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Marta Soares. Sportinguista, bombeiro e ex-dinossauro

Marta Soares. Sportinguista, bombeiro e ex-dinossauro

António Pedro Santos Rosa Ramos 02/07/2015 13:45

O presidente da AG do Sporting foi sempre um homem polémico, da política aos bombeiros.

Dinossauro do poder local, bombeiro, sócio número 3142 do Sporting e presidente da mesa da Assembleia Geral (AG)do clube. Foi a este homem que coube no passado domingo anunciar a expulsão do ex-presidente leonino Godinho Lopes e a suspensão de Luís Duque, actual presidente da Liga, durante um ano, por danos à estrutura do clube. E Jaime Marta Soares fê-lo sem papas na língua: “Há situações altamente preocupantes, altamente escandalosas e que apontam para a delapidação do património do clube. Estou convencido de que o Sporting não vai deixar que a culpa morra solteira.”

No final de Fevereiro, Marta Soares, presidente da AG do Sporting desde as eleições de 2013, já se mostrara cáustico ao falar das arbitragens na primeira liga: “Alguns [clubes] têm forças alheias ao futebol. Assim se definem campeões”. Ainda assim, o seu mandato à frente da AG foi mais discreto do que o de Eduardo Barroso.

Sportinguista dos sete costados, autarca durante 40 anos e presidente da Liga do Bombeiros, Jaime Marta Soares está habituado a declarações polémicas. O pai, comerciante em Vila Nova de Poiares, adivinhou cedo que o filho que seria “um irreverente”. Antes do 25 de Abril, preferiu deixou os estudos para andar a “sujar paredes” nas campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado.

Tornou-se amigo de António Arnauth e Fausto Correia, homens de esquerda de Coimbra, e com 18 anos aderiu ao MDP/CDE. Ao mesmo tempo, fazia carreira na bola. Chegou a militar na terceira divisão nacional e representou, como guarda-redes, clubes como o Poiares, o Condeixa ou o Lousanense. Treinou um mês nos juniores do Sporting e mais tarde viria a ser vice-presidente da AG da Académica.

o dinossauro político Em 1974, tornou-se um dos autarcas mais jovens do país. Com 31 anos, foi escolhido para liderar a comissão administrativa de Poiares, depois de uma eleição feita de braço no ar num jardim da terra. A partir de 1976, ganhou todas as eleições para a câmara e sempre com maioria absoluta. Em 1979, o PPD incluiu-o nas listas à Assembleia da República como independente e, na altura, deixou-se fascinar por Sá Carneiro. Mas a passagem por Lisboa seria curta: acabou por renunciar ao mandato.

Pelo meio, ajudou a fundar a Associação Nacional de Municípios – organismo de que chegou a ser vice-presidente – e só saiu do poder local em Outubro de 2013, já com 70 anos e porque deixou de poder voltar a candidatar-se. Um mês antes, num discurso de despedida, contou como o poder local de hoje “não é o mesmo do pós-25 de Abril”. E saiu em defesa dos autarcas, rejeitando a ideia de que haja impunidade ou abusos de poder nas autarquias: “Os autarcas não são reizinhos”. No mesmo dia, acusou o governo PSD de enveredar por um caminho liberal “e não de um partido social-democrata” ao cortar salários e pensões.

João Miguel Henriques sucedeu-lhe na presidência da câmara e não tardou em anunciar que herdou uma dívida superior a 30 milhões de euros. Vila Nova de Poiares estava em ruptura financeira. “Não tenho nenhuma responsabilidade na actual situação”, respondeu Marta Soares numa entrevista ao i.

Pouco antes de deixar a câmara, em 2012, foi chamado a tribunal para defender Paulo Penedos, então arguido no processo “Face Oculta”. Confessou ao juiz que o tratava por “Paulinho”, negou que tivesse havido campanhas eleitorais em Ferraris e contou que Paulo Penedos foi sempre “medricas”.

bombeiro há 40 anos Marta Soares, que hoje preside à Liga dos Bombeiros, entrou para a corporação de Poiares a 1 de Agosto de 1962. Foi ajudante durante quase dez anos e tornou-se comandante em 1976, cargo que desempenhou até Janeiro de 2012. Em 2011 foi eleito presidente da Liga num congresso no Peso da Régua, derrotando Rebelo Marinho e substituindo Duarte Caldeira – que saiu debaixo de polémica. Marta Soares tinha 68 anos e atirou-se logo à Autoridade Nacional de Protecção Civil, “uma estrutura elitista, cheia de generais, mas sem tropas”. Nos últimos anos, as críticas têm-se multiplicado e Marta Soares já disse várias vezes que todos os ministros da Administração Interna e da Agricultura desde o 25 de Abril têm culpas no problema dos incêndios. Em 2013, no rescaldo dos fogos, acusou o governo de falta de prevenção nas florestas e contou como, durante todo o Verão, não encontrou ninguém do ministério da Agricultura no terreno para acompanhar os bombeiros. Assunção Cristas respondeu-lhe que “é fácil atirar culpas para o outro lado”.

Pouco depois de ter feito 60 anos, foi tirar o curso de Direito. Mais um afazer a juntar à longa lista de ocupações, que inclui a presidência da AG de filarmónicas, centros de convívio e aeroclubes. Ou a fundação de confrarias, como a da chanfana, que é o seu prato favorito. Marta Soares tem o brevet de piloto, foi árbitro e fundou um jornal (“O poiarense). Com tantas ocupações, sacrificou a família. Em 1993 ficou viúvo e sozinho com três filhos. Voltou a casar e teve um quarto rapaz, que estudou para actor, e com quem partilha a paixão pelo teatro. Há dez anos, numa entrevista ao “Diário de Notícias”, descreveu-se como “um homem emotivo”.
Com Rui Miguel Tovar e Rui Silva

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