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Escolas. Este homem não aguentou mais

Escolas. Este homem não aguentou mais

20/10/2014 00:00
O director das Escolas da Apelação passou os últimos três anos à procura de soluções para contornar as dificuldades que lhe chegavam do ministério de Nuno Crato. Agora disse basta

Félix Bolaños apresentou a sua demissão ao Ministério da Educação. Dez anos depois de ter assumido a direcção do agrupamento de escolas da Apelação, em Loures, concluiu que chegou o momento de "dar lugar a outros". As dificuldades com a colocação de docentes ao longo destas semanas foi a gota de água. Cinco anos a tentar contornar obstáculos é o limite para dizer agora: "Já não acrescento valor a este projecto", assume.

Quando chegou a Loures, a Apelação era um agrupamento "violento". As agressões de alunos e jovens exteriores à escola a professores, auxiliares e outras crianças eram o dia-a-dia. A elevada taxa de rotatividade de docentes (em torno dos 75%) também não ajudava a mudar essa realidade: "Tínhamo-nos tornado especialistas em receber novos professores todos os anos."Nos últimos três, os problemas com a contratação de docentes vieram complicar ainda mais a situação. "Estou entre dois travões muito grandes: o Ministério da Educação, com a sua excessiva regulamentação e política de recursos humanos, e ainda o conjunto de maus professores que me impedem que isto avance", explica.

Em Setembro, 13 dos cerca de 40 professores do agrupamento viram o seu contrato anulado e isso fez com que "dois ciclos tivessem ficado praticamente sem professores" - o 2.º ciclo e o pré-escolar. Seis vagas continuam por ocupar, mas a crise não ficará resolvida quando todos os lugares tiverem sido preenchidos. "No ano passado estivemos sentados à mesa com especialistas de todo o país, a perceber como podíamos organizar este ano lectivo em função das áreas que consideramos prioritárias para o nosso projecto educativo e, de repente, um terço dos professores vai-se embora com esta formação", lamenta Bolaños. Os novos professores têm chegado a conta-gotas, mas esse investimento foi por água abaixo. "Agora, aos professores que chegam pela primeira vez às nossas salas de aula, são os alunos que lhes explicam como têm de funcionar nesta escola", conta Félix Bolaños.

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Helena Barata faz parte desse grupo de estreantes. Cumpriu ontem o seu primeiro dia como professora de Educação Moral no agrupamento e, quando entrou na sala, encontrou um aluno descalço e com os pés em cima da mesa. Nada que a tivesse deixado sem resposta. Apesar de esta ser a primeira experiência num agrupamento do programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), a docente já passou por outras escolas em bairros ou freguesias desfavorecidas.

Na Apelação, mais do que transmitir um programa curricular, Helena traçou como objectivos "o trabalho dos valores e das regras", porque percebeu rapidamente que "muitas das crianças vêm de casas em que os pais passam mais de doze horas a trabalhar". Em realidades como esta, a escola funciona tanto como um espaço de formação no sentido mais lato.

A intervenção de Félix Bolaños tem este contexto como pano de fundo, e já deu nas vistas. Tanto que o Presidente Cavaco Silva passou pela escola em 2008, para apresentá-la como um exemplo da intervenção para a cidadania em zonas com questões sociais sensíveis por resolver. Gilberto, 14 anos, conhece essa realidade. Em 2012, com uma perfuração de bala no pescoço, chegou ao hospital transportado num carro particular, porque a ambulância não respondeu à chamada de urgência do bairro da Quinta da Fonte. Era noite de fim de ano e Gilberto foi atingido por uma bala perdida dos festejos. Dentro da escola, o adolescente arrasta os recém-chegados até à grade, com vista para o bairro, na base de um pequeno monte. Quer mostrar o seu rosto, desenho em jeito de homenagem, em ponto gigante, na parede de um dos prédios do complexo.

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A frequentar o 8.º ano, Gilberto (ou "Bartolo", como tratam os colegas) tinha ambições que destoam da maioria. Quer ir para a faculdade, tirar um curso e chegar a agente das estrelas do futebol. Ali, entre os 400 alunos, poucos pensam numa meta tão distante para os estudos. Tirar o 9.º ano e arranjar trabalho é o projecto mais comum. Gilberto não. Perdeu o 6.º ano, mas garante que isso é coisa do passado, do tempo em que se "portava mal". Este ano volta a reclamar um lugar na orquestra na escola. Agora gosta dos instrumentos de percussão, mas já passou pelo violoncelo, onde partilhou responsabilidades com Maria Nascimento.

De aluna da orquestra, a jovem moradora da Quinta da Fonte passou a técnica do agrupamento. Essa era, de resto, uma das estratégias de Bolaños: dar protagonismo a figuras do bairro, dar-lhes voz activa e contar com as mais-valias dos seus "papéis de líderes" para que pudessem fazer a ponte entre os moradores e os alunos, por um lado, e a comunidade escolar, por outro.

Maria é das poucas moradoras da Quinta que não estudou na Apelação. Do Parque das Nações seguiu para a Escola Superior de Comunicação Social e para o curso de Audiovisual e Multimédia. Já era uma aluna popular na escola, mas este ano recebeu um novo desafio e ficou encarregue do Gabinete de Intervenção Comportamental. É lá que vão parar os alunos que se "portem mal", e Maria tenta acertar a agulha com alguns conselhos. É alguém que "compreende a realidade familiar e que fala com os miúdos de forma diferente", de uma maneira que os professores não podem ou, por vezes, não sabem fazer.

É, no fundo, o exemplo comprovado de que o futuro pode não ser a repetição absoluta da realidade que as crianças conhecem em suas casas. Aos 27 anos, sem filhos, solteira, não foram poucas as vezes em que teve de lidar com a surpresa dos alunos. O perfil não corresponde à regra.

O convite a Maria Nascimento é a prova de que o projecto de Félix Bolaños para o agrupamento não estava esgotado. Acabou com a violência na escola, reduziu substancialmente os casos de indisciplina e preparava-se para actuar junto do terceiro problema diagnosticado: o insucesso. A Apelação tem história feita nos rankings de avaliação das escolas públicas, com lugar cativo no fundo da tabela. No último ano ficou em penúltimo. E isso deveria exigir uma "discriminação positiva" por parte da tutela, diz o director. Só que o Bolaños queixa-se exactamente do contrário. A "continuidade pedagógica" é fundamental numa escola com o contexto social como aquele. E, durante alguns anos, "com um corpo docente fixo e com a formação adequada", conseguiu-se minorar os problemas do agrupamento.

Hoje, as escolas do programa TEIP são "as últimas a ter professores, os professores que vêm já não têm a mesma vaga que tinham antes e é difícil para uma escola ter um projecto inovador e poder transmitir um projecto da normalidade com a gestão de recursos humanos que tivemos nos últimos três anos". O director demissionário recusa ser "um mero gestor do dia-a-dia ou gerir uma escola para saber quantos almoços é preciso fazer, quantos professores é preciso contratar". E, por isso, sai.

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