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Mari Alkatiri. "Xanana Gusmão é o maior corruptor deste país"

Mari Alkatiri. "Xanana Gusmão é o maior corruptor deste país"

17/03/2012 03:00

Mari Alkatiri, muçulmano numa terra de cristãos, secretário-geral da FRETILIN, diz: “Em termos de religião sou da minoria, mas em termos de política sou da maioria.” Vítima maior da crise de 2006, explica que tem a consciência tranquila e não hesita em afirmar que Xanana Gusmão é o “maior corruptor deste país” que, garante, se “tornou um laboratório de experiências”.

O ministro da Economia e Desenvolvimento, João Gonçalves, diz que “Timor é um país rico mas com gente pobre”. Será que é legítimo dizer isto depois de dez anos de independência?

Enquanto a população for pobre, o país nunca será rico. Riqueza é aquilo que nós produzimos, não é aquilo que a natureza nos concede. O que a natureza nos concede é o crédito, e questiono, há ou não capacidade de gerir esse crédito para produzir riqueza? Sempre afirmei em Conselho de Ministros que cada dólar saído do petróleo é cotado como crédito. Há que definir uma taxa de juro, para ver se há ou não capacidade de reproduzir isso.

E como vê o país a nível económico?

Este país deixou de ter economia para ter simplesmente especulação financeira. Falam do crescimento económico, que não é mais do que dinheiro injectado pelo fundo de petróleo. É consumismo barato, na base da importação, e isto é completamente insustentável. O problema é que se saiu do princípio básico do economista: “Economia é a gestão dos recursos escassos, mas a base é a gestão.” Em Timor- -Leste é o contrário, os recursos é que determinam. Porque se há muito dinheiro, então é ele que vai resolver o problema. O dinheiro traz felicidade a uma percentagem mínima de pessoas e o resto é que paga.

E, com tanto dinheiro, nem foi possível resolver o problema das estradas?

Na minha época tínhamos pouco dinheiro e conseguimos manter as estradas. Porquê? A questão central é a gestão. Nós tínhamos duas formas de gerir as infra-estruturas rodoviárias, através da manutenção de rotina (por exemplo, limpar as valetas) e da manutenção periódica. Só depois vem a reabilitação, e essa é a melhor forma de manter as infra- -estruturas rodoviárias.

Mas, verdade seja dita, o terreno não permite grandes construções.

Sim, é verdade, naturalmente que agora, com dinheiro, a engenharia resolve tudo. Gastou-se tanto dinheiro e não se usou a técnica e a tecnologia. Tudo feito a olho. Antes mesmo de desempenhar as funções de jurista, fui topógrafo e trabalhei nas estradas. Quando começaram a alargar o troço que liga à fronteira com a Indonésia, disse logo que nas primeiras chuvadas as pedras viriam todas por aí abaixo. Dito e feito, agora as estradas estão quase intransitáveis.

De acordo com o Plano Estratégico de Desenvolvimento, as estradas irão sofrer grandes alterações.

É tudo megalómano, completamente invertido: 70% do Orçamento é para infra-estruturas, que tipo de economia irão dinamizar? Há que definir primeiro isso. É impossível sermos a nova Singapura dentro de uns anos. Tudo tem de ser feito com suor e trabalho, não com dinheiro do petróleo.

Muito se tem falado da base militar dos Estados Unidos em Darwin, cujo principal interesse passa por tentar contrariar a crescente pujança da China por vias comerciais, diplomáticas e militares. Mas também se fala no interesse no petróleo do mar de Timor. Acredita nesta última teoria?

Se quer que lhe diga, a base militar não me preocupa, porque os EUA, quando querem, estão em minutos em qualquer lado [risos] e a explicação da China é falsa. A China não é ameaça externa e nem importam as ideologias. A China exporta produtos baratos, cada vez com maior qualidade. Os próprios EUA precisam da China para desenvolver a sua economia. Quem é que não precisa de quem neste mundo? Os EUA têm excelentes relações com Timor. Temos interesses sobrepostos e não conflitos, portanto, o próximo passo é encontrar uma solução.

No entanto, o jogo de interesses mata uma nação.

Sim, claro, mas temos de gerir com competência e tem de haver um consenso nacional para haver reconhecimento. Não podemos politizar o que não é político e tentar apelar às consciências patrióticas para desenvolver o problema do mar de Timor. Assim não vamos a lado nenhum. Fizemos o acordo, conseguimos 90% (com a Sunrise passamos de 18% para 50%) e nunca mais se mexeu. Naturalmente que com 10 mil milhões de dólares julgamos ser muito ricos, e a gastar como estamos a gastar, daqui a 15 anos não há dinheiro. Tem-se gasto muito, mas sem resultados.

Como vê o actual governo?

O governo já não existe há muito tempo e nós [oposição] não queremos utilizar outros meios para o derrubar. Queremos meios legais e, apesar de não reconhecermos este governo, nunca demos um passo para trazer milhares de pessoas para as ruas e protestar. Optamos, sim, por fazer uma oposição didáctica. Pode dizer-se que tem sido governação com muito dinheiro mas sem resultados. Nós [FRETILIN] reabilitámos mil escolas, construímos 150 novas escolas de qualidade, novos centros de saúde em todos os subdistritos, hospitais de referência e, dentro de dois, três anos, iremos ter mais de mil médicos formados, através da cooperação cubana. Durante a minha governação, disse ao ministro da Educação que uma universidade sem os cursos de Direito e Medicina não é universidade. A nível rodoviário, a maioria das pontes construídas são do meu tempo, mas acabaram por ser inauguradas pelo actual governo. Até houve um caso caricato em que o actual primeiro-ministro inaugurou uma ponte a pensar que era um projecto dele. Contudo, o ministro das Infra-Estruturas disse no discurso que o projecto era do primeiro governo [risos].

Fez menção à educação. Durante estes dez anos houve sempre a questão da língua portuguesa. Como classifica esta aversão pela língua de Camões?

Sempre houve pressão contra a língua. Obviamente que sempre a defendi e disse num colóquio que, se o tétum se quiser desenvolver, tem de estar ligado ao português. E se o português quiser afirmar- -se tem de se submergir no tétum. Não há outra solução. Se adoptarmos o inglês, o tétum desaparece, porque a língua inglesa é dominante, não coabita, e se adoptarmos a língua indonésia seríamos uma extensão da província. Não estou a dizer que o inglês e o bahasa deveriam ser banidos do ensino, porque é a nossa relação com a região e o mundo.

E ainda há o programa das línguas maternas, o Ita Nian Rai.

Isso é impossível! É a balcanização do país. Deve-se fazer um esforço para desenvolver todas as línguas e não confundir isso com a necessidade de ter uma língua unificadora.

E o que tem a dizer do conflito entre a nova e a velha geração?

Para a nova geração, a língua portuguesa é de um certo saudosismo, ao que eu respondo: “Eu já tenho identidade, vocês é que ainda não têm.” Qual a identidade que eles querem ter?

Mas eles não levam a mal?

Claro que levam a mal. Não gostam quando eu falo desta forma. E volto a perguntar, vocês querem ser uma extensão da Indonésia ou do norte da Austrália, ou querem ser um povo independente?

E qual é a resposta?

Nenhuma. Como disse, tétum e português devem andar juntos. Até há casos em que políticos que estudaram português na mesma altura que eu usam termos que não existem. Por exemplo, a palavra cometimento [commitment em inglês] não existe. Compromisso é compromisso, e se há termos em português, usem o português! O timorense até entende o que é o compromisso, compromisso com Deus, por exemplo.

Entrando agora no campo da religião, nunca se sentiu incomodado por um muçulmano tomar as rédeas de um país maioritariamente católico?

Em termos de religião sou da minoria, mas em termos de política sou da maioria. O país é maioritariamente católico porque a FRETILIN é maioritariamente católica – essa é que é a realidade. Senão, o país não seria maioritariamente católico, e este é um elemento de cultura da unidade nacional. Eu sou parte deste povo. Ultimamente tenho dito que “a lei define, a Constituição define, mas patriotas somos nós todos”, não podemos por via da lei tornar uma pessoa nacionalista. Não se entende que o sacrifício que todos nós fizemos tinha um inimigo comum [a Indonésia]. Agora a tendência é fabricar inimigos para poder unir grupos, isto é, os grupos de artes marciais.

Após muitos problemas causados pelos grupos de artes marciais, o governo decretou tolerância zero. Acha que esta medida irá pôr cobro à violência?

Claro que não, tal como as outras anteriores não serviram de nada! A questão fundamental para os jovens é o emprego. Como criar emprego? Para competir no mercado de trabalho tem de se ter capacidade. Como criar capacidades? Criando centros de emprego. Porque, senão, depois ocupam o seu tempo a praticar artes que não são marciais. Devia haver uma lei enquadradora e definir critérios. Por exemplo, para a unidade de reserva militar só conseguiram 100 pessoas porque a selecção foi muito rigorosa, de forma a não apanhar ninguém ligado às artes marciais. Queríamos 500 e só conseguimos 100 e, desses 100, 20 não aguentaram, e foi então criada a força de segurança. Diziam que essa força era a minha segurança privada em 2006, mas acabaram por fazer segurança não a mim, mas ao Xanana.

Como é a sua relação com Xanana Gusmão?

Quando me encontro com Xanana em sítios públicos brincamos um com o outro, na galhofa. Uma coisa são as diferenças políticas, outra são as relações pessoais. E se há algum crítico dele, sou eu. Xanana é o maior corruptor deste país, porque quem corrompe as mentes é o maior corruptor de todos. Custa-me a acreditar que uma pessoa que esteve na luta, na prisão, fosse desencadear uma crise como a que aconteceu em 2006. Demiti-me porque não queria guerra e, para mim, 2006, 2007, 2008 já ficaram para trás. Podemos, juntos, olhar para a frente ou não? Da minha parte, não há remorso nenhum, até porque tenho a minha consciência tranquila. Nem sequer me quero considerar vítima porque quem assume as funções como eu assumi tem de estar sujeito a tudo.

Como define o Timor-Leste destes dez anos? E como vê o país no futuro?

Timor-Leste tornou-se um laboratório de experiências que, bem aprendidas, podem ajudar o país a crescer. Para o futuro há que definir as áreas de consenso para todos, principalmente os partidos políticos.

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