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Revolução. O 25 de Abril está em 1159 ruas

Revolução. O 25 de Abril está em 1159 ruas

22/04/2014 00:00
A data da Revolução é o topónimo mais frequente nas ruas do país. O capitão Salgueiro Maia é o protagonista mais nomeado

Encontram-se em becos, largos, ruas, alamedas e avenidas. Nas maiores cidades como nas aldeias mais pequenas: as referências ao 25 de Abril e àqueles que protagonizaram a Revolução estão espalhadas pelas ruas de Portugal. O levantamento feito pelo i concluiu que os topónimos referentes ao golpe que derrubou a ditadura superam os 1500 por todo o país. O nome "25 de Abril" já ultrapassou "clássicos" da toponímia portuguesa como a República ou o 5 de Outubro.

A referência à data da revolução é, de longe, a mais popular de todas as evocações - o i contou 1159 topónimos "25 de Abril" em todo o país. São 151 avenidas, nove alamedas, 15 bairros, 17 becos, 126 largos, 25 praças, 27 pracetas, 634 ruas, 125 travessas. Uma contabilidade em que entram ainda calçadas, caminhos e campos, estradas, jardins, urbanizações, veredas e uma viela, parques e passeios. Um rossio e quatro rotundas. E uma ponte. Não é raro que, na mesma localidade, o nome se repita em dois ou três topónimos (rua, travessa e beco, por exemplo). Veja-se o caso de Gondomar, onde há uma Avenida 25 de Abril e, próximo, uma Rua 25 de Abril. Ligadas por um passeio chamado... 25 de Abril.

Curiosamente, a cidade de Lisboa, grande palco dos acontecimentos de 1974, é das mais comedidas. Na capital há uma Praça 25 de Abril, assim nomeada em 1999, por ocasião dos 25 anos da Revolução. Há uma razão para isso. Teresa Sancha Pereira, autora de um trabalho apresentado às quartas Jornadas de Toponímia da capital - "A Revolução de Abril na Toponímia de Lisboa e nos Concelhos Limítrofes" - sublinha que "enquanto em Lisboa os topónimos não são repetidos, a mesma designação é atribuída repetidas vezes nas diferentes freguesias [dos concelhos limítrofes], existindo mesmo a preocupação de, na mesma data, se atribuir a mesma designação com diferentes classificações: avenida, travessa, rua, praça, largo". É assim que Loures conta 32 topónimos "25 de Abril" e Almada 15.

Salgueiro Maia é o mais nomeado Sintomático é o nome que se segue: a seguir à data, é Salgueiro Maia o nome mais homenageado na toponímia portuguesa. O capitão de Abril, que morreu em 1992, conta 156 referências pelas ruas do país - é de muito longe o mais referenciado dos militares de Abril. Além do óbvio protagonismo do capitão que, na madrugada de 25 de Abril de 1974 saiu de Santarém em direcção ao Terreiro do Paço, há outro factor a considerar - em muitas localidades (como Lisboa) não é permitido consagrar na toponímia o nome de personalidades vivas.

As Forças Armadas são outro topónimo relevante (também em versão Movimento das Forças Armadas, MFA ou Aliança Povo MFA), repetindo-se 132 vezes. As referências a cravos, sob diversas formas, também ultrapassam a centena - 108 no total. Já o topónimo "Capitães de Abril" surge referenciado 62 vezes.

Otelo Saraiva de Carvalho dá o nome a quatro ruas (em Vale de Vargo, Porto Alto, Grândola e Lagoinha). Vasco Lourenço a uma rua em Castelo Branco e a uma travessa em Óbidos.

No total, o i contabilizou 1623 referências à Revolução. E o resultado não é exaustivo - por exemplo, o topónimo Liberdade, bastante numeroso em Portugal, é em muitos casos evocativo do 25 de Abril. O levantamento foi feito a partir de uma base de dados dos CTT (referindo-se, assim, a artérias com código postal, eliminando as duplicações que resultam de um topónimo poder ter mais de um código).

O Estado Novo na Toponímia Em Lisboa, a primeira decisão da Comissão de Toponímia, ainda em 1974, passa por eliminar as referências ao antigo regime do nome das ruas (ver texto ao lado). Foi assim um pouco por todo o país, mas não totalmente - prova disso é que ainda hoje há referências a Salazar. No Vimieiro, terra natal do antigo presidente do Conselho de Ministros, há uma avenida que leva o nome "Doutor António de Oliveira Salazar". Em Carregal do Sal, também no distrito de Viseu, há uma rua com o mesmo nome. E em Olival (Vila Nova de Gaia) é uma alameda que leva o nome do ditador. Muito mais a sul - caso bastante mais raro -, no concelho de Odemira, a freguesia de Santa Clara-a-Velha tem uma praça Dr. Oliveira Salazar. No total, as referências toponímicas a Salazar ascendem ainda a mais de uma dezena.

Lisboa. A revolução foi “comedida” nos topónimos da capital

Comissão de Toponímia decide, ainda em 74,
retirar “nomes afrontosos”

Em Lisboa, palco dos principais acontecimentos do 25 de Abril, a primeira decisão camarária sobre toponímia passa por eliminar os nomes relacionados com o antigo regime, mas desde logo com o cuidado de não mudar excessivamente os nomes das ruas. A Comissão Municipal de Toponímia de Lisboa reúne em Novembro de 1974 e decide pela “eliminação dos nomes afrontosos para a população pela sua ligação ao antigo regime”. Mas sublinhando a “ponderação dos prejuízos que da substituição de topónimos possam resultar para os munícipes, os serviços da câmara e os serviços públicos e particulares”. Nesse sentido, ainda nessa primeira reunião, é decidido que a Avenida Marechal Carmona passa a Avenida General Norton de Matos, a Avenida 28 de Maio dá lugar à Avenida das Forças Armadas. Salgueiro Maia entrará na toponímia lisboeta no ano da sua morte, em 1992. O topónimo “25 de Abril” fica consagrado em 1999, na passagem dos 25 anos da Revolução.
 No 25 de Abril “não houve uma revolução na toponímia como na 1.a República, que tentou abolir tudo o que fossem referência a motivos religiosos e à monarquia”, diz ao i o olisipógrafo Appio Sottomayor. O Estado Novo também não faz grandes mudanças, mas avança com a “reposição de uma série de topónimos religiosos” – foi assim que, por exemplo, a Rua das Portas de Santo Antão passou a Rua Eugénio dos Santos após a instauração da República, e novamente a Portas de Santo Antão (o nome actual) com o Estado Novo. Mas o antigo regime não vai muito mais além: “O Estado Novo não foi frenético a dar nomes de ruas a pessoas do regime. Por exemplo, nunca houve em Lisboa uma rua ou avenida consagrada a Salazar. Deram o nome à ponte, mas não a qualquer rua ou avenida.” Com o 25 de Abril também não houve “uma grande febre” de substituição de nomes: “Foram bastante comedidos.”
Teresa Sancha Pereira, autora do estudo “A Revolução de Abril na Toponímia de Lisboa e nos Concelhos Limítrofes”, também sustenta que as alterações toponímicas na capital estiveram longe de constituir uma revolução. Se num primeiro momento visaram “eliminar indícios referentes ao regime do Estado Novo”, seguiu-se-lhe “uma nova dinâmica, esta mais lenta, trazendo para as ruas da cidade nomes, quer de personalidades rejeitadas pelo regime anterior, quer de personalidades que combateram pela democracia e pela liberdade”.

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