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Carolina, duas vezes vítima de abusos, tem uma casa nova

Carolina, duas vezes vítima de abusos, tem uma casa nova

23/06/2014 00:00
Reportagem do i acelerou a atribuição de uma casa à família. Apesar da urgência e de haver um processo-crime a decorrer, o pedido estava pendente há mais de um ano

O Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), tutelado pelo Ministério do Ambiente, entregou ontem as chaves de uma nova casa à família de Carolina, a adolescente que, no espaço de um ano, terá sido por duas vezes vítima de agressões e violência sexual por parte de um grupo de rapazes, e que esteve no centro de uma reportagem publicada no i a 27 de Maio. O i recebeu o primeiro contacto a indicar que tinha sido finalmente encontrada uma casa para a família logo dois dias depois da publicação da história: as chaves só agora foram entregues porque foi necessário fazer obras no apartamento.

Responsáveis do programa Escolhas - com projectos destinados a crianças e jovens oriundos de contextos socioeconómicos mais vulneráveis e que está sob a tutela de Pedro Lomba, secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional - também acompanharam o processo e irão apoiar a integração da família no novo bairro.

O pedido de uma nova casa, longe do Laranjeiro, Corroios, onde vivem os supostos agressores, tinha sido feito em 2013, logo depois de ser aberto um processo--crime contra os alegados responsáveis pelas agressões e tentativa de violação e também contra a escola onde todos estudavam por omissão de auxílio a Carolina. Apesar de a carta da família explicar que havia um processo-crime a decorrer, que era um caso urgente, que os pais estavam desempregados e a filha continuaria a ser vítima de insultos e de ameaças no local onde viviam, o instituto apenas tinha respondido que o pedido se encontrava em lista de espera. Antes de a casa ser atribuída, Carolina viria a ser novamente vítima de abusos sexuais e agressões por alguns dos mesmos rapazes, a 19 de Abril de 2014. Só depois desse episódio, e um dia depois de o i ter enviado perguntas sobre o inquérito-crime que corre no Ministério Público de Almada à Procuradoria-Geral da República, três dos seis supostos agressores de Carolina (os maiores de 16 anos) foram detidos: ficaram em prisão preventiva a 22 de Maio.

Durante esse período, os pais só não mudaram de casa por não terem familiares a viver noutras zonas do país e por falta de condições económicas. Sobrevivem com 360 euros de rendimento social de inserção (RSI): o pai, produtor musical, não tem trabalho; a mãe perdeu um curso do IEFP por faltas porque, depois do alegado primeiro episódio de abusos, precisou de procurar uma nova escola onde a adolescente pudesse estudar sem estar em contacto com os supostos agressores e de a acompanhar nas idas ao hospital e à pedopsiquiatra. O estado psicológico de Carolina, que hoje tem 15 anos, não permite que esteja sozinha.

Novos dados revelados pelo i na reportagem "Carolina, 15 anos, voltou a ser vítima de abusos. Os alarmes soaram, mas ninguém fez nada" também levaram a Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) a reabrir o processo disciplinar ao Agrupamento de Escolas Professor Ruy Luís Gomes, do qual faz parte a escola do Laranjeiro (Almada) onde estudava a adolescente. Os detalhes terão levado a IGEC, sob a alçada do Ministério da Educação, a regressar ao terreno para investigar se houve negligência por parte da directora, dos professores e/ou funcionários da escola no acompanhamento da vida escolar da aluna e no tratamento dado ao caso depois do alegado primeiro episódio de agressões e abusos, em Abril de 2013.

 

Bloggers também querem ajudar

Solidariedade A história de Carolina motivou uma onda de solidariedade e indignação na blogosfera. No caso de as entidades oficiais não terem dado uma resposta sobre o pedido de uma casa, já havia gente disponível a oferecer uma casa provisória à família para que a Carolina pudesse recomeçar, o quanto antes, numa nova zona do país. Mas apareceram outro tipo de ofertas e de sugestões: há quem queira ajudar os pais a encontrar emprego, quem queira dar uma nova mobília de quarto à Carolina, oferecer--lhe uma mudança de imagem ou fazer donativos em dinheiro. As ofertas foram feitas através do email do i, 
do Facebook e das caixas de comentários de alguns blogues que divulgaram a história.
 
Blogues A história foi replicada em pelo menos cinco blogues, alguns deles dos mais lidos do país: “O Blog do Desassossego”, o “Quadripolaridades”, o “Aventar”, o “A Pipoca mais Doce” e o “Cocó na Fralda”. Só a Liliana, psicóloga de profissão, e autora do “Quadripolaridades”, chegaram em poucas horas cerca de 700 emails. “A Carolina podia ser a filha de todos nós, podia ser eu quando era miúda ou a minha filha porque hoje já sou mãe. Acho que foi por isso que tanta gente se ligou à corrente e a história acabou por se tornar viral”, contou ao i a 3
de Junho. À caixa de correio chegaram propostas concretas “como uma casa ou um emprego”, ou a sugestão de “abertura de uma conta--poupança para a Carolina”. Houve também quem sugerisse que cada um desse um retalho de tecido para fazer uma saia que fosse “um símbolo da luta contra o bullying ou da violência contra as mulheres”, explicou Liliana,  convencida de que não seriam “apenas intenções”. Ainda hoje, quase um mês depois da publicação da reportagem, continuam a chegar emails a perguntar o que se pode fazer para ajudar a adolescente e a família.

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