil, mas a informação anterior está nos arquivos. Estamos em 2012 e assim, em teoria, todos os livros das igrejas já deveriam estar nos arquivos, pois em 2011 passaram cem anos sobre 1911.

É possível aceder a essa informação online?

Está em curso o programa “digitarq”, que pretende digitalizar toda a informação guardada nos arquivos e colocá-la online, o que corresponde a um avanço fantástico, nomeadamente no que diz respeito aos registos paroquiais, pois permite ter já acesso a muitos livros paroquiais online, sobretudo os do distrito de Lisboa, Porto e Coimbra, mas também Setúbal, Vila Real, etc.

E quando não está online?

O facto de a informação estar centralizada em cada arquivo distrital facilita. Se o meu pai nasceu no Porto, na freguesia de S. Nicolau, vou ao arquivo do Porto e procuro no livro de baptismo de S. Nicolau. No assento de baptismo do meu pai há-de estar a informação sobre os pais e a naturalidade dos pais. Supondo que o avô é natural de Covas, em Coimbra, e a avó é natural de Alcácer, em Setúbal, vou ao arquivo de Coimbra, onde estão os livros paroquiais de Covas e ao arquivo de Setúbal, onde estão os livros paroquiais de Alcácer. É por este método que vamos recolhendo informação para trás.

Recuar é mais fácil?

Enquanto na certidão de nascimento encontra dados sobre o local de nascimento do pai e da mãe, não é tão fácil encontrar informação sobre os filhos. Suponha que se trata de um vendedor ambulante e os filhos nasceram todos em cidades diferentes – é como procurar agulha em palheiro. Uma das formas de chegar a esta informação é pela participação da morte ou por um testamento, quando exista. A investigação genealógica é semelhante ao trabalho de um arqueólogo.

Quando queremos seguir o rasto de um apelido, não temos o trabalho dificultado pelo facto de ter havido, em Portugal, uma quebra no método que estabelecia a ordem dos apelidos da mãe e de varonia?

Na regra espanhola, o primeiro apelido é do pai e depois vem o da mãe, que se perde na geração seguinte. Em 1911, com a criação do registo civil, estabeleceu-se que se transmitia o último apelido e quem apanhou essa fase de transição transmitiu aos filhos os apelidos que não eram necessariamente os da varonia, pois o último apelido era da mãe ou até de uma avó materna.

E como funciona o site Geneall.net?

Actualmente, com apenas duas pessoas a tempo inteiro. Além destes custos, todos os inerentes à manutenção de um site. Apoio técnico, armazenagem num servidor, etc. Durante os primeiros cinco anos, o site esteve alojado como portal do Sapo, sustentado pela PT. Mas o modelo de negócio da net alterou-se e a própria PT quis abandonar aquele tipo de contrato. Decidi então, para procurar uma fonte de apoio, criar o nível “Plus”, com acesso pago a um nível de informações muito mais completas e detalhadas. Este acesso exige uma inscrição que custa 35 euros por ano. É a única fonte de financiamento deste trabalho.

O Geneall tem plataformas em várias línguas para além do português – alemão, francês, espanhol, inglês, italiano. Isto implica ter quantas pessoas a trabalhar no projecto?

Somos apenas dois, como disse, mas precisava de mais dez. Em 2006 comecei a aperceber-me de que a possibilidade de crescer em Portugal era muito limitada. Por outro lado, o site estava a ter uma grande internacionalização, com cada vez mais consultas de estrangeiros. Em 2007 decidi criar as versões noutras línguas, o que sugere que ali estão associados, numa base de dados, seis sites de genealogia, apesar de ser eu quem está por trás de tudo. O Geneall é um site português inteiramente desenvolvido em Portugal, tanto na sua concepção de programação informática como nos conteúdos.

Como consegue desenvolver os ramos estrangeiros?

Tenho uma biblioteca vastíssima, com muitas obras noutras línguas. Quando em minha casa os livros já não cabiam, aluguei o espaço onde funcionava antes uma livraria e abri a Biblioteca Genealógica de Lisboa, onde disponibilizei a consulta de quatro mil livros. Tive de a fechar, por falta de meios, há cerca de dois anos.

Há muitos sites de genealogia no mundo?

Há milhões de sites no mundo consagrados à genealogia de uma família. Mas existem só três ou quatro sites generalistas.

Sites genealógicos desta dimensão?

O Geneall é o maior site de genealogia do mundo: mais de 2 milhões de pessoas, mais de 80 mil apelidos. Por falta de condições de prestar um serviço mais eficaz, tentei estimular outras pessoas a fazerem sites, mas não tive grande sucesso. Há factores que promovem a concentração no Geneall como, por exemplo a bolinha que identifica descendência de D. Afonso Henriques.

A identificação de descendentes de D. Afonso Henriques é assim tão exacta?

O marquês de Abrantes, D. Luís de Lancastre e Távora, investigador e erudito, dizia que, pela dimensão do país e pelos oito séculos de história que levamos, não há a menor hipótese de haver um português em cujas veias não corra sangue de D. Afonso Henriques.

A genealogia não é uma ciência exacta?

Não, não é, o que resulta da própria natureza humana. É teoricamente sempre possível saber-se quem é a mãe, mas não podemos nunca ter o mesmo grau de certeza quanto ao pai. Aí, a genealogia tem de ser pragmática: se o pai reconhece um filho, este é considerado como tal.

Há muita gente que considera a genealogia como coutada da nobreza.

A ideia de que a genealogia é para a nobreza irrita-me. Contrariar essa ideia tem sido a luta de uma vida e o Geneall é um dos instrumentos. Todos temos um pai e uma mãe, avós, bisavós, etc., sejam nobres ou não. E mesmo os nobres eram todos gente do povo antes de receberem um título. Há cada vez mais publicações genealógicas que tratam de famílias da burguesia e do povo.

O Geneall tem também o fórum, um espaço muito participado.

O fórum é um espaço extraordinário de partilha de informações e de entreajuda. Nasceram ali muitos conhecimentos, muitas amizades e, até, trabalhos de investigação partilhados, alguns até já publicados em livro. Sendo o Geneall, com 12 anos de vida, o maior site de genealogia do mundo, é, ao mesmo tempo, a rede social por excelência.

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