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Jorge Vieira. O primeiro árbitro internacional português

Jorge Vieira. O primeiro árbitro internacional português

10/10/2011 03:00

As conversas de café servem para espalhar cultura futebolística mas há quem se espalhe ao comprido a desviar-se do essencial para barafustar sobre estatísticas desinteressantes de árbitros com vistas curtas, golos mal anulados, foras--de-jogo inexistentes, faltas por apitar e cartões vermelhos por mostrar. Em 1921, isso não é bem assim. Já há cafés, sim. E futebol. Mas zero de contestação. E estatística sobre árbitros. Eles são mesmo o elemento neutro do espectáculo. Outros tempos, claro. Ou alguma vez lhe passaria pela cabeça assistir em pleno século XXI a um Espanha-Bélgica apitado pelo capitão do Sporting, fosse ele Daniel Carriço ou João Pereira? Não, claro que não. Mas isso é possível em 1921. Com Jorge Vieira.
Nascido em Lisboa no século XIX (23 de Fevereiro de 1898), Jorge Vieira é daqueles apaixonados por futebol. Para se entender isto, é preciso assinalar a sua presença no primeiro Sporting-Benfica. Dito isto até pode parecer banal, mas acontece que a estreia do dérbi é em Dezembro de 1907. Jorge Vieira só tem nove anos e mora no Dafundo. O jogo é em Carcavelos. O que faz Jorge Vieira? Vai a pé de casa ao campo. E vê o jogo, por amor ao Sporting, o clube da sua vida. É admitido sócio em 1910 e faz--se jogador em terceiras categorias na lateral-esquerda (left-back, como se diz naquela altura), no ano seguinte.


Aos 16 anos de idade, em 1914, estreia--se na primeira equipa, em substituição do habitual titular, um engenheiro inglês mobilizado para a 1ª Grande Guerra Mundial. Nunca mais sai do onze até à despedida, em 1932, já como capitão de equipa. Ou capitão perfeito, como é conhecido pela forte personalidade e cavalheirismo. A braçadeira também lhe é atribuída na selecção nacional por 15 jogos consecutivos, incluindo durante a epopeia dos Jogos Olímpicos Amesterdão-28 em que Portugal passa a primeira fase e é eliminado pelo Chile nos quartos-de-final. É esse o jogo que marca o adeus à selecção. Por essa altura, já Jorge Vieira é um homem reconhecido em todo o país e fora dele. Vamos por partes.
 

Em Portugal, Jorge Vieira tem um papel fundamental, não só no Sporting onde faz 109 jogos, ganha cinco Campeonatos de Lisboa e é uma vez campeão de Portugal, espécie de Taça de Portugal, ainda como cobaia da Lei do fora-de-jogo, alterada em 1925, estabelecendo-se que seria considerado “off-side” o jogador que permanecesse no meio-campo adversário além da linha da bola e não tivesse, no momento em que a bola lhe era passada, entre ele e a linha de baliza, pelo menos dois adversários e não três como anteriormente. Ora bem, como Jorge Vieira é um poço de energia, é ele quem se torna o primeiro defesa-volante português. Sempre que pressente que a bola vai ser colocada nos pés do opositor que lhe está mais próximo, avança com rapidez no terreno, juntando-se aos seus médios e deixando-o fora de jogo. Para que a estratégia funcione perfeitamente, Jorge Vieira joga ligeiramente mais adiantado, tornando o sistema defensivo da sua equipa numa diagonal, cuja táctica faz furor até aos anos 50.
 

No plano internacional, Jorge Vieira é o homem do momento em 1921. Há precisamente 90 anos, o então capitão do Sporting viaja de comboio até Bilbau para apitar o particular entre Espanha e Bélgica (2-0). A imprensa espanhola dá conta de um árbitro português, de seu nome José Gómez Bieya, mas engana-se redondamente. É Jorge Vieira. Que se transforma nesse instante no primeiro árbitro internacional português. A sua actuação foi enaltecida por todos e é até agraciado com a Cruz de Prata da Ordem de Mérito pelo Rei de Espanha. E transforma-se em conversa de café.

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