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Futre. "Eles disseram-me que estava louco e fui para o Porto"

Futre. "Eles disseram-me que estava louco e fui para o Porto"

01/08/2014 00:00
No dia 2 de Agosto de 1984, o treino do FCP tem um elemento inesperado. É Futre. Eis a resposta de Pinto da Costa às saídas de Jaime Pacheco e Sousa para o Sporting

O Verão 2014 é o do desmantelamento do plantel do Benfica campeão. O de 2004 é o da gloriosa conquista grega na Luz. O de 1994 é aquele quente, com Paulo Sousa e Pacheco a trocarem o Benfica pelo Sporting. O de 1984 é o da guerra das estrelas. Isso mesmo, a imprensa portuguesa apega-se ao último filme da série e cá vai disto. Mas a propósito de quê?

Lembra-se de Paulo Sousa e Pacheco em 1994? Dez anos antes, é só Sousa e acrescente Jaime ao Pacheco. Os dois titulares na final da Taça das Taças em Basileia vs. Juventus deixam-se seduzir pela proposta do presidente João Rocha e saem do Porto. O movimento é rápido, o Sporting rejubila. Jaime Pacheco é o primeiro a saltar, segue-se Sousa. E o FCP? Fala-se muito, faz-se pouco. Passa um dia, dois, três. A imprensa especula com nomes. Dizem que Litos está a ser tratado para o Porto, depois já é Ademar, finalmente Jordão. Para espanto, não é nenhum deles. O alvo chama-se Futre.

Lançado pelo checo Josef Venglos ao intervalo do jogo com o Penafiel na jornada de abertura do campeonato 83-84 (0-0 aos 45", cinco-um aos 90"), em Alvalade, o extremo-esquerdo encanta pelos seus ziguezagues constantes. Os adversários vêem-se em palpos de aranha para o travar - só mesmo à base da canelada ou de luta livre. Mas muita, muita, muuuuuita, porque "Futre é como um boneco de Subbuteo, mal cai, já se está a levantar", como diria César Luis Menotti, seu treinador no Atlético Madrid.

"Quando fui do Montijo para o Sporting, só tinha 11 anos e ia todos os dias de barco. Demorava uma hora para ir e outra para voltar. Com 14 anos, passei um ano inteiro no centro de estágio, em Lisboa. Naquela noite de Agosto de 1983, o Venglos lançou-me e entrei na segunda parte. Difícil imaginar um palco mais emblemático e perfeito que Alvalade para me estrear pelo Sporting. E também pela selecção nacional."

Estamos em 1984, então. Portugal acabara de fazer um brilharete em França, no primeiro Europeu da sua história, com a eliminação nas meias-finais aos pés dos anfitriões no último minuto do prolongamento (3-2 de Platini). Embora Futre não faça parte dos eleitos, já é uma figura confirmada nos próximos eventos, como o Mundial México-86. Aos 17 anos de idade, o esquerdino já soma duas internacionalizações. Está lançado. É uma figura pública. Dá entrevistas engraçadas. Como uma ao jornal desportivo "Off Side".

Melhor jogador de sempre: Chalana e Oliveira em Portugal; Maradona e Conti, lá fora. Jogador do futuro: Litos. Ídolo dos seus tempos de criança: O trio Oliveira-Manuel Fernandes-Jordão. Outros desportistas que admira: Björn Borg. A equipa ideal: Bento; Gabriel, Humberto, Eurico e Inácio; Carlos Manuel, Oliveira e Romeu; Jordão, Manuel Fernandes e Chalana. O melhor filme: Os Salteadores da Arca Perdida. O melhor estádio: Parque dos Príncipes, em Paris. O melhor hobby: Cinema. Comida preferida: Lombinhos de vitela e marisco. Clube de infância: Benfica.

No Verão de 1984, Futre já tem 18 anos. É maior de idade. E é o maior. Irá ele continuar no Sporting ou...? Conta-nos Eurico, interveniente directo de um dos grandes episódios recambolescos do futebol nacional. "Conhecem-se histórias de detectives, sobretudo com o Futre... O futebol é adrenalina. Um frade nunca seria jogador de futebol e um futebolista não tinha capacidade para ser frade. O Futre talvez desse trabalho aos detectives [risos] mas também os dava aos adversários. Era um fenómeno. Eu conhecia-o dos meus tempos no Sporting, porque ele era júnior e, às vezes, treinava connosco. Quando cá em cima [Porto] me perguntaram por ele, disse-lhes que era um valor seguro. Em 1984, o Sporting equacionava emprestá-lo à Académica. E o FC Porto, através de um empresário galego, foi a Lisboa e trouxe-o para o Porto. Espécie de rapto. Consentido, claro. Na quarta-feira, toda a equipa do FC Porto foi para estágio, para manter o Futre ao nosso lado e para ele assinar o contrato."

O empresário galego de que Eurico fala é Perez Andion, representante do FCP em Lisboa. Conta Futre ao i. "Ganhava 70 contos [350 euros] por mês no Sporting e o FC Porto ofereceu-me 27 mil contos em três anos [134 mil euros] mais carro e casa. Falei com o Sporting e pedi-lhes 18 mil contos em três anos, 6 mil por ano. Eles disseram-me que estava louco e eu fui para o FC Porto, alegando falta de condições psicológicas. Aquilo que ainda hoje questiono é se o dirigente a quem pedi o aumento chegou mesmo a falar com o presidente João Rocha sobre as minhas exigências."

Qual dirigente? Armando Biscoito. Diz o homem. "Dei indicações na secretaria do Sporting para não se aceitar nenhuma carta registada vinda do Futre, para evitar a rescisão por causas psicológicas. Passados 25, 26 dias recebemos uma carta registada da FPF e, para nosso espanto, lá dentro estava o documento, assinado pelo jogador, que tínhamos evitado receber. Tudo acabou. A FPF esteve, lamentavelmente, em conluio com Futre e com quem o contrato. Ainda fui ao Montijo com o advogado do Sporting, João Gaspar. Negociei com o irmão e os pais de Futre, avançando com uma verba a rondar os 18.000 contos (90 mil euros) por época, 1500 contos mensais (7.500 euros), mas nada feito."

Isso mesmo, nada feito. O telefonema de Pinto da Costa é decisivo. "Paulinho, aqui vais ser tu e mais dez." Futre parte para o Porto na companhia de Domingos Pereira e Alexandre Magalhães, portador do contrato, e esconde-se na casa do dirigente Álvaro Braga Júnior, onde se mantém por três meses. No dia seguinte, faz hoje 30 anos, Futre entra nas Antas. Triunfante, claro. Treina bem e recolhe aplausos dos adeptos. "Não quero entrar em detalhes sobre as razões que motivaram a saída do Sporting. Lá, os jogadores de fora é que são bons, aos da casa exige-se que joguem por amor à camisola. Se lhes dissesse quanto ganhava no Sporting, ainda corria o risco de me chamarem mentiroso."

Alguém lhe pergunta sobre a família. "A minha mãe ficou um pouco desolada por ter deixado o Sporting mas já lhe telefonei e agora está tudo bem." Muitos anos depois, em entrevista ao i, Futre acabaria até por desabafar. "Os meus pais é que sofreram com a troca Sporting-FC Porto. A sua privacidade era constantemente ameaçada. Partiam vidros das janelas, batiam à porta, telefonavam a horas escandalosas. Talvez por isso, não sei, estou a especular, a minha mãe nunca me viu jogar ao vivo."

Outro jornalista deixa-o a pensar: está a dar um passo em frente na carreira? "Não vou dormir à sombra dos louros conquistados no Sporting. Vou trabalhar para ser melhor, melhor e melhor." E está certo. Nos três anos de azul e branco, Futre ganha dois campeonatos nacionais, duas Supertaças portuguesas e uma Taça dos Campeões, com um total de 115 jogos e 33 golos (o Sporting nada ganha nesse período). Quando sai das Antas, em 1987, enche os confres do FCP com 630 mil contos do Atlético Madrid de Jesus Gil y Gil. Mas isso é outra história. De Verão, óbvio.

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