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Cova do Vapor. A praia da Caparica que cai sempre bem
Caraíbas? Nada disso?

Cova do Vapor. A praia da Caparica que cai sempre bem

Caraíbas? Nada disso? Ana Brígida Clara Silva (texto) Ana Brígida (fotos) 19/06/2015 13:20

Outrora um segredo de pescadores e surfistas, a aldeia entre o Tejo e o oceano tornou-se mais popular.

Cai Bem. O nome da bebida diz tudo. Manuel Coutinho já serve dois copos ao balcão do quiosque, que também vende iscos de pesca – “casulo ganso e minhoca coreano”, avisa um cartaz –, palavras cruzadas, tabaco e o que mais houver. “Não escrevam nada que depois traga para aqui muita gente”, pede-nos, embora saiba que cada vez são mais as reportagens “e trabalhos para a faculdade” nesta primeira praia da Costa da Caparica.

Aliás, ainda guarda uma revista de surf de 2009 com uma fotografia sua e orgulha-se:“Está tudo na mesma.” De facto, está.

Desde o preço do Cai Bem à caixa de chupa-chupas na mesma posição há seis anos. 90 kg de limões “Ao fim-de-semana vêm para aqui os ciclistas do parque de campismo e enchem o balcão com seis ou sete copos”, conta. Fora isso, não há muito movimento no quiosque e ainda bem. Manuel gosta de servir os Cai Bem em copos de vidro (1 euro o copo grande, 70 cêntimos o pequeno e 6,5 euros a garrafa para levar para a praia) e lava-os e limpa-os logo a seguir. Com muita gente, tal tratamento não seria possível.



É ele também quem prepara a bebida fresca todos os dias, “com limões nacionais”, sublinha.“O ano passado fui à Malveira comprar 90 kg de limões. Eram sete da manhã e já lá estava. Qual é o maluco que faz isto?” Pelos vistos, é ele, e o Cai Bem cai-nos que nem ginjas – talvez por ser feito com ginjinha –, mesmo em jejum.

A receita foi inventada pelo seu cunhado, que esteve ali 15 anos – “até 2007” –, e começou a ser vendida no mesmo quiosque onde em tempos se faziam farturas.“Depois houve um ano em que tive de fechar isto e outras casas também começaram a fazer”, explica. Imitações. “Agora se vier à Cova do Vapor sem beber um Cai Bem aqui e sem comer uma bola-de--berlim ali, mais vale dizer que não veio cá. Além de ir à nossa praia, que continua sempre com a areia, não é como as outras da Costa.”

As famosas bolas-de-berlim (1 euro) vendem-se na Panicova, a pastelaria e padaria de fabrico próprio da zona. Além destes sítios, e já em cima da areia, o Albatroz, com peixe fresco e vista para o farol do Bugio, é outro dos pontos obrigatórios. E até há quem leve para ali o computador para trabalhar durante a semana (há wi-fi), depois de um mergulho.

BUGIO À VISTA “Tu também vens para aqui?”, pergunta-nos um amigo a passar de carro. Se a Cova do Vapor chegou a ser um segredo mais ou menos bem guardado de surfistas, pescadores e locais, nos últimos tempos tem-se tornado uma praia muito popular, principalmente aos fins-de-semana.

De tal forma que até já tem direito a um hostel, imagine-se. Por entre as casas, exemplo máximo da arquitectura vernacular, e de ruas como a Quinta Avenida ou a Avenida dos Milionários, ainda brilha a tinta azul do Bugio à Vista, o hostel que começou a funcionar há pouco tempo no espaço de um conhecido restaurante.



O site do hostel explica um pouco a história do edifício e da sua primeira proprietária, Beatriz Ferreira, “fotógrafa oficial da primeira Presidência da República em Portugal”, dizem. “Graças a ela permanecem vários registos fotográficos do Bugio à Vista, assim como da Cova do Vapor desta época”, quando o mar ameaçava destruir as casas e a vila teve de recuar para terra.

Agora, quem nos mostra os quartos é Gareth, amigo da proprietária, Amália, que comprou o restaurante para “transformá-lo neste hostel e concretizar o seu sonho”. Com quartos de madeira novinhos em folha e um terraço com um chuveiro, ideal para surfistas acabados de sair do mar, o hostel seria perfeito para passar férias na Cova do Vapor. Não fosse o preço, a 40 euros por noite.

AVENIDA DOS MILIONÁRIOS Está tudo caro e nem a Cova do Vapor escapa. Ana, proprietária do café em frente ao hostel, que também vende “Cai-Bem” – desta vez anunciado com um hífen –, queixa--se de que há poucos clientes. “Estou aqui há 34 anos e acho que isto cada vez está mais fraco. Agora começaram para aí a alugar os quartos e tem mais gente, mas mesmo assim acho que está mais fraco.”

Na Avenida dos Milionários (foram os moradores que escolheram o nome das ruas) também não há quem tenha enriquecido. Jaime Caldeira, por exemplo, tem as escadas da casa do sogro, para onde costuma ir passar temporadas, cheias de quadros seus, mas nenhum está à venda.



“Às vezes ofereço algum a um amigo que me pede ou a alguém que passa por aqui e que gosta muito”, conta. Há paisagens da Sé de Lisboa, cabeças de Cristo – “mas sou ateu”, justifica-se – e alguns desenhos feitos por miúdos locais que ali passam tardes. “Alguns são muito, perdoem-me a expressão, ordinários, mas chegam aqui e transformam-se, ficam muito concentrados a pintar.”

Apesar de ter casa em Lisboa, é ali que passa grande parte do tempo, como a sua falecida mulher tanto gostava. “Na altura nem a percebia bem, mas agora passo aqui dias e dias seguidos.”

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