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Pedro Martins. "Quando estávamos bem-dispostos, éramos fabulosos"

Pedro Martins. "Quando estávamos bem-dispostos, éramos fabulosos"

09/05/2014 00:00
O treinador do Marítimo viaja ao passado para recordar o ano em Guimarães sob a orientação de Quinito. Martins, único técnico a bater o Benfica na Liga, fala ainda sobre as apostas em jovens da equipa B e o fim do ciclo na Madeira

Recorda com saudade o ano em que vestiu a camisola do V. Guimarães, ao lado de jogadores como Pedro Barbosa e Zahovic. Aposta de Quinito para fazer esquecer Paulo Bento, saltou para o Sporting na época seguinte. De avançado a médio defensivo, acabou a carreira no Alverca e passou a adjunto de Couceiro. Pedro Martins tinha tudo planeado, e com naturalidade chegou a treinador. Depois de quatro anos no Marítimo, onde levou a equipa à Europa e apostou em 30 jovens da equipa B, decidiu que o ciclo chegou ao fim. Na semana em que acaba a Liga, o i falou com o único treinador a vencer o campeão Benfica. Aos 43 anos, Martins não sabe ainda qual será o seu próximo desafio profissional.

Jogou no Feirense, o clube da sua terra, e o último na Liga só com portugueses (89/90). O espírito da equipa era diferente?

Antes dessa altura, o Feirense não tinha profissionais. Muitos de nós trabalhavam, outros estudavam e, portanto, o clube não tinha um ambiente profissional como a maioria das equipas. Era mais uma família, um grupo de jogadores que se conhecia muito bem e, como deve calcular, era bem diferente de um balneário profissional. O ponto alto foi o ano em que subimos, ninguém dava nada por nós. Mas começámos muito bem e fomos primeiros da 1.ª à última jornada.

Jogava como avançado. Quando passou para médio defensivo?

Fiz a formação toda como ponta-de-lança. Quando a equipa estava a ganhar, eu vinha para o meio, já com funções de meio-campo ofensivo. Quando passei definitivamente para médio foi com o Álvaro Carolino. Veio treinar o Feirense logo após a nossa descida de divisão, começou a utilizar-me a médio defensivo e daí nunca mais saí. E penso que ele estava certo porque, de facto, é a posição onde, de acordo com as minhas características, eu poderia singrar. Como avançado, não atingiria o nível que atingi.

Depois o V. Guimarães. Como era ser jogador do Quinito?

(risos) Eu era jogador do Vitória, como deve calcular. Ele era de Espinho, chegámos a defrontar-nos várias vezes, conhecia bem o meu trabalho e foi-me buscar. Só lhe tenho a agradecer, apostou em mim e fizemos uma época brilhante.

Quinito tem uma postura muito diferente do habitual no mundo do futebol. Como jogadores sentiam isso, o discurso dele era diferente?

Completamente. O tratamento que havia era muito distinto do que tinha antes. O Quinito era e continua a ser uma pessoa sui generis, única no futebol e, portanto, na altura mudou um bocadinho as mentalidades do jogo e dos próprios atletas. Nesse aspecto, fez a diferença.

Recorda algum episódio marcante?

Vou contar uma história de quando fomos jogar a Belém. As equipas do João Alves, na altura, eram fortes, e nós estávamos a passar uma fase complicada, inclusive suspeitávamos que o Quinito pudesse fazer ali o último jogo. Foi na véspera da passagem de ano. Lembro-me de o Quinito abrir a sua malinha e tirar uma garrafa de champanhe e copos. Disse que acreditava tanto naquilo que fazíamos e na nossa qualidade que ia abrir o espumante porque sabia que íamos ganhar o jogo. Abriu a garrafa, evidente que só bebemos um bocadinho... e ganhámos o jogo e bem. São passagens à Quinito (risos).

Aprendeu muito nesse ano?

Foi um ano especial para um jovem que vem da II Divisão e, de um momento para o outro, assume um lugar que era do Paulo Bento (saiu para o Benfica). Não foi fácil. Correu tudo maravilhosamente bem, fiz uma grande época, o Vitória também, atingimos a Taça UEFA. Havia o Pedro Barbosa, o Zahovic, jogadores de grande qualidade, o Gilmar, o Ziad, o Quim Berto, o José Carlos. Quando estávamos todos bem-dispostos, éramos fabulosos. A equipa, inspirada, era um prazer de ver.

Em dois anos passa do Feirense para o Sporting. Ainda se lembra do dia em que chegou a Alvalade?

O Sporting tem uma grandeza enorme. Lembro-me de naquele momento, quando entro as portas de Alvalade, sentir que já tinha crescido muito como jogador. Isto é, ao entrar aquelas portas tenho de acelerar o meu processo e crescer rapidamente para jogar ao nível dos meus colegas. Disso não tenho dúvidas, fez com que eu crescesse muito mais.

Apesar da concorrência de Oceano e Vidigal, acaba por ser titular. Quem o impressionou mais no Sporting?

O Oceano é um amigo desde o início, um verdadeiro capitão, aprendi muito com ele. Depois, a qualidade do Carlos Xavier - tecnicamente era um jogador evoluidíssimo, como poucos. O P. Barbosa, o Sá Pinto, a qualidade do Iordanov, enfim, tínhamos um grupo de grande qualidade. Na altura era um Sporting diferente do habitual, de trabalho, de colectivo forte, não tinha grandes estrelas, mas tinha um grupo de jogadores que se dedicava de corpo e alma ao clube.

Depois joga quatro anos no Alverca, onde acaba a carreira e passa a adjunto de José Couceiro.

Tenho de dividir essas épocas em dois ciclos. Nos dois primeiros anos tínhamos uma equipa muito jovem, apareceram jogadores como o Mantorras, o Ricardo Carvalho, e deu um prazer tremendo. Nos últimos dois tive uma lesão, parei quatro ou cinco meses, e os níveis de motivação já não eram os ideais. Na altura reuni com o Couceiro e transmiti-lhe que não fazia sentido continuar porque já não me sentia motivado. Ele não permitiu que eu saísse, achava que era importante para o grupo.

Já tinha planeado ser treinador?

Desde os 29 anos que tinha começado a tirar os cursos. Acho até que nessa altura estava a terminar o III nível. Quando o Couceiro me convidou, disse-lhe: "Agradeço imenso, vou com todo o prazer e ser-te-ei leal até ao fim, mas quero dizer--te que a minha vontade no futuro é agarrar esta profissão como treinador principal." Ele sabia que, mais tarde ou mais cedo, iria seguir o meu caminho.

Depois vem o FC Porto numa época conturbada. Já tinha passado por isso como jogador. Ajudou?

A fasquia estava muito elevada devido ao percurso feito com o Mourinho. O Del Neri começou mal, é evidente que a exigência era muito maior e as pessoas pensavam que era possível repetir os dois anos anteriores. Mas há ciclos e ciclos, e tinha terminado esse do José. Tinham de perceber que era preciso algum tempo. As massas e o próprio futebol em Portugal não entendem esse aspecto.

Já como treinador principal, dá o salto da equipa B do Marítimo para a principal. Como foi essa passagem?

Recordo-me de que a equipa B estava em penúltimo, faltavam oito jogos e as coisas não estavam fáceis. Conseguimos a manutenção, tivemos sete vitórias e um empate. Tínhamos 19 pontos quando cheguei, acabámos com 41 e foi extraordinário. Havia um grupo com uma cultura e ambição muito grande, muitos deles fazem hoje parte da equipa A. Aprendi muito com eles e todos nós crescemos muito até chegarmos onde chegámos.

Numa entrevista recente disse que tinha lançado 28 jogadores da equipa B. A que se deve isso?

Não estou a falar em lançamento, são apostas. Na altura da entrevista eram 29, entretanto apareceu o Nuno Rocha. Eu não falo em lançamentos, porque meter um jovem cinco minutos em determinados jogos vale o que vale. Falo em apostar na verdadeira concepção da palavra. Foram 30 jogadores, é um facto.

...

Repare, o plantel tem 17 jogadores que subiram da equipa B para a A. Portanto, chegando ao quarto ano e tendo 17 jogadores da equipa B é algo incomum, não acontece em mais lado nenhum, suponho eu.

Heldon, que era suplente no Fátima, chegou a titular do Sporting. Casos destes dão-lhe orgulho?

São tantos casos de sucesso... O Sami, que não jogava no Fátima com o Rui Vitória, veio para a equipa B e depois transitou comigo para a A e fez uma época fantástica. O Heldon é um orgulho. Quando ele sai, dois dos três melhores marcadores são do Marítimo. Descobrimos o Derley na Série C brasileira e, felizmente, tem tido um rendimento fabuloso, melhor é impossível. Por exemplo, o Rúben Ferreira, quando cheguei à equipa B não jogava. O crescimento do João Diogo, do Bauer, enfim, há muitos. O Nuno Rocha, o Alex Alves não jogava na B e subiu comigo porque acreditava no valor dele.

Quem vai dar o salto brevemente?

O Rúben - como lateral esquerdo, tem um potencial enorme. O Sami, que acaba contrato, e sei que há muita gente interessada, é um atleta de grande qualidade e está a precisar de novos desafios para evoluir. O Derley e o Danilo, o N. Rocha teve um crescimento absolutamente fabuloso e, se continuar desta forma, não sei onde vai chegar. Podem perfeitamente jogar num grande.

O seu trabalho tem sido elogiado nestes quatro anos no Marítimo. Porque sentiu que agora era o fim do ciclo?

Nas nossas vidas, por vezes, temos de tomar decisões, difíceis ou não. Temos de saber sair na altura certa. Gosto muito do clube, sou muito acarinhado por todos, mas era o momento de sair. Estou a precisar de um novo desafio e o clube, se calhar, precisa de uma nova filosofia, de um outro discurso. Achei, eu e o presidente, que era ideal terminarmos esta ligação para bem do Pedro e do clube.

O Marítimo foi a única equipa a derrotar o Benfica. Tem um sabor especial?

Foi importante na altura porque eram três pontos e, para o nosso grupo jovem, acreditar que, se ganhámos ao Benfica, tínhamos capacidade para fazer um grande ano. Foi importante, obviamente, pela visibilidade que dá, mas já faz parte do passado. Não vejo nada mais que isso.

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