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Dennis Redmont. O adolescente que a Associated Press enviou para cobrir o Estado Novo

Dennis Redmont. O adolescente que a Associated Press enviou para cobrir o Estado Novo

José Fernandes Joana Azevedo Viana 27/04/2015 16:13

Chegou a Lisboa com 23 anos em 1965 mas não chegou a ver os cravos florescer nas ruas há 41 anos. “Era um pouco a minha revolução também, mas não me deixaram vir. Um ano depois vinguei-me”

Vamos almoçar!” Dennis está de volta à minúscula redacção da Associated Press na Praça da Alegria, onde os outros correspondentes estrangeiros o esperam à porta. “Já almocei, mas obrigado.”“Não, vamos almoçar!” O americano tinha chegado a Portugal há um ano. Era o mais jovem correspondente que a agência já teve. Em Nova Iorque deram-lhe um mês para aprender português enquanto fazia o turno da noite. Tinha 23 anos quando aterrou em Lisboa, em Janeiro de 1965, e agitou as águas salazaristas logo no primeiro mês – um crescendo de artigos incómodos que encontrou um dos seus picos com a notícia que escrevera dias antes de os amigos o forçarem a almoçar duas vezes. “Tens ali oito pides numa carrinha à tua espera.” Dennis não percebe porquê. Afinal os artigos que publicara nesse mês de Março de 1966 não eram os piores que já escrevera. Refugia-se na embaixada dos Estados Unidos. “Oembaixador disse-me:‘Passa esta noite na minha residência e amanhã tratamos deste assunto.’” Na manhã seguinte, George W. Anderson fala com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira, que lhe diz que Dennis não tem nada a temer, que a polícia política só lhe quer fazer “umas perguntas”.

Anderson insurge-se sobre o número de agentes que esperavam o repórter, enquanto Redmont segue para a PIDE, onde passa “um dia inteiro” a ser interrogado. A polícia quer saber quem lhe passou as informações sobre dois estudantes, um torturado na prisão, outra que engoliu pedaços de vidro para tentar suicidar-se. “Fora uma fonte do hospital e eles queriam que eu confirmasse quem. Mas eu só lhes disse: ‘Se é mentira e quiserem um desmentido, a AP publica-o já amanhã. Caso contrário, não há razão para eu estar aqui.’”Mas ali permanece várias horas até o próprio Silva Pais, director-geral da PIDE, entrar de rompante na sala de interrogatórios. “Percebi que não me iam expulsar quando ele entra e diz: ‘Não percebo porque é que os jornalistas estrangeiros dizem tão mal do nosso país quando somos tão hospitaleiros.’ Se ele me fosse expulsar tinha-o feito logo ali e o facto é que Portugal dependia do apoio americano na ONU contra a URSS. Mas se eu já era escutado e monitorado, percebi que isso só ia piorar.”

Quando Spínola foi forçado a fugir para o Brasil por causa do golpe falhado de 1975, Redmont comprou um bilhete no mesmo avião para o entrevistar nos ares antes de o estatuto de exilado o calar

Gralhas como “monitorado” são meros salpicos no português quase perfeito de Redmont, nascido em Washington, criado na Argentina, estudante em Nova Iorque e estrangeiro numa ditadura quando ainda mal era adulto. Passou quase três anos cá até a AP – em parte embalada pelo incidente que o repórter comunicou ao director da agência numa carta “enviada por outra via, porque dos correios não passaria” – o ter mandado para Roma em 1967.

Quando estalou o 25 de Abril estava no Rio e pediu para ir de imediato para Lisboa. “Conheço aquela gente toda!” A resposta do editor foi que era correspondente na América Latina, que havia outro em Portugal. Em 1975 vingar-se-ia por ter perdido a revolução que “também era um pouco dele”.

Cinquenta anos volvidos, estamos na York House, um convento tornado hotel de charme no coração das Janelas Verdes, onde Dennis fica com a mulher sempre que vem visitar o filho, que vive e trabalha cá há 20 anos. Durante os retratos, o fotógrafo pede-lhe que esteja quieto, mas Dennis anseia por nos falar da “fotografia histórica do Eduardo Gageiro ou do João Ribeiro”, já não se lembra bem, que ilustrou o artigo que escreveu em Maio de 1967, quando Snu Abecassis, das Edições Dom Quixote, aproveitou a distracção da PIDE por causa da vinda do Papa Paulo VI a Fátima para trazer o “poeta vermelho russo”Yevgeny Yevtuchenko a Lisboa. “Ele foi fazer um recital ao Parque Mayer e o fotógrafo usou este sol único de Portugal e fez da cara de Yevtuchenko o Sol, a cabeça dele à frente da estrela a irradiar luz e poesia a toda a volta.”

Depois da visita às instalações da PIDE, Dennis levou umas horas a perceber a obsessão com aquele artigo em particular. Afinal eram apenas dois entre centenas de estudantes anti-regime presos e torturados. Só que esta notícia apareceu no “Le Monde”, que era lido pela maioria dos opositores e estudantes, e originou protestos que a PIDE quase não conseguiu controlar.

Quando aterrou na Praça da Alegria em 1965, e percebeu as barreiras que ia enfrentar, descritas por Joaquim Letria e Renato Boaventura, os dois únicos colegas de redacção, Redmont começou a agrupar todas as comunicações oficiais do governo de Salazar sobre as mortes de soldados portugueses nas colónias. “Tínhamos um mapa na parede onde marcávamos cada sítio e o número de mortos: 20 soldados no Huambo, pin, 30 em Bissau, pin... Na altura decorria a guerra do Vietname e o que percebi foi que havia tantos portugueses mortos no Ultramar como americanos mortos no Vietname, só que ninguém falava disso. Chamei-lhe a ‘guerra silenciosa’.”E assim passou a estar marcado.

“Só que ainda não havia isto”, diz a apontar o tablet e o telemóvel, “e então a polícia ainda não conhecia a minha cara”. O anonimato físico foi o que o ajudou pouco depois, quando o general Humberto Delgado era morto na fronteira com Espanha, ao pé de Badajoz. Redmont contactou o advogado de Delgado, “ainda um desconhecido”. Mário Soares passou na Praça da Alegria para irem de carro até ao local do crime. E Dennis foi o primeiro a dar a notícia ao mundo.

Em mês e meio, o jovem lançou pedrada atrás de pedrada às águas do charco que Salazar queria sem ondas. Mas hoje faz questão de lembrar que escreveu sobre tudo, dos casos de estudantes levados ao Tribunal da Boa Hora à visita do Papa, passando pelo terceiro lugar que a selecção das quinas alcançou no Mundial de Futebol de 1966 em Inglaterra, até hoje a sua melhor classificação. 

A sorrir lamenta que a APnão o tenha deixado viver a Revolução, mas com um brilhozinho nos olhos recorda como serviu a vingança. Pega no tablet para procurar as datas específicas:“Qual era o primeiro nome do general Spínola?” António. E rapidamente estamos na página da Wikipédia que lhe é dedicada, onde Dennis lê a passagem sobre o golpe falhado de 11 de Março de 1975. “Estava no Rio e percebi que ele ia fugir para lá, mas sabia que, se ele pedisse asilo político, nunca mais poderia falar com um jornalista. Então comprei um bilhete do Rio para Buenos Aires no mesmo avião em que ele voava. Havia um monte de jornalistas na porta de embarque à espera que ele saísse, que ficaram muito intrigados ao ver-me embarcar.”

Spínola não saiu e Redmont foi encontrá-lo em executiva, cabeça recostada e uma máscara do sono sobre os olhos. “Sentei-me ao pé dele, apresentei-me e começámos a falar”, em trânsito para Buenos Aires, no voo em que a derradeira conversa ainda era possível. Quando aterraram na capital argentina Spínola foi obrigado a pedir asilo à embaixada do Brasil. Voltou de imediato para o Rio e nos anos seguintes não pôde falar com jornalistas. Redmont foi o único a publicar uma entrevista com o homem do momento, disseminada por todo o mundo. E a acompanhá-la o retrato que fez do general sem que ele desse conta. “Quando o vi com aquela máscara fotografei-o logo antes de lhe falar. O homem do monóculo que tinha acabado de falhar um golpe de Estado estava ali, com os dois olhos tapados. Não podia deixar escapar a ironia.”

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