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Afinal onde é que estava Sampaio da Nóvoa no 25 de Abril?
Sampaio da Nóvoa

Afinal onde é que estava Sampaio da Nóvoa no 25 de Abril?

Sampaio da Nóvoa António Cotrim/Lusa Ana Sá Lopes 25/04/2015 12:24

Tinha 19 anos e passou dois dias sem dormir. Juntou-se à Luar, por influência de Zeca Afonso

E no mesmo ano casou-se sem contar nada aos pais, depois de ter passado a noite nas barricadas do 28 de Setembro.

Em 25 de Abril de 1975, António Sampaio da Nóvoa tinha 19 anos. Aluno do Conservatório – depois de dois anos a estudar Matemática em Coimbra e a jogar futebol na Académica – vivia no Bairro Alto mas na noite de 24 para 25 tinha ido dormir a casa dos pais, em Oeiras. “A minha mãe acordou-me muito cedo a dizer que estava a acontecer qualquer coisa e ninguém podia ir para Lisboa”, conta ao i. António foi para Lisboa.

Viveu as primeiras horas da manhã “com perplexidade e depois com euforia” a partir do momento em que foi percebendo a natureza do golpe militar. Deambulou sozinho, ia encontrando pessoas, assistiu ao assalto à Censura: “O que me chocou naquilo foi deitarem fora os dossiês porque aquilo tudo devia ser para guardar” – esteve na manifestação em frente à PIDE, um dos feridos estava mesmo a seu lado e depois mais tarde na libertação dos presos em Caxias. “Estive dois dias sem dormir, sem vir a casa. Os meus pais estavam preocupadíssimos”.

Mas a imagem desse dia que mais o “impressionou” passou-se no Largo da Misericórdia: “Estava um homem, devia ser um Pide, deitado no chão todo ensanguentado e 200 pessoas à volta a insultá-lo. E está um militar sozinho com uma arma a protegê-lo”. O militar “a cumprir o dever” perante o homem “que não tinha sido julgado” é um “momento muito forte” do 25 de Abril de 1974 do jovem Sampaio da Nóvoa.

A partir daí, Nóvoa segue o estado de “euforia generalizada que se viveu”. Junta-se à Luar [organização fundada na ditadura por Camilo Mortágua, Palma Inácio e Emídio Guerreiro, que depois viria a ser presidente do PSD], através de Zeca Afonso, de quem se torna amigo. “A única organização a que estive ligado, sem de facto nunca ter assinado ficha de militante, foi à Luar. Por via do Zeca e de um conjunto de pessoas fui a muitas sessões de esclarecimento, cantorias, reuniões com trabalhadores”. Para Nóvoa esse foi um “momento romântico, de grande ingenuidade, que marcou muito” a sua vida. Na Luar – “uma coisa completamente desorganizada, escrevíamos textos, achávamos que íamos salvar o mundo” – ficou amigo, além de Zeca Afonso, do advogado Soveral Martins e de Ademar Pereira dos Santos.

Mas no meio do “turbilhão” revolucionário, Sampaio da Nóvoa tomou uma decisão revolucionária para um miúdo de 19 anos. Decide casar-se com a sua actual mulher, Lénia. Tinham sido namorados na escola primária, voltam a encontrar-se naquele ano louco e três meses depois estavam casados. Tinham passado a noite juntos nas barricadas do 28 de Setembro – que foram a 29 de Setembro – quando às 8h30 da manhã, Lénia diz a António: “Não te esqueças que temos casamento marcado para daqui a bocado”. Correram para o cartório. Não tinham alianças nem testemunhas nem tinham contado nada aos respectivos pais.

Evidentemente, os pais não acharam graça ao casamento clandestino-revolucionário. Mas o que queria dizer o candidato presidencial quando, no congresso da cidadania, disse “devo a Abril tudo o que sou”? “Eu estava a pouco tempo de ir para a tropa. E andava a pensar: aceito? Fujo para o estrangeiro? Estávamos em guerra e os meus pais viviam um drama com isso! O 25 de Abril deu-me a liberdade, deu-me tudo, tenho um enorme reconhecimento por aqueles homens que fizeram aquilo”.

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