14/11/18
 
 
José Mourinho. Uma história que não conhece

José Mourinho. Uma história que não conhece

28/09/2014 00:00
De quase suplente do Rio Ave na festa do título sportinguista 81-82 ao episódio da camisola rasgada de Rui Jorge em 2004

Algures em Buenos Aires, numa escola perto de si, a professora prende a atenção dos alunos.

- Quem me sabe dizer uma palavra começada por P?

E eis que Manelinho, geralmente muito cabeça no ar e pouco interventivo nas aulas, levanta o braço, sai da mesa e põe--se de pé.

Mafalda antevê o pior "vai sair asneira".

E Manelinho diz "política".

Mafalda desabafa "o que é que eu disse?"

Agora que já promovemos uma das tiras mais engraçadas de Quino (faz hoje 50 anos que o semanário argentino Primera Plan começa a publicar a contestatária mais famosa do mundo), ainda por cima em dia de eleições primárias do PS, vamos ao que realmente interessa.

José Mário, José Mário, José Mário. Três golos deste rapaz de 19 anos na maior goleada de sempre do Belenenses em jogos da Taça de Portugal: 17-0 ao Vila Franca do Campo, de São Miguel, Açores, para os 64 avos-de-final, em Novembro de 1982. Ajuda acrescentar outro nome a este José Mário para a notícia ter esta relevância de duas página inteiras: é Mourinho, actual treinador do Chelsea, adversário de amanhã do Sporting, na segunda jornada da Liga dos Campeões.

Num fim-de-semana varrido pelas chuvas torrenciais em todo o país, o Belenenses-Vila Franca é, isso sim, uma chuva de golos. Ao todo 17, mas poderiam ter sido 19 (o árbitro Amândio da Silva, de Setúbal, anula dois golos a Bule).

Então vamos lá. Intervalo no Restelo, 8-0 com golos de Djão (11" e 18"), Simões (15"), Avelar (22" e 26"), Jorge Silva (35"), Sambinha (38") e Bule (39"). Na segunda parte, o treinador substitui o moçambicano Djão por José Mário. O Mourinho, lançado pelo pai Félix. Aos 48, José Mário, o tal, faz o 9-0. Bule (55"), Jorge Silva (63") e Carlos Alberto (78") ampliam para 12-0. Mourinho festeja o 13-0, aos 80". Segue-se um bis de Jorge Silva (82" e 86") e, depois, o hat trick de Mourinho, aos 88", que corre para os braços do pai, que lhe dá uma rara oportunidade. É Avelar quem fecha a contagem, nos descontos.

E pronto, eis Mourinho a entrar com letras garrafais na história belenense e da própria Taça. Curiosidade: nunca joga na 1.a divisão e é treinado pelo pai no Rio Ave mais Belenenses. Bola extra: um dia, a 16 de Maio de 1982, José Mário está assim (estamos a aproximar o indicador do polegar) de se estrear no campeonato nacional. Passamos a bola ao pai.

"Um jogador lesionou-se no aquecimento e o meu filho saltava da bancada para o banco de suplentes. O presidente José Maria Pinto meteu-se na conversa e pedi para sair no final da época." O local desse atrito? Estádio José Alvalade. O Sporting goleia 7-1 na penúltima jornada (cinco golos de Jordão) e sagra--se campeão nacional, enquanto o Rio Ave só tem quatro suplentes em vez dos cinco habituais. Falta lá José Mário, o Mourinho.

Calma, ele apareceria em Alvalade exactos dez anos depois, como adjunto de Bobby Robson. É apresentado pelo presidente Sousa Cintra, ao lado do inglês e de Manuel Fernandes, no dia 7 de Julho de 1992. O seu primeiro jogo em Alvalade é o de apresentação aos adeptos, com o PSV, a 1 de Agosto. Só a título de curiosidade, o onze contempla Ivkovic, Marinho, Carlos Jorge, Barny, Leal, Peixe (autor do golo), Figo, Cherbakov, Balakov, Cadete e Iordanov.

Um ano e meio depois, já se sabe. O Sporting é eliminado da Taça UEFA pelo Casino em Salsburgo e Robson é demitido no avião por Sousa Cintra. "Mister, já fomos." Robson não entende e Mourinho aprofunda a explicação. "Amanhã já não somos treinadores." Meu dito, meu feito. Sai o trio, entra Carlos Queiroz.

Só em Janeiro do ano seguinte (1994) é que se ouve falar novamente de Mourinho, novamente como escudeiro de Robson, agora no FC Porto. Coincidência das coincidências, Mourinho é um dos que atira o triunfante Robson ao ar pela dupla vitória: penálti de Domingos (1-0) e título de campeão a três jornadas do fim. Local? Alvalade.

Sempre Alvalade. Dezembro de 2000. O Benfica de Mourinho acabara de ganhar 3-0 ao Sporting campeão de Inácio. Menos de 24 horas depois, um volte-face inesperado. Inácio sai do Sporting e fala-se no substituto. Mourinho de seu nome. O empresário José Veiga conta melhor esta história. "O Mourinho era treinador do Sporting quando uma pessoa responsável saiu de uma reunião connosco. Tudo mudou em duas horas, o tempo que demorámos a chegar a Alvalade. Estava o Mourinho a ver a conferência de imprensa, a pensar que iria ser anunciado como treinador, mas aconteceu o contrário." O contrário é o presidente Dias da Cunha entrar na sala e clarificar os adeptos (mais a comunicação social) com um audível "não conheço nada em José Mourinho que o recomende como sportinguista."

Continua Veiga. "Os dirigentes tiveram receio. E ele obviamente que ficou estupefacto, de boca aberta." Que dirigentes? Luís Duque, então administrador da SAD do Sporting, abre a boca. "Notáveis, como Pedro Baltazar, impediram que José Mourinho fosse para o Sporting. Provavelmente teríamos tido a melhor década da história do clube."

Não, essa da melhor década da história do clube seria para o FC Porto: dois campeonatos e uma Taça UEFA antecedida de uma Liga dos Campeões na era Mourinho. Como treinador principal dos portistas, visita Alvalade duas vezes. Em Janeiro de 2003, é Costinha quem resolve o clássico na primeira vez que Mourinho e Ronaldo se cruzam no mesmo tabuleiro de jogo. Em Janeiro de 2004, regista-se o episódio da camisola rasgada de Rui Jorge (1-1). O jogo acaba mal, cheio de tricas pelo penálti do 1-1 (a jogada começa com um lançamento lateral para o Sporting, cedido pelo Porto para prestar assistência a João Vieira Pinto; Rui Jorge faz o lançamento com os azuis desatentos). Está o caldo entornado. Mal acaba o jogo, Mourinho salta do banco e gesticula intensamente com Liedson em pleno relvado.

A caminho do balneário, uma bicada no capitão sportinguista Pedro Barbosa durante o flash-interview. "Não digas isso Pedro, sabes que está a mentir, não te fica bem mentir". Na conferência de imprensa, um pedido especial. "Presidente [Pinto da Costa], deixe-me ir embora no final da época! O futebol português não gosta de mim e quanto mais depressa sair, melhor." Mourinho sai mesmo e nunca mais volta a Alvalade. Até hoje (conferência de imprensa às 19h30) com a promessa de haver mais, muito mais, amanhã a partir das 19h45.

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×