16/12/18
 
 
Alpoim Calvão. Um marinheiro contra a corrente

Alpoim Calvão. Um marinheiro contra a corrente

30/09/2014 00:00
Morreu um dos oficiais portugueses mais condecorados, que esteve sempre do lado oposto da barricada no 25 de Abril

O comandante Guilherme Almor de Alpoim Calvão, que concebeu e comandou a operação Mar Verde, a invasão da Guiné-Conacri, no final de 1970, faleceu ontem aos 77 anos, vítima de doença prolongada.

Os seus detractores apelidavam-no de fascista por defender o regime deposto a 25 de Abril. Os seus apoiantes defendiam-no pelo heroísmo na frente de combate, pela honra e lealdade, virtudes que consideram não ter ideologia.

Nasceu em Chaves em 1937. Frequentou a Escola Naval, fez o Curso de Marinha e esteve em várias frentes de combate na guerra de África.

Era detentor das mais altas condecorações militares de Portugal, conquistadas ao longo de 18 anos de serviço efectivo como oficial da Marinha Portuguesa. Destacou-se como militar operacional e como um dos principais responsáveis nas guerras de África e, depois do 25 de Abril de 1974, pela tentativa de golpe de Estado de 11 de Março de 1975.

25 de Abril 1974 Calvão recusou-se a aderir à revolução do 25 de Abril de 1974, por não ter sido esclarecido o destino a dar às gentes e aos territórios portugueses de África.

Sondado pelo então capitão de mar e guerra Pinheiro de Azevedo para aderir ao Movimento das Forças Armadas, perguntou-lhe:

"E o Ultramar, como é?"

"Respondeu-me que era uma questão de autodeterminações, achei isso vago e insisti. Claro que eu achava que as democracias são os menos maus dos regimes, mas queria garantias sobre o Ultramar. Como ele não saiu das autodeterminações, pedi-lhe que não contasse comigo", escreveu na sua biografia.

Mar Verde Tinha 33 anos quando liderou as forças portuguesas que invadiram Conacri para derrubar Sekou Toure e libertar cerca de três dezenas de presos portugueses, numa arrojada operação naval denominada Mar Verde.

Costa Gomes abominava-o. Qualificou mesmo a invasão de Conacri como um "desastre", que deixou Portugal sob a mira negativa dos restantes países nas Nações Unidas.

A biografia "Honra e Dever", de Rui Hortelão, Luís Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa, revela a sua improvável amizade com Otelo Saraiva de Carvalho e o seu parentesco afastado com o líder histórico do PAIGC, Amílcar Cabral, devidamente atestada por estudos genealógicos.

O livro dá conta dos planos para a execução da Operação Mar Verde, que recebeu imediatamente a bênção do presidente do Conselho, Marcello Caetano.

Calvão recorda que, sem sequer esperar que terminasse a sua exposição, o presidente do Conselho aprova a operação dando a sua autorização verbal, a ser transmitida ao general Spínola, com a recomendação expressa de que não deixassem no terreno quaisquer vestígios que pudessem ligar aquela acção aos portugueses.

Na despedida, Calvão volta-se para o presidente do Conselho e perguntou: "Se alguns dos objectivos propostos fracassarem e só conseguirmos libertar os soldados portugueses presos, valeu a pena?"

Sem qualquer hesitação, Marcello Caetano responde: "Se só se conseguirem libertar os prisioneiros já valeu a pena."

Depois da Revolução de Abril, Alpoim Calvão envolveu-se no 11 de Março de 1975 para contrariar a "deriva comunista" e tornou-se o líder operacional do Movimento de Libertação de Portugal (MDLP), aliado do demissionário Presidente da República e general António de Spínola.

Em Julho de 2010, na cerimónia do Dia do Fuzileiro, a Marinha "acertou contas" com o operacional que comandou a operação Mar Verde na guerra da Guiné.

Na ocasião recebeu a "única medalha que ainda não detinha" das mãos do comandante do Corpo de Fuzileiros.

"Acertámos contas com a justiça", que "levou 41 anos a ser feita com a imposição da Medalha de Comportamento Exemplar", declarou na ocasião o contra-almirante Luís Picciochi, na Escola de Fuzileiros (Vale de Zebro, Barreiro).

Condecorado e castigado Calvão ostentava na sua brilhante folha de serviços distinções como a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito - a mais alta condecoração portuguesa - e duas cruzes de guerra, entre diversas outras. Mas também algo inédito na carreira de um militar - uma ordem de serviço que simultaneamente o condecorava, punia e transferia para a frente de combate, no final da década de 1960.

"A razão próxima foi ter sido incorrecto com o ministro da Marinha, Manuel Pereira Crespo, a longínqua ter recusado tirar a punição a um oficial", recordou Calvão aos jornalistas nessa cerimónia.

O ministro disse-lhe que soubera do caso e tinha recebido a visita da mulher do tenente castigado, uma senhora que se encontrava em adiantado estado de gravidez e que na sua presença implorara em favor do marido, queixando-se do rigor do castigo. Era pois condoído pela situação da senhora que lhe pedia que revisse o castigo aplicado ao oficial.

Inflexível, Calvão respondeu-lhe:

"Mas o que quer o senhor ministro que eu faça, não sou o responsável pela condição da senhora! Não fui eu que a engravidei."

A punição foi aplicada perante "2000 homens formados", na parada da Escola de Fuzileiros.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×