2/6/20
 
 

Ensino superior. Onde estás e para onde vais? A escolha do teu futuro passa por aí

Quando era estudante, Paulo Sobral não teve grande ajuda para escolher a licenciatura. “Fiz muita calinada no meu percurso vocacional”, recorda. Os amigos do liceu fugiram à Matemática e, com receio de os perder, foi atrás deles apesar de até ter talento para os números. A indecisão levou-o a mudar de curso e a perder vários anos, mas acabou por encontrar o caminho. Hoje trabalha como psicólogo vocacional e dá aos alunos aquilo que não teve: orientação.

Não saber o que se quer da vida é comum na adolescência. Mais que isso, é o principal obstáculo para muitos alunos que, às portas do ensino secundá- rio ou superior, se vêem obrigados a tomar decisões que vão definir o futuro profissional. Quando chegam ao 9.o ou ao 12.o ano, “a maior parte não tem maturidade suficiente para perceber o que quer”, avisa o psicólogo.

Muitas decisões são impreparadas ou imaturas porque os jovens têm fraca consciência da realidade e motivações pouco sólidas. Decidir com base num ou dois critérios – como os amigos, as disciplinas ou a empregabilidade – é mais frequente do que se julga. Ou escolher a partir de “aspectos colaterais”, como a visibilidade e o prestígio da profissão. O psicólogo da Universidade de Lisboa Paulo Jesus dá o exemplo do recente boom de jovens que seguiram a investigação criminal fascinados pelas séries televisivas.

Professores, psicólogos e família são essenciais para os ajudar a seleccionar a informação que importa. Não basta pesquisar na net. É preciso sair do quarto e conhecer as rotinas de empresas e universidades.

Mas afinal quando se deve começar a pensar nas opções profissionais? As opiniões divergem. Paulo Jesus defende que o momento certo é a infância. “A educação vocacional ou a consciência do universo de carreiras e estilos de vida pode e deve começar em criança, com a família, e a partir das primeiras experiências escolares.” Embora acredite que os mais novos devam ser “estimulados vocacionalmente o mais cedo possível”, o especialista reconhece que a escolha de um estilo vocacional mais específico “deverá acontecer o mais tarde possí- vel, para haver flexibilidade e personalização”.

Paulo Sobral, por outro lado, está convencido de que não existe um momento certo. Apenas alturas em que fará mais sentido pensar no assunto, como o 9.o ano e o 12.o , quando as decisões são a sério. Para a escolha ser consciente, os alunos devem recolher o máximo de informação, afirma o psicólogo Vasco Catarino Soares, que dirige a clínica Insight-Psicologia. O primeiro passo é descobrir tudo sobre a área de estudo, as responsabilidades e as tarefas de cada profissão, bem como as hipóteses de emprego. Professores, psicólogos e família são essenciais para seleccionar o que importa.

Isso não significa que o aluno não tenha de fazer trabalho de casa e uma autoanálise ao seu percurso escolar. “Percebendo como foi o seu desempenho, interesse e motivação nas diferentes disciplinas”, explica o especialista. Os testes psicotécnicos são um contributo, mas não devem ser o único instrumento para chegar a uma conclusão. “São um meio e não um fim, e servem sobretudo para discutir e dialogar com os jovens”, avisa Paulo Sobral.

Se a informação e os especialistas são decisivos, a proactividade do estudante não é menos importante. Não basta ter o computador à frente e pesquisar na net. É preciso sair do quarto e conhecer o mundo lá fora. “Contactar com profissionais para saber como é a realidade das profissões e ouvir testemunhos de quem já foi estudante”, propõe o psicó- logo Paulo Jesus. Até porque entrar nas empresas e instituições ajuda a ter uma ideia do que são as suas rotinas: “Visitar sites é uma boa actividade exploratória, mas insuficiente. É preciso sentir a atmosfera dos locais e das profissões e fazer a pergunta: será que eu gostaria de ser isto?”

Por esta razão, escolas, universidades e empresas têm unido esforços para orientar alunos do secundário. A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), por exemplo, investe em várias actividades para os estudantes que estão a concluir o 12.o Isabel Machado, do gabinete de comunicação, conta como o Dia Aberto pode mostrar alguns dos caminhos possíveis aos alunos: durante umas horas, os futuros caloiros são convidados a visitar a universidade. “Também participamos em feiras de orientação vocacional e temos um projecto de televisão que envolve escolas secundárias.” A UTAD tem ainda uma app para potenciais candidatos, com testes psicotécnicos e informações úteis.

Já a ligação das empresas à escola é um território com muito por explorar. Mas há casos que apontam para uma nova tendência. A Nestlé, por exemplo, promove experiências de estágios – apprenticeship – destinados aos estudantes do ensino profissional no Porto e na fábrica de Avanca, em Estarreja. 

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