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Pedro Guerra. O feroz comentador do Benfica que já foi arquivista
Pedro Guerra já se envolveu em várias discussões acesas.

Pedro Guerra. O feroz comentador do Benfica que já foi arquivista

Pedro Guerra já se envolveu em várias discussões acesas. Rosa Ramos 10/10/2015 16:26

As polémicas em torno do comentador do Benfica não são novas. Pedro Guerra recortava jornais na redacção de “O Independente” e acabou no governo de Paulo Portas.

É o comentador desportivo do momento. Não é de agora que Pedro Guerra incendeia debates em defesa do Benfica: em Janeiro pegou-se com Octávio Machado, em Abril com o também benfiquista Jaime Antunes e a tensão com o sportinguista Eduardo Barroso é evidente desde o primeiro dia em que entrou para o painel de comentadores do programa “Prolongamento”. Mesmo assim, na segunda-feira todas as atenções se viraram para o benfiquista que este Verão deixou de comentar na CMTV para substituir Fernando Seara na TVI. Pedro Guerra envolveu-se numa demorada e acesa troca de palavras – e insultos – com o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho. 

No final do programa, Eduardo Barroso levantou-se da cadeira, de dedo em riste e apontado ao comentador do Benfica. O que aconteceu a seguir não foi filmado, mas o “Record” garante que o cirurgião terá tentado agredir Pedro Guerra e que Sérgio Figueiredo, o director de informação da TVI, teve de entrar no estúdio para acalmar os ânimos. Aparentemente, Barroso não terá gostado que Pedro Guerra tivesse exibido, no meio do debate, documentos do Ministério Público sobre comentários que fez sobre o caso Bruma. 

Pedro Guerra é mesmo assim: intempestivo. Prepara-se para os programas e leva pilhas de papéis e dossiers atrás. Puxa de documentos, exibe fotos que têm anos, consulta cábulas intermináveis. E a obsessão pelos recortes não é recente. Já no final da década de 1980, quando trabalhava como arquivista numa pequena sala da redacção do jornal “O Independente” –  à época dirigido por Paulo Portas – , vivia afogado em papéis. Recortava notícias e catalogava textos e fotos em dossiers meticulosamente ordenados. No arquivo, salvava com frequência jornalistas em apuros – como Helena Sanches Osório, que lhe pedia ajuda quando andava a investigar alguma história. 

Não demorou muito até que Pedro Guerra – que tinha pouco mais de 20 anos – começasse a escrever também. De início, pequenos artigos sobre curiosidades e, mais tarde, sobre os grandes casos da Justiça. Antes de adormecer, lia os boletins da Assembleia da República e passava a pente fino, durante horas, todos os diálogos dos deputados no parlamento. Um hobbie que o ajudava a alimentar uma coluna que entretanto criou no jornal e que compilava as melhores frases. Como arquivista ou já como jornalista, Pedro Guerra foi sempre uma figura popular na redacção. “Era o gordinho bem-disposto e  tinha um sentido de humor fabuloso”, recorda um antigo jornalista de “O Independente”. Por ter graça, era chamado às reuniões de primeira página do jornal, que aconteciam madrugada adentro. Quase sempre agarrado a um candeeiro de pé alto que Paulo Portas tinha no gabinete, ia atirando títulos e trocadilhos. “Muitas das manchetes históricas de ‘O Independente’ saíram da cabeça dele”, conta outro jornalista.

Pedro Guerra rapidamente construiu uma importante rede de fontes na área da Justiça e acabou a investigar os temas quentes que, na altura, enchiam as páginas do semanário – do caso de Leonor Beleza e os hemofílicos à “casa cheia” de Duarte Lima, passando pela história do roubo de um camião que levou o actual presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, a cumprir 20 meses de cadeia em 1993. Na realidade, Pedro Guerra estava familiarizado com tribunais e leis: tinha chegado a entrar em Direito, apesar de ter deixado o curso a meio. 

A seguir aos fechos, raramente saía com outros jornalistas, por ser obcecado com o trabalho. Já com o jornal na gráfica,  costumava ficar sozinho nas instalações, agarrado ao telefone. “Telefonava a magistrados, juízes e advogados noite dentro, pedia desculpa pela hora, perguntava pela família de todos, sabia quem estava doente, quem tinha sido operado. Tinha uma grande habilidade para lidar com as fontes e levar a água ao seu moinho”, recorda outro jornalista. A dedicação era tanta que toda a gente estranhou que Pedro Guerra não estivesse na redacção na véspera em que o país ia saber se o juiz Carlos Lobo iria, ou não, pronunciar Leonor Beleza. Era fecho de edição do semanário, havia duas páginas em branco e era ele quem acompanhava o caso. Só apareceu por volta da meia-noite, esbaforido. Sentou-se à mesa com Paulo Portas e a restante direcção do jornal e informou que não tinha conseguido saber nada sobre o despacho de pronúncia. Mas tinha tentado: depois de 50 telefonemas sem êxito, decobrira onde vivia o juiz e foi-lhe tocar à campainha. “Disse-lhe, desesperado e quase a chorar, que se não lhe desse uma pista sobre o que estava no despacho seria despedido e no dia a seguir já não seria jornalista”. Carlos Lobo teve pena dele e mandou-o subir, mas não lhe contou nada, apesar do choradinho. “O Independente” acabou por escrever que Leonor Beleza seria pronunciada, sem que houvesse certezas de nada e com a direcção angustiada. No dia a seguir, quando o despacho confirmou a manchete, houve festa na redacção. 

Do jornal para o governo Pedro Guerra nasceu em 1966, em Moçâmedes, Angola. Aterrou em Portugal aos 10 anos com os pais e o irmão, Paulo Alves Guerra, que é mais velho três anos e também se me meteu no jornalismo. Mas Pedro Guerra acabaria por deixar a carreira. Em 2002, quando Paulo Portas chegou ao governo de Durão Barroso, contratou-o para assessor do Ministério da Defesa. O elevado salário – 4888 euros, fora subsídio de refeição e despesas de representação – causou polémica. E, um ano depois, quando surgiram notícias de que o processo Casa Pia poderia estar a ser inquinado por alegadas contra-informações que visavam dirigentes do PS, Pedro Guerra voltou a ser falado. O “Expresso” escreveu que teria havido uma reunião do secretariado nacional do PS em que Ferro Rodrigues, ou alguém que lhe era próximo, terá dito que existia uma estrutura “a funcionar na órbita do  secretário de Estado da Administração Interna”, que articularia “ex-agentes da PJ e antigos elementos dos serviços secretos militares com um elemento do gabinete de Paulo Portas” encarregue do processo de contra-informação. Mais ou menos na mesma altura, o “Público” revelou que, numa inquirição do juiz Rui Teixeira a Paulo Pedroso, este referiu que havia “um antigo jornalista e actual assessor do ministro da Defesa” que teria dito que não gostava dele e do líder do PS. Contactado pelo “Expresso”, Pedro Guerra negou qualquer envolvimento: “É tão inqualificável que me recuso a aceitar que alguém responsável possa pensá-lo, quanto mais dizê-lo”.

Em 2011, a eurodeputada Ana Gomes voltou a trazê-lo à baila. Numa intervenção num programa da Antena 1, a socialista afirmou que Paulo Portas não teria condições para integrar o novo governo, por “não ter idoneidade pessoal e política”. A eurodeputada recordou o caso da compra dos submarinos, quando Portas era ministro da Defesa, e acrescentou:  “Todos os jornalistas em Portugal sabem que junto do então ministro Paulo Portas funcionou uma central de desinformação e calúnia de dirigentes do PS que alimentou o tratamento na imprensa do caso Casa Pia (...). Um seu próximo colaborador, Pedro Guerra, que Paulo Portas tratou de colocar depois numa empresa pública, era um dos principais agentes dessa central de desinformação”. 

Antes, em 2009, Pedro Guerra já tinha sido nomeado assessor do quadro de pessoal de apoio do grupo parlamentar do CDS, cargo para o qual foi reconduzido em 2011 e que manteve mesmo depois de ter sido anunciado, em Fevereiro deste ano, director de conteúdos da Benfica TV. Em Agosto, disse ao “Diário de Notícias” não haver qualquer incompatibilidade. “Sou apenas colaborador das duas instituições em causa, pelo que ambas as funções são perfeitamente compatíveis”, explicou.  

Uma das últimas polémicas em que se envolveu – e que Bruno de Carvalho invocou no debate de segunda-feira –, dá conta de que Pedro Guerra se terá feito passar por “Fernando Santos” (por coincidência, os seus segundo e terceiro nomes), ao telefone e num fórum da Benfica TV, tecendo elogios aos dirigentes do clube. Algo que Pedro Guerra – apaixonado por Eusébio e cujo lema de vida é “Deus não dorme” – nega. 

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