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Balsemão e Marcelo. A história de uma inimizade com 40 anos
Marcelo fundou o Expresso e o PSD ao lado de Balsemão. Hoje isso é uma menos-valia

Balsemão e Marcelo. A história de uma inimizade com 40 anos

Marcelo fundou o Expresso e o PSD ao lado de Balsemão. Hoje isso é uma menos-valia Luís Claro 06/07/2015 18:16

Estiveram juntos no “Expresso”, no PSD e no governo, mas a amizade entre os dois acabou com Balsemão a acusar Marcelo de o ter traído.

Quando a filha fez nove anos, Marcelo quis surpreendê-la e mandou fazer uma tarte de chocolate com nove metros. “Nem cabia lá em casa”, conta Marcelo, com um ar divertido, no programa “Alta Definição” da SIC. A vida do professor está recheada destes episódios. “Tive ideias loucas”, assume.

Para o bem e para o mal, Marcelo é uma personagem ímpar na vida política portuguesa. É o comentador mais popular do país, mas nunca foi bem-sucedido na política. É o preferido dos portugueses para ser Presidente da República, mas o partido não o quer. 

Marcelo segue em frente, quase imperturbável. Ao domingo, no espaço nobre que tem na TVI, responde aos ataques que lhe fazem como se falasse de outra pessoa. Comenta a sua própria candidatura presidencial como se existissem dois Marcelos. Faz campanha em directo, traça perfis presidenciais que encaixam nele próprio, baralha e volta a dar para ganhar tempo.

Gosta de surpreender, mas não se surpreende. Parece que as jogadas dos outros são sempre um cenário que já foi traçado na sua cabeça. “Era esperável”, disse, há menos de uma semana, quando lhe perguntaram como reagia ao apoio de Francisco Pinto Balsemão a Rui Rio para Belém.

O militante número 1 do PSD vê em Rui Rio um homem com “provas dadas”, que é “leal” e “merece confiança”. As palavras “confiança” e “lealdade” não foram utilizadas por acaso. Balsemão e Marcelo foram amigos, nos primeiros tempos do “Expresso”, admiravam-se mutuamente, mas a política deu-lhes cabo da amizade. “Traiu-me várias vezes desde que, em 1972, o chamei para colaborar comigo no ‘Expresso’”, desabafou Pinto Balsemão em entrevista ao “Independente”. 

Balsemão é lelé da cuca A relação entre os dois foi minada pelos episódios que fizeram de Marcelo o professor Marcelo que conhecemos hoje. Maquiavélico, divertido, às vezes inconsequente, mas ao mesmo tempo brilhante, inteligente e sedutor como poucos na política portuguesa. Balsemão traçou-lhe o perfil na última entrevista que deu ao jornal de que é dono, em 2011. “É uma pessoa superintelegente, mas à procura de tantos esquemas acaba por trair, não apenas os outros mas a ele próprio.”

A paciência do fundador do PSD esgotou-se quando era primeiro--ministro e convidou Marcelo para colaborar consigo no governo, no início da década de 80. Balsemão era altamente contestado dentro do partido. Cavaco, Santana, Helena Roseta e outros críticos faziam-lhe a vida negra. Freitas do Amaral conta, nas suas memórias políticas, que “cada conselho nacional do PSD era uma batalha campal, em que a autoridade do líder era sempre posta em causa”.
Mas o pior para Balsemão era que alguns dos mais duros ataques ao governo da AD vinham do seu “Expresso”. “O jornal andava a matar o pai”, diz. Entre outras farpas, Marcelo chegou a escrever que “não há vergonha nenhuma que haja quem pense que Balsemão foi uma escolha infeliz ou desastrosa”. 

Foi, aliás, no “Expresso” que aconteceu um dos casos mais caricatos da vida do professor, mas que tão bem o definem. “Na secção ‘Gente’ de 5 de Agosto de 1978 surge uma estranhíssima frase, desinserida de qualquer contexto: “O Balsemão é lelé da cuca”, recorda o jornalista José Pedro Castanheira num relato sobre a história do semanário. A frase foi escrita por Marcelo Rebelo de Sousa.

Balsemão ficou banzado e mandou chamá-lo. “Eu tinha a suspeita de que que a revisão estava a trabalhar mal e fiz isso para os experimentar. Infelizmente, verifiquei que era verdade”, justificou Marcelo. “Uns dias mais tarde, em casa de Balsemão, na Quinta da Marinha, teria lugar um episódio pouco edificante, com Marcelo a pedir desculpa a Balsemão e a dizer-lhe que o via como um pai”, conta José António Saraiva no livro “Confissões de Um Director de jornal”. 

Um ministro irreverente Com Marcelo no “Expresso” a queimar o governo, Balsemão achou que se o chamasse para perto de si os danos seriam menores. Enganou-se. O analista político, mesmo dentro do governo da AD, primeiro como secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e depois como ministro dos Assuntos Parlamentares, não deixou de conspirar e, pior que isso, de tornar pública a sua desilusão com tudo o que estava a acontecer. Nas entrevistas, o ministro dos Assuntos Parlamentares admitia que a AD já tinha cometido “erros graves”, apelava a uma remodelação em público e ameaçava bater com a porta. 

Demitiu-se, mas combinou com o primeiro-ministro guardar segredo até às autárquicas para não lançar a bomba à porta das eleições.

“Apresentou a demissão quatro dias antes das autárquicas, com a promessa de nada revelar até às eleições, mas no próprio dia ou no dia seguinte a notícia estava no ‘Expresso’”, conta Balsemão, na biografia de Vítor Matos do comentador político. “O episódio marca o ponto final numa amizade de dez anos”, relata o jornalista. 
Marcelo acha um exagero a reacção do ex-primeiro-ministro. “Ele nunca me explicou objectivamente o que eu fiz. Nunca consegui perceber. Ainda hoje, quando Balsemão fala (sobre as traições), acho que é uma construção que ele fez”, diz Marcelo, na biografia da autoria do jornalista Vítor Matos. 

Balsemão, nem no “Expresso” nem no governo demitiu Marcelo, mas também nunca lhe perdoou. Nem os episódios mais sérios, nem os mais caricatos, como a história do lélé da cuca. “Uma pessoa tão inteligente não se pode salvar à conta de infantilidade. Penso que para tudo há limites”, argumenta o dono da Impresa, que já mostrou estar disposto a travar a candidatura de Marcelo. A última oportunidade do comentador mais famoso do país de vir a ter um papel relevante na política portuguesa. 

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